Pouco mais de 24 horas após a tempestade que assolou São Vicente e que enlutou muitas famílias, as duas expressões que ainda se ouvem na cidade e arredores são “coisa nunca vista” e “parecia o fim do mundo”.
Isto numa referência colectiva à carga de água que caiu do céu na madrugada de segunda-feira, 11, acompanhada de trovoadas, raios e relâmpagos, que, durante quatro horas, tirou o sossego, trouxe o luto e prejuízos de monta a famílias, à ilha e ao país.
O número de vítimas mortais até ao momento é de oito, avançou o vereador da Protecção Civil, José Carlos da Luz, um dos quais eletrocutado, três pessoas continuam desaparecidas e 12 desalojados encontra-se acolhida no Centro de Estágios da Federação Cabo-verdiana de Futebol.
“Com os meus 80 anos posso dizer que chuvas como estas nunca vi, ainda por cima com tanta intensidade de trovoadas, raios e relâmpagos, que transformavam a noite de breu em dia claro”, atirou o senhor Manuel ao repórter, na zona traseira do Mercado de Peixe, para onde conflui toda a enxurrada.
No mar, à vista, cinco viaturas a boiar, mas há informação de que há mais no fundo do mar, e outras, muitas outras, totalmente danificadas e expostas da Rotunda da Ribeira Bote, à Avenida 12 de Setembro até a Praça Estrela, encurralas entre arvores ou nos caminhos de água.
“Acabou tudo, uma vida de esforço levada para o mar”, declarava um jovem comerciante da costa ocidental africana, que não quer ser identificado, sentado à frente da sua barraca, na Praça Estrela, com um balde, água e escova a tentar recuperar algum calçado e outras peças, que já foram de outras cores, mas que naquele momento eram todas da cor castanha das enxurradas.
Aliás, a Praça Estrela, local central do comércio informal da ilha, foi uma das zonas mais afectadas, com barracas inundadas e perdas totais do recheio, viaturas trazidas pelas enxurradas, que galgaram o passeio e posicionam-se agora ao lado das barracas, pavimento e corrimão de protecção levantados e detritos espalhados.
Há ainda, por toda a ilha, relatos de estabelecimentos comerciais destruídos pela força da água, estradas cortadas e famílias, muitas famílias, que viram o recheio das casas sair pelas portas e janelas rumo ao mar, “puxado” pela força das enxurradas.
O Governo decretou dois dias de luto nacional, acto contínuo o primeiro-ministro, Ulisses Correia e Silva, deslocou-se a São Vicente, onde hoje deve visitar a zona piscatória de Salamansa, e a câmara decidiu cancelar a edição 41 do Festival da Baía das Gatas, que deveria começar na próxima quinta-feira, 14.
Ainda hoje prevê-se que chegue à ilha o Presidente da República, José Maria Neves.
O momento é de enterrar os mortos, ajudar os vivos, apurar os avultados prejuízos e arregaçar as mangas, porque a reconstrução da ilha vai exigir muito de todos.
A Semana com Inforpress
São Vicente: um desastre anunciado que tem responsáveis com nome e morada
Isto é daqueles casos em que não há como dourar a pílula: São Vicente está a pagar o preço da arrogância e da incompetência política acumulada. Há décadas que engenheiros, técnicos hidrográficos e especialistas nacionais e estrangeiros alertam para o mesmo problema — respeitar as linhas de água, planear (ops… organizar) a expansão urbana com bom senso e não tratar ribeiras como se fossem terrenos para construção.O resultado está à vista: mortos, casas destruídas e famílias a começarem do zero… tudo porque sucessivas câmaras municipais preferiram fechar os olhos aos pareceres técnicos.
Se isto não é negligência grave com consequências fatais, então não sei o que será. Uma queixa-crime contra a câmara municipal não só faria sentido como deveria ser acompanhada duma auditoria independente para apurar responsabilidad es individuais. Porque isto não foi “azar” nem “fenómeno natural imprevisível” — foi, sim, um desastre anunciado e evitável.
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