quinta-feira, 18 abril 2024

C CULTURA

O tempo não passa, o tempo de cada qual

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Sobre o tempo sempre se voltaram a física e a filosofia. Mais recentemente a genética pensa o tempo, estuda o desgaste do organismo, intenta prolongar nossa vida. Gosto de acompanhar o tanto que se produz de teoria sobre o assunto. A mim, para o meu cotidiano, defini o tempo como o correr da vida. É que o tempo não corre; quem corremos somos nós. Vamos passando, passando, acaba. Acaba a vida, o tempo não acaba.

 Por Léo Rosa de Andrade*

Há outras definições, há equações, há filosofias, há até negações da existência do tempo. Não há discussão do existir da vida. Todo mundo sabe: ela começa, ela conclui. É a vida no tempo. Esse tempo me fascina e me assusta. Fascina-me a ponto de me voltar a preenchê-lo, tanto quanto posso, que dele tanto gosto, com tão somente o que me apraz. Mantenho calma distância de coisas das quais desgosto. Entre as coisas está também gente.

O tempo me apreende de modo a eu investir tempo em encalçar mais tempo do que posso dispor. Hei, porém, de investir tempo para entender o tempo: “Mais do que um conceito único, o tempo se apresenta como uma força de inúmeras faces, e as discussões sobre essa força se estendem aos mais diversos campos de conhecimento, entre eles a biologia e a física. A vivência do tempo é uma condição de se estar no mundo, e é inerente a todos os seres vivos estar sob a ação dessa força da natureza” (Helena Mollo, http://migre.me/fssPQ).

O tempo, pois, não brinca, não é gentil; é implacável, acontece, impõe-se. Em um dado tempo incumbe-nos praticar a vida, sofrer a vida, gozar a vida. Cada um tem um tempo, é o tempo de viver. O tempo se nos apresenta de muitas maneiras. Duas nos interpelam, já a biologia, já a consciência: o tempo como um fenômeno da natureza (o tempo da física), o tempo como uma construção cultural (o tempo da filosofia).

Vendo-se o tempo como natureza, ele apenas é: trata-se de um dado do mundo, nem mais nem menos; enquanto fenômeno da natureza, não seria explicável, mas apenas constatável. Nós, reitero, é que passamos por esse tempo que não acontece. De fato, não é o tempo que se vai, quem acontece e se vai somos nós.

Já, como cultura, “existem três formas básicas para se perceber a existência do tempo: a repetição das coisas (gotas caindo de uma pia, o ciclo das estações do ano); a entropia nos objetos e em nós (nosso envelhecimento biológico, a maçã apodrecendo); e notando a passagem relativa de uma coisa em relação à outra (uma maçã ‘envelhece’ mais rápido que um homem). Todas essas formas de sentir o tempo mostram-nos que a sua regularidade não é uma parte intrínseca da natureza, e sim que é uma noção fabricada pelo homem” (E.R. Leach, http://migre.me/fssJ4).

 

“Existem três formas básicas para se perceber a existência do tempo: a repetição das coisas (gotas caindo de uma pia, o ciclo das estações do ano); a entropia nos objetos e em nós (nosso envelhecimento biológico, a maçã apodrecendo); e notando a passagem relativa de uma coisa em relação à outra (uma maçã ‘envelhece’ mais rápido que um homem). Todas essas formas de sentir o tempo mostram-nos que a sua regularidade não é uma parte intrínseca da natureza, e sim que é uma noção fabricada pelo homem”.

O tempo, pois, o tempo que é, o tempo natureza, não será ele que me vai envelhecer, que me vai matar. Mas, contraditoriamente, eu biologia, que, afinal, sou natureza, não tenho escapatória: um pouco adiante do agora eu vou acabar. No tempo da cultura, porém, eu tenho margem de manobra. Nesse tempo, interessa-me o relativo de mim mesmo com as coisas que me contentam. Seja: quero fazer as contas e dispor o que gosto para, na relação do tempo com o usufruto existencial do tempo, viver com prazer.

Essas coisas todas me ocorreram porque ouvi a mulher pedindo certezas afetivas ao sujeito. Não, não bisbilhotei a conversa alheia; ela me veio às orelhas, não tive como evitá-la. Dado o conteúdo, sim, escutei-a com gosto e compenetração. Parecia-me que a mulher carecia das palavras que o amor romântico impõe – nesse tipo de amor, importa o ato declaratório. O homem, que imaginei constrangido, contrapunha que amor é gesto, não declaração. Desconfiei que a coisa acabaria em dissonância afetiva.

Ele calou. Logo passou a indagar; ela respondia um tanto a contragosto: – Quanto vinho tomarei? – Hoje? Não entendi, não sei. – E músicas? – Falas da vida? Pelo resto da vida? – Quantos invernos viverei? – Não sei. O que você quer dizer? – Quero dizer que tenho um tempo para viver, um tempo para o qual eu dou extremo valor. – Mas... Onde queres chegar? – Bem, eu tenho um tempo e eu tenho escolhas... Tanto quanto pude, escolhi o melhor para trazer à minha vida, ao meu tempo. E escolhi viver o meu tempo com você.

Houve silêncio no tempo de cada um, não no tempo dos dois, que tempos não se misturam jamais. Não me permiti voltar-me para tomar a cena; seria demasiado impertinente. Todavia fui minudente na imaginação: ela emudeceu, entendeu-se na vida dele, tomou-se de carinho; pôs-se meiga e reflexiva, mas o sorriso era contente. Pensou no tempo de cada qual na vida que convivem. Seus olhos trouxeram lágrimas e se puseram a brilhar. Ela intuiu que era amada. Ele demorou-se enternecido com o jeito como ela o percebeu.

27 de fevereiro 2024

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*Doutor em Direito pela UFSC.Psicanalista e Jornalista.

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