domingo, 04 outubro 2026

Derradeiro e atribulado desafio

Estou embasbacado com tamanha virulência da minha hóspede furtuita e ouso dar-lhe troco – «Bem, não tenho culpa de estares no sopé da minha nuca e acoplada ao meu pescoço. Eu não te convidei e nunca te quis à volta do meu radar. Solta-te daqui sua bruxa azeda e descarada usurpadora!». A azafamada parasita, estando atingida com desconchavo e no vazio da sua bazófia, exibe um cabisbaixo, não reage. Então, para trazê-la a meu contendo, resolvo entoar-lhe os versos acrílicos e humanos da minha lavra. A insipiente criatura começa a sibilar, numa pose esquiva e desconfiada. Depois, à medida que lhe ostento as proezas sonoras do meu jardim, a louca deixa de ser raivosa e assaz grosseira. Torna-se mole, catita e serenada. Apenas pelo friso da lingueta de niquices desata a saudar e a fazer-me cócegas de brinde. Sempre a inclinar-se para o seu predileto lado extremo. De seguida, já amistosos, decide agraciar-me com momices e carícias. Baixa a coma, assume-se quieta e quase flácida de brio. Está domada e francamente hipnotizada. 

A ofídia desativa de si o instinto de malquerença e predação. Desiste de me picar, de motu próprio. O susto inicial é para esquecer, digo num claro tom de desafogo. Entretanto, acontece um outro intrincado contratempo ao meu redor. Sai-me de dentro da algibeira uma cartola. É mística e fogosa, cintilante tal que candelabro de Monte Tchota. Tresanda-me a provação do Ser do alto. Transmuta-me, num ápice de instante, em Sousa de Zebedeu. Estou na soleira da caverna de Rachado, homizio do empolgado e supradito nigromante, em virente Ribeireta. Ah fenda do mirone de ladeira até Enseada!  Agora, de incensado poder na mente, para mudar o curso de história da minha gente e resguardá-la do alcance de hedonistas e sibaritas, os da espécie da espúria e esguia categoria da minha bimba interlocutora, dou um brado de radiante regozijo. 

Passa-me pelas ventas do nariz o faro de vidência. A mainata de serpente já nem liga. Mui afeita ao meu poisio, não dá mostras de agressão. A cartola vira lâmina de espuma. E a espuma vira pluma de borboleta. Sinto-me a vibrar e a palpitar, embora não da nitente visão de pequenos nadas, da estirpe do brioso Garcia Marques, ganho aura de entusiasmo na lívida odisseia. Elevo-me das trevas e sou asas de magia. Ponho-me a vagar na leveza das nuvens. Tenho exíguo tempo para viver. Ainda assim com peso na consciência e sonhos de sobejo para cumprir. Apresso-me bastante. Um tanto agitado, anseio endireitar o que de torto na minha ambiência. Imagino-me a participar de uma merecida homenagem a prestar pela edilidade da minha origem ao prolífero poeta, Vadinho Velhinho, em Arquétipo dos Anjos. De facto, o vulto Valentinous é o primeiro oficiante a sério de São Miguel. 

Numa outra guinada de rebuscada gentilidade, para escorreitar coisas tediosas e defeituosas do meu rincão, intuo uma gesta de igual quilate, em prol do destemido e deslumbrante criador, Kauberdiano Dambará e do seu leal confrade de caminhada, Kaká Barbosa, em Santa de Novembro.  Ando com saudades do Frank Mimita e do meu então compincha de labor, Zequinha de Bulimundo. Cogito e diviso logo a discrepância de proceder desta sórdida metrópole. Por isso, vivamente dou um pupo: caramba! Nunca foram celebrados, com pompa e circunstância, por minha falsa, mas bonita urbe de preito. Que lancinante ingratidão! Imagino, concomitantemente, uma espécie de sarau cultural a oferecer por município da cidade de Monte Efígie, com a presença de exímios trovadores da morna e coladeira, de agradável melodia, como Albertino Évora, Dudu Araújo e Lucibela, por exemplo.  Tudo em memória do ilustre vate-mor, Osvaldo Osório. 

Na mesma senda de lucidez e leva de coerente espirituosa reflexão, para corrigir o que está mal e não me estragar a alma de agradecido, enxergo a contribuição do Bonga Kwenda a favor da cultura do meu país. Alcanço também as genuínas amizades do radioso Waldemar de M’banza Congo, com relação a este povo do meio do mar. Então, envio uma trémula e mirífica missiva ao Ministério da Cultura do meu torrão, a suplicar por um reajuste de calendário, com o fito de atribuir um justo reconhecimento aos dois astros predecessores da desenvolta música angolana da hodiernidade. E junto a uma cascata da minha herdade, com refulgente e mui benzida água do Bengo, num amplo espaço de dileção, uma estátua de Aniceto Vieira Dias, o estroso combatente cultural da minha esfera. Ao lado, uma outra para o renomado João Seria de São Tomé. E uma terceira para o meu vizinho e meio irmão, José Carlos Schwartz.  Enfim, estou na tênue espessura dos ares e há muito para acertar, com esta nova visão de seara da minha parte. Foi assim que tive sonho.

 

*Na pele de Sísifo Ali Jó

Colunistas

Alexandre Vieira Fontes
Alexandre Vieira Fontes
18 Sep. 2026
Filomena Silva: uma jornalista de coragem e...
Léo Rosa de Andrade
Léo Rosa de Andrade
31 Aug. 2026
A ÉTICA DO DESINTERESSE, A VIDA EM...
César Augusto G. Garcia
César Augusto G. Garcia
21 Aug. 2026
COISAS DO ESTADO ou ESTADO DE COISAS...

Comentários

joão do rosário
27 dias atrás 21 horas atrás

SENHOR PRESIDENTE, DEIXE-SE DE TRETAS: NÓS SABEMOS QUEM O SENHOR É José Maria Neves vem agora dizer que é “muito melho ...

jcf
29 dias atrás 14 horas atrás

Cabo Verde tem uma facilidade extraordinária para comentar o que se passa na casa dos outros. Guiné-Bissau, Angola, Moçamb ...

joão do rosário

Isto já parece gozo. 177 casos desde o início do ano e já estão outra vez a sacudir o fantasma da pandemia. Sem números ...

Pub-Reportagem

publireport