quinta-feira, 19 setembro 2024

Cabral promovia igualdade de género, mas sempre houve resistência

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 Lilica Boal, professora na luta de libertação, ao lado de Amílcar Cabral, diz que a alfabetização de mulheres à hora de preparar o jantar incomodava os homens, sobre o projecto que retomou no regresso a Cabo Verde nos anos 1980.

Quando viemos para aqui [Cabo Verde] começámos a trabalhar na alfabetização”, conta a antiga directora da escola-piloto do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), uma das mulheres escolhidas por Cabral para lugares de chefia, ao promover a igualdade de género.

No ano em que se celebra o centenário do nascimento do líder das independências dos dois países, Maria da Luz Boal – mais conhecida como Lilica – recorda, em entrevista à Lusa, o convívio com a figura histórica e refere que, ainda hoje, há “lutas inacabadas” – quanto ao género e à maneira como a história cabo-verdiana é ensinada

Após o golpe de Estado de 1980, em Bissau, que pôs fim ao projecto de união dos dois países, Lilica Boal regressa às ilhas onde nasceu (Tarrafal de Santiago, 1934), continuando a trabalhar no setor público da educação.

As desigualdades de género estavam presentes, assim como o analfabetismo.

Quando organizávamos reuniões com as mulheres, os maridos reclamavam: agora na hora de se fazer o jantar é que a Organização das Mulheres de Cabo Verde (OMCV) se lembra de vir alfabetizar, questionavam.

Uma recordação hoje acompanhada com uma gargalhada, mas que serve para ilustrar a resistência à igualdade de género – mesmo depois de o líder das independências pregar que a luta de libertação face à ditadura colonial portuguesa também dependia das mulheres.

“Não era comum, mas ele [Cabral] já tinha na cabeça o problema do género”, refere Lilica, como quem vai descrevendo os traços marcantes de uma personalidade que ela própria foi descobrindo.

Não era um homem qualquer” e isso percebia-se “logo na maneira de falar”.

Mesmo que lentamente, a igualdade de género tem progredido, mas a antiga directora da escola-piloto tem uma opinião: “Acho que podemos [mulheres] fazer muito mais ao nível da base do que estando lá em cima”, em cargos de maior poder e aponta para aquele trabalho de base, de alfabetização, como exemplo.

Lilica Boal enfrentou as desigualdades, de género e não só, desde cedo.

Ainda era criança, no Tarrafal, quando lhe ficaram gravadas na memória as imagens duras da fome no norte da ilha de Santiago.

Estávamos à mesa e estava um miúdo à porta, com uma casca de coco, a pedir comida. Para mim, era duro ver uma criança da minha idade naquela situação. Isto foi muito importante no percurso da minha vida, marcou-me profundamente”, relata, recordando a casa dos pais, comerciantes, célebres pelo apoio à comunidade e aos presos políticos do campo de concentração do Tarrafal.

As imagens da infância encaixaram-se no resto do percurso que a levou à Casa dos Estudantes do Império, em Lisboa, como uma força que, em 1961, a fez virar costas a uma vida universitária, em Portugal, para arriscar a vida com um grupo em fuga (clandestina) para a luta de libertação – relatada e documentada na Internet.

Hoje, perante as comemorações do centenário de Cabral, Lilica Boal mostra-se otimista quanto à preservação do legado histórico, apesar de achar que as actividades que têm decorrido mereciam mais relevo: “fazemos muito, mas ainda estamos longe”.

Chamam-nos para ir falar sobre a luta aos liceus, falar sobre Cabral. Portanto, há uma vontade. Começa a haver mais interesse em conhecer o passado”, refere à Lusa.

A antiga directora e professora da escola-piloto do PAIGC enaltece sobretudo as atividades nas ruas, sempre que há motivos para o povo sair, porque “é aí que [a população] mostra o seu descontentamento”.

Não é ao sentar-se na assembleia [parlamento] a ouvir o discurso deste ou daquele partido, do que fez um ou o outro. Não é essa guerra [política] que interessa, mas é o povo na rua, a cantar, saltar ou a mostrar que tem isto ou aquilo”, conclui.

Amílcar Cabral celebraria 100 anos a 12 de Setembro de 2024, decorrendo actividades em diferentes países para assinalar a efeméride.

Em Cabo Verde, várias comemorações estão associadas à Fundação Amílcar Cabral e incluem um colóquio internacional sobre o líder histórico, a realizar em Setembro, como ponto alto do programa.

A Semana com Lusa

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Colunistas

Opiniões e Feedback

joao neves2
7 days 8 hours

Porquê que as eleições têm de ser realizadas apenas num Domingo? O Governo não pode conceder tolerância de ponto?

D. G. WOLF
16 days 4 hours

A Guiné-Bissau é uma espinha atravessada na garganta dos cabo-verdianos.

JP
20 days 6 hours

hehehe SATANÁS ta inspeciona DEMONIOS hehehe Só trossa propi

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