segunda-feira, 26 fevereiro 2024

SÍNDROME DOS MC’S. TRANSTORNO DA MÚSICA CABO-VERDIANA OU METAMORFOSE COMUNITÁRIA?

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A síndrome dos Mc’s (Mestres de Cerimónias), para além de levantar questões como transtorno da música cabo-verdiana ou metamorfose comunitária, leva-nos para questões como a crise de valores, bem como as suas implicações nas sociedades democráticas.

 

 

As inspirações dos Mc’s cabo-verdianos dividem a sociedade, na anuência e no desdém. A verdade é que tanto a anuência como o desdém contribuem para que as suas inspirações atinjam milhões de visualizações no YouTube. Ultimamente tem acontecido o êxodo tradicional na música cabo-verdiana onde os artistas e os fãs trocam as músicas tradicionais pelas músicas contemporâneas, atribuindo a culpa à geração 2000. A atual “epidemia” surtida já nos anos 90, através das primeiras criações musicais (com mistura de ritmos intensos, rimas poéticas, integrando o contexto social, cultural e político) dos Rappers da época entre eles, o colosso, Heavy H, deu seus primeiros sinais clínicos no ano 2000.

Atualmente assiste-se a recaída com a disseminação dos Mc’s em todas as streets cabo-verdianas, principalmente nas periferias, onde jovens e adolescentes que, na tentativa de procurarem vibes e aparições públicas ou de debelar a pobreza e a criminalidade, procuram a música como refúgio.

Nesta senda, enfatiza-se o MC Panki, de 35 anos, natural da cidade de Assomada, localidade de Chão de Tanque, no ano 2021, num “Direto” no YouTube, teve a sua primeira audiência e popularidade decorrente da sua originalidade e humildade, atrelados a um nível de português falado. Os vídeos tornaram-se virais nas redes sociais, conquistando a popularidade dos cabo-verdianos, tanto no país quanto na diáspora.

Bruno Miguel Monteiro Moreira, seu nome de registo, já chamava atenção com o seu corte de cabelo que se assemelha o arquétipo de um chapéu, daí a alcunha Panki, procedendo o nome artístico mc Panki. Em 2022, o Mc Panki gravou a sua primeira música “Chuva vai chover” num dueto com o angolano Helder, rei do Kudoro, reunindo 84 mil visualizações. Depois disso, já gravou músicas com temas como: “Barral”, “Tremeda”, “Só filmi”, porém, os maiores destaques vão para o hit “Vanessa ko dal”, acolhendo até agora 279 mil visualizações e a última música “Nada ka muda”, num dueto com Mc prego, entrando na música tradicional cabo-verdiana em grande estilo por meio de um funaná que tanto promete vibrar os cabo-verdianos nos pubs, discotecas ou até nos transportes públicos.

Mc Panki, que antes de entrar no mundo da música trabalhava como servente pedreiro, hoje já atuou na Assomada, na Praia, no Tarrafal de Santiago, nas ilhas como Boavista, Sal, Fogo, Brava, São Vicente. Mas o maior destaque vai para a sua atuação num dos festivais nacionais, o da Ribeira da Barca, cidade da Assomada. Efetivamente, o seu maior sonho é pisar outros palcos grandes como os festivais de Areia Grande (Santa Cruz), Gamboa (Praia), Assomada (Santa Catarina) e Baía das gatas (São Vicente).

A carreira de sucesso dos Mc’s feita por meio de baixa qualidade artística, com composições que expressam mediocridade e imoralidades, a escassez do talento nesses compositores, a carência de acordes e harmonias nas suas criações musicais, o mau aproveitamento das redes sociais, as escolhas das temáticas vulgares, sem uma filosofia por detrás abduzido dos substratos culturais e entregada de mão beijada aos jovens problemáticos. Têm levantado questões se de fato estamos perante um transtorno da música cabo-verdiana ou se é apenas um passo na evolução acelerada da sociedade, cujas instituições que alicerçam as democracias não conseguem acompanhar. A cantora cabo-verdiana Josslyn, já usou as redes sociais para manifestar a sua preocupação com o rumo e a evolução que a música cabo-verdiana tem tomado nos últimos tempos.

A síndrome dos Mc’s, para além de levantar questões como transtorno da música cabo-verdiana ou metamorfose comunitária, leva-nos para questões como a crise de valores, bem como as suas implicações nas sociedades democráticas. Nas sociedades democráticas, o homem pode ser considerado vítima de uma crise de valores, a qual poderá andar de “mãos dadas” com uma crise económica global. O nível de desemprego dos jovens, as crescentes diferenças sociais, a má distribuição da riqueza pelos atores políticos contribuem para uma má formação da cidadania, confinando o individuo a uma vida cada vez mais egocentrista e individualista, que importando para a temática, são traduzidas nas composições dos Mc’s sem uma responsabilização social. Outro, sim, é que as suas liberdades, garantidas pela sociedade democrática, não podem estar em perigo.

Necessitam sim, de estarem sob constante vigilância, para que os valores não se diluam. Só assim é possível aspirar a uma cidadania ativa e consciente de valores como a solidariedade e a responsabilização social. Assim como se recebe negativamente muitos dos Mc’s, costuma-se receber da mesma forma os mais bem-afortunados profissionais na nossa administração pública. Criticamos as suas atuações, as suas decisões, as suas intervenções, as suas linguagens, as suas posturas, etc. Quantos Mc’s Pankis temos por ali, deambulando e ostentando como se pela sabedoria se tratasse do Rei Salomão?

Chama-se atenção pela qualidade do ensino, nas escolas, universidades, e a promoção da literacia, o qual são os pilares desses preciosos bens comuns, embora, segundo a doutrina do Educador e Filósofo brasileiro Paulo Freire: “A aprendizagem é o processo de interpretação da realidade que ocorre a partir da interação e das ações dos sujeitos sobre os objetos do conhecimento.” Quem procura aprender já sabendo tudo? Isto é, quem nunca foi um Mc Panki num processo de ensino-aprendizagem ou mesmo na escola da vida?

Com a ligeireza da “dança capitalista”, a música e a vida dos artistas precisam pegar o compasso e dançar ao seu ritmo.

Em suma, hoje a música é mais refinada, da mixagem à masterização. A produção é mais limpa e definida, isso também graças a equipamentos e/ou softwares melhores, mais avançados e com mais desempenho do que no passado.

Tecnicamente hoje a dinâmica sónica numa música é tratada muito melhor. Por conseguinte, a música tradicional cabo-verdiana, se calhar, precisa entrar nessa dinâmica e tocar a evolução sónica atual. A cada sino que toca neste Natal: Ou que, convalesça a música cabo-verdiana; Ou que, consiga polir os substratos do upgrade comunitário no aroma da leveza natalícia, prosperando as inspirações e a careira de todos os Mc’s nacionais.

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*Licenciado em Direito; Técnico da Segurança Pública; Pós-graduando em Direito Penal e Direito Processo Penal militar

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Colunistas

Opiniões e Feedback

Tota
7 days 16 hours

CV nas mãos destes malfeitores, o povo está lixado. Porque para além de corruptos são incompetentes e diabólicos

Comentário bodona
21 days 7 hours

Parece que as coisas estão a complicar-se e de que maneira no Senegal.

Efrem Soares
27 days 13 hours

Para agradecer a reação positiva dos amigos no messenger, pelas mensagens enviadas, e propor para comentarem aqui no on

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