Após a retirada da região do Sahel, a França procura recuperar influência geoestratégica no continente. Na Cimeira "Africa Forward", que arranca hoje, 11, no Quénia, pretende estabelecer relações económicas mais fortes.
"A França perdeu muito prestígio e influência nos países africanos francófonos, especialmente na região do Sahel", disse à DW Ulf Laessing, chefe do programa regional do Sahel da Fundação Konrad Adenauer no Mali. "Está agora a envidar grandes esforços para se expandir para outros países anglófonos - África do Sul, Quénia, Nigéria - a fim de se reposicionar e apresentar-se como o suposto parceiro mais importante de África", explica.
Os ministros dos Negócios Estrangeiros da França e do Quénia abrem esta segunda-feira, 11 a Cimeira "Africa Forward: Parcerias África-França para a Inovação e o Crescimento" na Universidade de Nairobi, cujo foco estará na tentativa de encontrar pontos em comum.
A reunião de dois dias no Quénia é a primeira cimeira deste tipo que a França organiza num país africano de língua inglesa que não faz parte dos seus parceiros tradicionais.
Há uma razão para isso: segundo analistas, o Presidente Emmanuel Macron quer enviar um sinal e iniciar uma mudança em relação à anterior política africana da França na África Ocidental.
Por que razão a França muda de rumo?
"A França perdeu muito prestígio e influência nos países africanos francófonos, especialmente na região do Sahel", disse à DW Ulf Laessing, chefe do programa regional do Sahel da Fundação Konrad Adenauer no Mali. "Está agora a envidar grandes esforços para se expandir para outros países anglófonos - África do Sul, Quénia, Nigéria - a fim de se reposicionar e apresentar-se como o suposto parceiro mais importante de África", explica.
Macron e o Presidente queniano, William Ruto, irão apresentar a sua nova parceria nesta cimeira. O objetivo é o reforço da segurança, o investimento económico e a energia verde.
Ruto pretende também debater formas de tornar o sistema financeiro global mais equitativo para os países africanos endividados. A França comprometeu-se a apoiar esta iniciativa. Está prevista a presença de cerca de 30 chefes de Estado e de Governo, além de convidados internacionais.
A cimeira pretende sinalizar uma mudança na estratégia de Paris para África. "Existe uma ligação clara. O objetivo é compensar a perda de influência na África francófona, ganhando mais influência nos países anglófonos", afirma Laessing.
Embora a França possa também querer expandir-se para as suas antigas colónias mais tarde, caso os regimes militares no Sahel acabem por cair, acrescentou Laessing, salientando que as críticas e os preconceitos em relação à França são fortes nos países francófonos.
"África tem uma população muito jovem; no Mali, por exemplo, a idade média é de 15 anos - já não têm qualquer ligação com a França", lembra o analista. "Os malianos têm-se sentido profundamente desiludidos e manipulados, inclusive pelas elites que estavam ligadas à França", acrescenta.
Indesejados no Sahel
Desde 2022/2023, têm-se verificado protestos em massa contra a influência francesa na África Ocidental, particularmente na região do Sahel, com manifestantes a acusarem a França de políticas neocoloniais e de interferência nos assuntos internos.
O Mali, o Burkina Faso e o Níger puseram fim à cooperação militar com a França e forçaram a retirada das tropas francesas.
Os novos líderes da junta militar na região estão a capitalizar o sentimento anti-francês para afirmar a sua soberania.
O franco CFA, uma herança do passado colonial , tem sido, há muito tempo, motivo de irritação para muitos africanos ocidentais.
Já em 2020, alguns países da África Ocidental tinham iniciado uma reforma monetária com a aprovação da França para abolir o franco CFA, mas o processo de transição tem sido difícil.
Concorrência acirrada na África Oriental
A concorrência com os atuais parceiros comerciais da região deverá ser acirrada, uma vez que a França terá de competir com ofertas de financiamento alternativas da China, Índia, Emirados Árabes Unidos, Catar e Arábia Saudita.
A França já tem negócios de sucesso no Quénia. Segundo o embaixador francês no Quénia, a França é o quinto maior investidor estrangeiro direto no país, sustentando 46 000 postos de trabalho. O comércio, que o Ministério do Comércio queniano estima em cerca de 300 milhões de dólares (255 milhões de euros), também está a crescer.
O Quénia exporta fruta, café, chá, flores e especiarias para a França e importa produtos farmacêuticos e cosméticos, produtos químicos e maquinaria.
No entanto, antes da cimeira de segunda-feira, o Presidente Ruto deixou claro que o Quénia também aspirava a um papel de interveniente global. "Cada ponto da agenda, cada conversa e cada compromisso visam um único objetivo: uma África que esteja na vanguarda dos assuntos globais, moldando o seu próprio destino, determinando o seu próprio futuro e influenciando o discurso global", afirmou, de acordo com o meio de comunicação queniano The Star.
A África Oriental está a ganhar cada vez mais influência geopolítica, segundo Amaizo. "Paris está a assinar novas parcerias de defesa e investimento com países como o Quénia, o Ruanda e a Tanzânia. Tais acordos reforçam o seu estatuto de centros estratégicos entre a Europa, o Oceano Índico e todo o continente africano", afirmou.
Para o economista queniano James Shikwati, a decisão de realizar a Cimeira França-África em Nairobi não é, portanto, nenhuma surpresa. O Quénia quer forjar alianças mais fortes com as principais potências globais. "O governo francês pode ter sentido que esta política queniana lhe oferece um melhor ponto de entrada de regresso a África", disse à DW.
"Neste caso, na África anglófona, onde a França não é necessariamente vista com hostilidade”, acrescentou.
Além disso, o Quénia está a tentar posicionar-se como porta de entrada para outros países africanos. Afinal, com a República Democrática do Congo (RDC), o Ruanda e o Burundi na Comunidade da África Oriental (EAC), há pelo menos três países que são maioritariamente francófonos - outra vantagem para a França.
Segundo Shikwati, a nova abordagem da França também mostra como a tensa situação global, com as crises no Médio Oriente e na Ucrânia, está a exercer pressão sobre os mercados tradicionais.
"Os intervenientes estabelecidos encontram-se numa situação nova e difícil, na qual têm de reajustar a sua estratégia empresarial global", afirmou. É por isso que a atenção se está a voltar para as economias emergentes que também pretendem operar à escala global.
A Semana com DW África







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