domingo, 14 junho 2026

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Dia Mundial do Património Africano: PR defende património africano como base da paz, da identidade e do progresso

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O Presidente da República, José Maria Neves e também Champion do Património Natural e Cultural Africano apelou esta terça-feira, 5, à valorização do património africano como instrumento de educação, identidade, paz e desenvolvimento sustentável. Este apelo foi feito hoje por ocasião do Dia Mundial do Património Africano.

 

O evento de alto nível reuniu dirigentes africanos e representantes da UNESCO e da União Africana, sob o lema “Celebrando Duas Décadas de Investimento Sustentável no Património de África”.  

Decorre esta terça-feira, 5 de maio, as celebrações do 10.º Dia Mundial do Património Africano, que este ano coincidem com o 20.º aniversário do Fundo do Património Mundial Africano (AWHF).

O Chefe de Estado participou por vídeo no evento que decorre em Midrand, África do Sul, no campus do Banco de Desenvolvimento da África Austral (DBSA).

O evento de alto nível reuniu dirigentes africanos e representantes da UNESCO e da União Africana, sob o lema “Celebrando Duas Décadas de Investimento Sustentável no Património de África”.  

Na sua mensagem transmitida, que este jornal digital teve acesso, José Maria Neves sublinhou que o património africano não deve ser encarado como uma herança estática do passado, mas como um motor de dignidade, emprego e soberania, alertando para o paradoxo de África representar apenas cerca de 12% dos sítios inscritos na lista do Património Mundial, ao mesmo tempo que concentra aproximadamente 30% dos bens classificados como património em perigo.

Recordando o Preâmbulo da Constituição da UNESCO, o Presidente da República defendeu que preservar o património natural e cultural é também um ato de diplomacia preventiva, capaz de promover diálogo, tolerância e estabilidade num contexto internacional marcado por conflitos, fragmentação e múltiplas crises.

Neves destacou ainda a necessidade de converter a vontade política em investimento sustentável, apelando a uma convergência estratégica entre a UNESCO, através do programa “Prioridade África”, e o Fundo do Património Mundial Africano, bem como a um maior envolvimento dos Estados africanos, do setor privado e da filantropia internacional.  

José Maria Neves defendeu igualmente o investimento nos jovens, nas mulheres e nas indústrias criativas, sublinhando que transformar a memória coletiva em valor económico é uma via essencial para um desenvolvimento inclusivo e resiliente do continente.

Neste sentido, destacou o Encontro Internacional sobre a Crioulidade Atlântica, a realizar em Cabo Verde de 28 a 30 de maio, como contributo para um humanismo africano ancorado na partilha, na coexistência e no diálogo intercultural.  

O Presidente enquadrou esta visão num paralelo com o espírito Ubuntu, palavra bantu que pode ser traduzida como “humanidade” ou “Eu sou porque nós somos”, sublinhando que tanto a crioulidade como o Ubuntu afirmam a solidariedade, a compaixão e a interdependência como fundamentos de uma paz duradoura e de uma identidade aberta ao “outro”.

“O património é o fio invisível que une os nossos antepassados às gerações futuras”, afirmou José Maria Neves, conforme o comunicado remetido ao ASemanaonline.

Por fim, o Chefe de Estado deixou um apelo à responsabilidade financeira dos Estados e parceiros, defendendo o reforço da dotação do Fundo do Património Mundial Africano, com a meta de 25 milhões de dólares, como um verdadeiro imperativo de soberania cultural.

joão do rosário
Ubuntu no Palco, Humilhação na Fronteira
Eu já nem consigo levar a sério este teatro do “património africano”.

Cabo Verde aparece em palco a falar de Ubuntu, África, antepassados, paz e soberania cultural. Tudo bonito, tudo redondo, tudo com cheiro a comunicado para UNESCO. Mas basta um africano real chegar à fronteira cabo-verdiana para a conversa mudar de tom.

Quando chega um europeu, muitas vezes é turista, parceiro, investidor, especialista. Quando chega um africano, vira logo suspeito: “risco”, “problema”, “ilegal em potência”. Aí acaba o Ubuntu. Aí acaba a crioulidade solidária. Aí aparece o velho complexo colonial, agora com farda, balcão e carimbo no passaporte.

Não se defende património africano humilhando africanos vivos no aeroporto. Não se celebra África em conferências enquanto se olha para guineenses, senegaleses, nigerianos, ganeses ou outros irmãos do continente como ameaça. Isso não é soberania cultural. É hipocrisia diplomática.

A verdade é feia: parte da elite cabo-verdiana quer África para o discurso e Europa para validação. Quer ser africana quando há palco internacional, mas quer parecer europeia quando se olha ao espelho. Fala de Ubuntu, mas pratica triagem colonial. Invoca os antepassados, mas desconfia dos seus próprios irmãos africanos.

O património africano não começa nos salões da UNESCO. Começa na fronteira, no respeito, no tratamento digno, na forma como o Estado olha para o africano comum que entra, trabalha, estuda, circula e contribui.

Património africano sem respeito pelo africano é só decoração diplomática. Ubuntu sem dignidade na fronteira é conversa bonita para inglês ver.

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