Uma análise do jornal Financial Times indica que Pequim está a reforçar capacidades militares no espaço, incluindo tecnologias para capturar ou destruir satélites, num contexto de rivalidade crescente com Washington e risco de conflito em órbita.
Segundo o Instituto Internacional de Investigação para a Paz de Estocolmo, o domínio espacial tornou-se central para as capacidades militares modernas, incluindo comunicações, navegação e sistemas de comando, aumentando o risco de que um ataque em órbita possa paralisar infraestruturas críticas.
Manuais militares e dezenas de estudos ligados ao Exército de Libertação Popular (ELP), analisados pelo jornal britânico, revelam uma estratégia que prevê desde operações de proximidade entre satélites até ataques a infraestruturas espaciais e, em última instância, alvos na Terra.
“Hoje, ao olhar para o céu, vemos que o espaço já está envolto no fumo de um potencial conflito“, escreveu o especialista militar chinês Jiang Lianju num manual de 2024, citado pelo Financial Times, acrescentando que o controlo do espaço oferece “um poderoso incentivo estratégico e militar”.
A análise indica que potências como Estados Unidos, China e Rússia têm realizado operações de aproximação entre satélites, essenciais para manutenção, mas também com potencial ofensivo, numa dinâmica que Washington já classificou como “combate aproximado no espaço”.
Howard Wang, investigador do ‘think tank’ Rand, com sede em Washington, afirmou que o conceito central da estratégia do ELP passa por atingir pontos cruciais da rede do adversário para “paralisar” a tomada de decisões ao longo de toda a cadeia de comando, desde a recolha e transmissão de dados até à sua análise e utilização.
Pequim tem também investido em tecnologias como lasers, interferência eletrónica (‘jamming’) e satélites capazes de deslocar outros objetos para órbitas afastadas, bem como em sistemas de reabastecimento e captura em órbita.
Em 2022, o satélite chinês Shijian-21 utilizou um braço robótico para rebocar um satélite inativo para uma órbita mais distante, uma demonstração de capacidades que alarmou responsáveis militares norte-americanos, segundo o jornal.
A investigação indica ainda que a doutrina militar chinesa prevê diferentes fases num eventual conflito espacial, incluindo operações de dissuasão, como demonstrações públicas de capacidade ou reposicionamento de satélites, bloqueios espaciais e ataques a sistemas adversários.
Essas operações poderão incluir interferência eletrónica, ataques cibernéticos ou o uso de armas de energia dirigida, visando degradar as capacidades de comunicação e comando do adversário sem provocar uma escalada imediata.
Numa fase mais avançada, os cenários estudados pelo ELP admitem a destruição direta de satélites ou até ataques a infraestruturas terrestres a partir do espaço, refletindo uma integração crescente entre os domínios espacial e convencional.
Segundo Howard Wang, tanto Washington como Pequim procuram reforçar a resiliência dos seus sistemas espaciais, aumentando o número de satélites para reduzir a vulnerabilidade a ataques dirigidos.
A China planeia lançar mais de 37.000 novos satélites até 2030, numa tentativa de assegurar a posição dominante neste domínio e acompanhar os avanços dos Estados Unidos.
“Estamos num ambiente onde ninguém combateu uma guerra antes. O potencial para algo correr mal muito rapidamente é enorme”, afirmou um responsável militar ocidental citado pelo Financial Times.
A Semana com Observador/Lusa







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