domingo, 14 junho 2026

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Rússia enfrenta uma primavera de descontentamento - e Putin está a responder da única forma que sabe

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Várias cidades russas têm registado bloqueios de internet, que começam a irritar os cidadãos comuns. Putin diz que as interrupções estavam “relacionadas com o trabalho operacional para prevenir ataques terroristas”.

Na quinta-feira, Putin quebrou o silêncio sobre os apagões digitais que atingiram a capital do país no início de março."Não posso deixar de mencionar o que as pessoas também estão a enfrentar nas grandes cidades – é raro, mas infelizmente acontece", declarou. "Refiro-me a certos problemas e interrupções de internet nas grandes áreas metropolitanas."

 

Quatro anos após a invasão em grande escala da Ucrânia, a Rússia enfrenta uma onda de descontentamento.

Os bloqueios de Internet nas cidades russas têm irritado os cidadãos comuns, e começa a ser evidente uma reação pública contra o presidente russo, Vladimir Putin.

No entanto, o aparelho repressivo do Estado russo parece estar a entrar em ação. Nas últimas semanas, as autoridades policiais lançaram uma nova ronda de detenções e rusgas policiais de alto nível. E, em paralelo, o governo russo tem ressuscitado os fantasmas do passado soviético.

O exemplo mais recente aconteceu na terça-feira, quando agentes do Comité de Investigação da Rússia invadiram os escritórios de uma das maiores editoras do país e detiveram funcionários, após uma investigação criminal de um ano sobre o que as autoridades alegam ser um caso de "propaganda LGBTQ+".

O logótipo da Eksmo, a maior editora da Rússia, está no topo do edifício da sede central da editora em Moscovo, no dia 21 de abril. Igor Ivanko/AFP/Getty Images

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Um dos seus títulos parece ter atraído especial atenção: “Summer in a Pioneer Tie” (Verão numa Gravata de Pioneiro), um best-seller de 2021 que conta a história de um romance queer entre dois jovens num campo de férias soviético.

As autoridades detiveram várias pessoas ligadas à editora no ano passado; a chancela Popcorn Books foi encerrada em janeiro.

A Rússia de Putin há muito que se mostra hostil ao que considera ideias ocidentais perigosas, com o líder do Kremlin a posicionar-se como defensor dos valores tradicionais.

Em 2023, o Supremo Tribunal russo declarou aquilo a que as autoridades russas chamam “movimento LGBTQ internacional” uma organização extremista, impondo penas criminais potencialmente graves para o ativismo LGBTQ – ou, aparentemente, no caso da Eksmo, para o ato de publicar.

No início deste mês, a polícia fez buscas na redação do Novaya Gazeta, um jornal independente cujo cofundador ganhou o Prémio Nobel da Paz em 2021.

A agência de notícias estatal russa RIA-Novosti, citando o Ministério do Interior, noticiou que o jornalista Oleg Roldugin foi detido para interrogatório no âmbito de um processo-crime sobre o alegado uso indevido de dados pessoais. Roldugin nega as acusações.

O efeito intimidatório do caso é evidente.

O jornal Novaya Gazeta foi obrigado a encerrar a sua edição impressa após a invasão da Ucrânia em 2022, mas continua a publicar online; a operação policial pressiona ainda mais o que resta da imprensa livre na Rússia.

Partilhar notícias independentes na Rússia já é difícil. O governo proíbe plataformas populares de redes sociais, como o Facebook e o Instagram, e pressiona para impor uma aplicação de mensagens controlada pelo Estado, chamada MAX, como portal padrão para serviços digitais. E a operação contra o Novaya Gazeta ocorreu no mesmo dia em que o Supremo Tribunal russo classificou a Memorial, uma organização de defesa de direitos humanos de renome, como “extremista”.

Enquanto o ataque à imprensa está em curso, as autoridades estão também a ressuscitar antigos símbolos de repressão política. Há poucos dias, a Academia do FSB da Rússia, onde Putin treinou para ser agente do KGB, foi renomeada em homenagem a Feliks Dzherzinsky, o temido fundador da polícia secreta soviética.

O derrube da estátua de Dzherzinsky em frente à sede do KGB, em 1991, foi um dos atos simbólicos que marcaram o fim da União Soviética. Mas as autoridades na Rússia parecem determinadas a abraçar o passado sombrio e totalitário do país.

Na quinta-feira, a Reuters noticiou que as embaixadas da Polónia, Estónia, Lituânia e Letónia emitiram um protesto ao Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, após o desmantelamento de um complexo memorial na cidade siberiana de Tomsk, dedicado às vítimas da polícia secreta soviética. E, no início deste mês, a Rússia provocou indignação ao instalar uma exposição que, segundo alguns analistas, profanava o Memorial de Katyn, local da execução em massa de prisioneiros de guerra polacos pelos soviéticos em 1940.

A estátua de Felix Dzerzhinsky derrubada após a tentativa de golpe de Estado falhada a 22 de agosto de 1991, em Moscovo, na União Soviética. Foto: Asahi Shimbun/Getty Images

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Na quinta-feira, Putin quebrou o silêncio sobre os apagões digitais que atingiram a capital do país no início de março.

"Não posso deixar de mencionar o que as pessoas também estão a enfrentar nas grandes cidades – é raro, mas infelizmente acontece", declarou. "Refiro-me a certos problemas e interrupções de internet nas grandes áreas metropolitanas."

Putin indicou que as interrupções na Internet – que afetaram o comércio eletrónico e tornaram muitas aplicações e serviços eletrónicos inacessíveis – estavam “relacionadas com o trabalho operacional para prevenir ataques terroristas”. Ao mesmo tempo, o presidente russo também pareceu sugerir que a necessidade de o público ter acesso à informação era limitada.

Por outras palavras, a vida em tempo de guerra significa tolerar alguns inconvenientes. E a intensificação e o aprofundamento da repressão da vida civil por parte dos serviços de segurança russos mostram poucos sinais de arrefecimento.

A Semana com CNN Portugal

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