"A Guiné-Bissau não produziu instituições consolidadas do ponto de vista político e económico", alerta o sociólogo guineense Miguel de Barros, sublinhando que a situação que se vive no país "é muito crítica".
Desde o passado dia 26 de Novembro que a Guiné-Bissau voltou a mergulhar numa crise política "muito crítica", reconhece o sociólogo guineense. Miguel de Barros afirma que o país "não produziu instituições consolidadas do ponto de vista político e económico", alertando para o facto de estas mesmas instituições estarem agora «reféns das disputas políticas com maior peso, que são as Forças Armadas».
O sociólogo guineense defende que "não há nada mais certo numa democracia do que as eleições"; todavia, alerta que as autoridades devem "perceber que as eleições não se resolvem apenas quando são realizadas. Há todo um caminho a percorrer".
O processo eleitoral na Guiné-Bissau foi interrompido por um golpe de Estado, a 26 de Novembro de 2025, antes da divulgação dos resultados oficiais das eleições gerais. Nesse dia, os militares tomaram o poder; o Presidente cessante e candidato a um segundo mandato, Umaro Sissoco Embaló, deixou o país; e o candidato da oposição, Fernando Dias, refugiou-se na embaixada da Nigéria, de onde saiu a 30 de Janeiro, numa acção que resultou da mediação da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental - CEDEAO.
Vários dirigentes políticos foram detidos e, entretanto, libertados, com excepção de Domingos Simões Pereira, líder do PAIGC, que saiu da cadeia, mas continua em prisão domiciliária.
Desde que tomaram o poder, os militares alteraram a Constituição, a lei dos partidos políticos e convocaram novas eleições gerais para 6 de Dezembro, data que coincide com o fim do período de transição de 12 meses anunciado.
Miguel de Barros questionou que garantias existem de que as próximas eleições não terão o mesmo efeito das realizadas há cerca de três meses, interrogando-se sobre o compromisso das Forças Armadas em respeitar os resultados, a participação de todos os actores políticos, a monitorização do processo e a realização de uma auditoria pública aos acontecimentos do último ano.
"Primeiro, qual é a garantia que se dá de que as próximas eleições não terão o efeito que tiveram as eleições de 2025?", salientou. Entretanto, o enviado especial da União Africana (UA) a Bissau chegou ao país e reuniu-se, na quinta-feira, 19 de Fevereiro, com o Presidente de Transição, Horta Intá.
Em entrevista à RFI, durante a 39.ª Cimeira da União Africana, em Addis Abeba, Patrice Trovoada garantiu que ainda "há muito para fazer" no processo de transição do país, admitindo que a prioridade é travar a erosão da confiança política e institucional.
“Quando falamos da necessidade do restabelecimento da ordem constitucional após a tomada do poder por meios inconstitucionais, não estamos a dizer que ela fica restabelecida desde que os autores do golpe de Estado realizem eleições e se façam eleger”, advertindo que a prática representa “uma forma de branqueamento de um acto ferido de legitimidade”.
A Semana com RFI/LUSA







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