segunda-feira, 06 julho 2026

Crise do combustível de aviação: o que muda para passageiros e companhias aéreas

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Preços do combustível de aviação quase duplicaram desde o início da guerra no Irão e a seguir podem surgir ruturas de abastecimento

Uma escassez iminente de combustível de aviação na Europa e na Ásia, provocada pela guerra com o Irão e pelo fecho do estreito de Ormuz, pode alterar profundamente as viagens globais dentro de semanas se o petróleo não voltar a fluir em breve, encarecendo os bilhetes de avião e levando ao cancelamento de voos antes do pico da época de verão.

Num entrevista na quinta-feira, o diretor da Agência Internacional da Energia (AIE), Fatih Birol, disse à AP que a Europa tem talvez seis semanas” de reservas de combustível de aviação e que a economia mundial enfrenta a sua “maior crise de energia”.

Regra geral, alguns países europeus mantêm reservas de combustível de aviação suficientes para vários meses, segundo um relatório da AIE divulgado esta semana.

O combustível de aviação, um derivado refinado de petróleo à base de querosene, é o maior custo das companhias aéreas, representando cerca de 30% das despesas totais, segundo a Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA). E os preços praticamente duplicaram desde o início da guerra. A próxima etapa poderá ser a escassez.

“Cada dia que passa com o estreito de Ormuz fechado aproxima a Europa de ruturas de abastecimento”, afirmou Amaar Khan, responsável pelos preços do combustível de aviação europeu na Argus Media. “O estreito representa cerca de 40% das importações de combustível de aviação da Europa, mas não passou qualquer combustível pela zona desde que a guerra rebentou.”

Responsáveis das companhias aéreas têm reagido com cautela, reconhecendo potenciais problemas de abastecimento mas tentando tranquilizar os clientes. Ainda assim, algumas transportadoras já estão a repercutir os custos nos consumidores, aumentando taxas de bagagem e outros extras, incorporando custos nos preços dos bilhetes ou reforçando sobretaxas de combustível.

Um pequeno número de companhias aéreas já cortou voos, incluindo a transportadora escandinava SAS, que anunciou no início do mês o cancelamento de “pelo menos mil” voos em abril devido ao disparo dos preços do combustível.

Especialistas alertam ainda que outros aspetos das viagens aéreas, como a flexibilidade dos horários e as próprias rotas, deverão ser afetados.

De acordo com um relatório (fonte em inglês) da Tourism Economics, após o fecho do estreito de Ormuz em março, o preço do crude disparou 64%, a maior perturbação desde 2022, afetando de forma significativa o setor da aviação.

“O impacto nos custos do combustível de aviação foi ainda mais severo, com o crack spread a atingir um recorde de 80 dólares por barril, o que levou a que os preços do combustível de aviação duplicassem em poucas semanas devido à oferta limitada de crude do Golfo”, escreveu Stephen Rooney, economista principal da Tourism Economics e autor do relatório. “Prevê-se que as tarifas aéreas subam entre 5% e 10%, com sobretaxas de combustível já a surgir, embora a fraca procura limite o montante que pode ser repercutido nos consumidores.”

Eis como funciona o abastecimento de combustível de aviação e de que forma os consumidores podem sentir os efeitos.

Como chega o combustível de aviação ao avião?

O combustível de aviação é produzido a partir de petróleo bruto em refinarias, que também fabricam gasolina e gasóleo.

As companhias aéreas compram geralmente combustível de aviação às refinarias ou a empresas de combustíveis, de forma semelhante aos automobilistas que abastecem nas estações de serviço, mas em muito maior escala. O combustível é transportado em navios e oleodutos e armazenado pelas companhias nos aeroportos.

As compras são geridas pelas próprias transportadoras. Se uma região começar a ficar sem combustível, isso não significa necessariamente que deixem de haver voos. Algumas companhias podem ter reservas maiores do que outras.

Mas os voos que se mantiverem tenderão a ser mais caros, refletindo o aumento dos custos do combustível.

As grandes companhias têm vantagens em regiões com escassez. Têm capacidade financeira para enfrentar preços elevados, afirmou Jacques Rousseau, diretor executivo da consultora financeira Clearview Energy Partners.

Na Europa, vários países contam atualmente com menos de 20 dias de cobertura em termos de reservas de combustível, segundo o relatório da AIE desta semana. Desde 2020 que as reservas não desciam abaixo de 29 dias, referiu o documento.

Se este nível descer abaixo dos 23 dias, poderão surgir faltas físicas em alguns aeroportos, resultando em cancelamentos de voos e quebra da procura, advertiu a agência.

Que regiões serão mais afetadas?

Os países da região Ásia-Pacífico são os mais dependentes do petróleo e do combustível de aviação provenientes do Médio Oriente, seguidos da Europa, explicou Rousseau.

A maior parte do combustível de aviação consumido na Europa é produzido em refinarias europeias, mas cerca de 20% a 25% da oferta desapareceu por causa da guerra, indicou.

Para colmatar parte dessas falhas, os Estados Unidos aumentaram consideravelmente as exportações de combustível de aviação para a Europa, enviando cerca de 150 mil barris por dia em abril, cerca de seis vezes o nível normal, acrescentou Rousseau.

Nos Estados Unidos, grandes produtores de petróleo, a disponibilidade de combustível de aviação é um problema menos premente, acrescentou. “Digo aos meus filhos… não vamos propriamente ficar sem combustível”, afirmou Rousseau. “Simplesmente vai custar mais caro aqui, enquanto noutras partes do mundo se pode chegar ao ponto de não haver mesmo combustível.”

Quanto está a faltar na oferta mundial de combustível de aviação?

O mundo está a perder entre 10 e 15 milhões de barris de petróleo por dia devido ao fecho do estreito de Ormuz, disse Pavel Molchanov, estratega sénior de investimento na gestora Raymond James & Associates.

“As refinarias são exatamente as mesmas e estão nos mesmos sítios na Ásia e na Europa, mas se não houver petróleo suficiente para estas refinarias operarem, isso vai provocar ruturas físicas de abastecimento”, afirmou.

Mesmo com a AIE a libertar 400 milhões de barris de petróleo das reservas de emergência dos seus membros, tal não resolve o problema a curto prazo, acrescentou.

“Pode demorar até ao final do ano para colocar todos esses barris no mercado”, estimou.

Como será afetado o transporte de passageiros?

Christopher Anderson, professor de gestão de operações, tecnologia e informação na Universidade de Cornell, defende que os viajantes devem preparar-se para mais do que simples aumentos nos preços dos bilhetes.

“Já não se trata apenas de preços do combustível. Para as companhias aéreas, é agora uma questão de planeamento de rede”, afirmou. “Custos de combustível mais altos contam, mas contam também rotas mais longas, menor flexibilidade de horários e maior incerteza sobre como estará a procura, mesmo a poucas semanas de distância.”

Os viajantes poderão deparar-se “com um mercado em que se reserva mais tarde, com maior volatilidade de horários e menos opções de tarifas baixas, se esta perturbação se prolongar até ao coração da época de verão”, acrescentou.

Segundo Rooney, no relatório da Tourism Economics, as viagens envolvendo o Médio Oriente são as mais penalizadas pelos encerramentos de espaço aéreo e pelos custos de desvio de rotas. “Cerca de um quinto da procura Europa-Ásia e 10% da procura América do Norte-Ásia passa pelo Médio Oriente e está em risco”, referiu. “Partindo do pressuposto de um conflito com a duração de dois meses, a recuperação deverá começar no segundo semestre de 2026, mas o sentimento dos viajantes pode abrandar o ritmo do regresso.”

Que medidas estão a tomar as companhias aéreas?

A companhia holandesa KLM e a transportadora britânica de baixo custo easyJet afirmaram não estar a enfrentar atualmente falta de combustível, sem comentar o alerta da AIE. Ainda assim, ambas estão entre as empresas que viram os custos mais altos pressionar os seus orçamentos.

Na quinta-feira, a KLM anunciou que vai cortar 160 voos no próximo mês, cerca de 1% das suas ligações europeias. A companhia justificou a decisão com “a subida dos custos do querosene” e disse que um número limitado de voos “deixou de ser financeiramente viável”.

Num comunicado, a easyJet indicou esperar um prejuízo antes de impostos entre 540 e 560 milhões de libras (cerca de 619,6 a 642,6 milhões de euros) no primeiro semestre do ano fiscal de 2026. Ainda assim, o presidente executivo, Kenton Jarvis, disse que a procura se mantém globalmente forte, sublinhando que a Páscoa foi o período de férias mais movimentado de sempre para a companhia.

A transportadora alemã Lufthansa afirmou que os conflitos laborais e os preços elevados do combustível a obrigam a encerrar de imediato a companhia regional alimentadora CityLine, mais cedo do que o previsto, retirando de serviço 27 aviões mais antigos e menos eficientes em termos de consumo. A decisão antecipa um encerramento que era esperado apenas para o próximo ano.

A norte-americana Delta Air Lines, que voa frequentemente para destinos europeus, informou estar “consciente do potencial problema de abastecimento de combustível de aviação” no continente e a acompanhar a situação. A Delta, que comprou em 2012 uma refinaria em Filadélfia para gerir melhor o seu maior custo, acrescentou que não espera qualquer “impacto operacional a curto prazo”.

Como estão a ser afetados os preços?

Outras companhias já soaram o alarme sobre a subida dos preços do combustível, com algumas a começarem a passar os novos custos para os viajantes, muitas vezes incorporando-os nos preços dos bilhetes e em taxas adicionais.

As companhias norte-americanas Delta, United, American Airlines, Southwest Airlines e JetBlue aumentaram, por exemplo, as taxas de bagagem registada nas últimas semanas.

O presidente executivo da United, Scott Kirby, afirmou recentemente, numa nota interna aos trabalhadores, que se os preços do combustível se mantiverem elevados, a fatura anual poderá aumentar em 11 mil milhões de dólares (9,32 mil milhões de euros). “Para se ter uma ideia”, escreveu Kirby, “no melhor ano de sempre da United, o nosso lucro foi inferior a 5 mil milhões de dólares”.

Entretanto, a Cathay Pacific, de Hong Kong, aumentou recentemente em cerca de 34% as sobretaxas de combustível em todas as rotas, enquanto a Air India acrescentou até 280 dólares em taxas a alguns voos no início deste mês. A Emirates, a Lufthansa e a KLM também ajustaram taxas ou tarifas para acompanhar a volatilidade dos preços.

A Semana com Euronews

 
 
 
 

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14 days 8 hours

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