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O Charuto de Bubista: A legítima celebração e os riscos do relaxamento
A imagem de Bubista a fumar um charuto após o apuramento histórico de Cabo Verde para os oitavos de final do Mundial, onde também garantiu o apuramento da seleção de Portugal, correu as redes sociais e dividiu opiniões. Para uns, foi um símbolo de triunfo; para outros, um sinal de excessivo relaxamento. Talvez tenha sido um pouco de ambos. *José Mendonça Monteiro Historicamente, o charuto está associado à celebração das grandes conquistas. Desde empresários a políticos, passando por treinadores e atletas norte-americanos, fumar um charuto tornou-se uma forma simbólica de marcar o fim de uma batalha vencida. No desporto, a tradição ganhou força sobretudo no beisebol e no futebol americano, acabando por se espalhar por outras modalidades. No caso de Bubista, o gesto tem um significado especial. Cabo Verde chegou a este Mundial contrariando todas as probabilidades. Um pequeno país insular, com recursos limitados, sem a dimensão económica e desportiva das grandes potências, conseguiu sentar-se à mesma mesa de campeões mundiais e seleções historicamente dominantes. Para uma equipa com reduzida profundidade de plantel e menor capacidade financeira, ultrapassar a fase de grupos já representa uma conquista extraordinária. O grupo de Cabo Verde reunia seleções com tradição, experiência e peso histórico muito superiores. Ainda assim, os Tubarões Azuis demonstraram aquilo que há muito caracteriza o povo cabo-verdiano: a capacidade de transformar dificuldades em oportunidades. Foi assim na história da emigração, na luta contra as secas, na construção da democracia e agora também no futebol. Muito desse mérito pertence a Bubista. Antigo internacional cabo-verdiano, construiu a sua carreira com discrição, trabalho e profundo conhecimento da realidade local. Mais do que um treinador, tornou-se um símbolo de uma geração que acredita que Cabo Verde pode competir ao mais alto nível sem perder a sua identidade. O charuto, porém, levanta uma questão pertinente. No futebol de elite, a linha entre celebrar e desconcentrar é muito ténue. Quando ainda existe um desafio gigantesco pela frente, como um eventual confronto com a Argentina, qualquer sinal de missão cumprida pode ser interpretado como um convite ao relaxamento. O futebol moderno exige foco permanente, disciplina e capacidade de manter os pés no chão mesmo nos momentos de euforia. Há ainda outro debate importante. Durante muitos anos, em vários contextos desportivos, a celebração excessiva após pequenas vitórias foi um dos sintomas do amadorismo. Se Cabo Verde quer consolidar-se como uma potência emergente do futebol africano, deve encarar este Mundial não como um ponto de chegada, mas como um ponto de partida. O profissionalismo deve estender-se aos clubes, à formação, à gestão e à cultura desportiva. Por outro lado, seria injusto ignorar o impacto social desta campanha. O Mundial conseguiu unir cabo-verdianos de todas as ilhas e da diáspora. Nas redes sociais, jogadores como Vozinha tornaram-se símbolos nacionais, conquistando milhares de novos seguidores e recebendo homenagens dentro e fora do país. O futebol transformou-se, por algumas semanas, numa linguagem comum capaz de aproximar gerações, classes sociais e sensibilidades políticas. Talvez seja essa a maior vitória. Mais do que os resultados, Cabo Verde mostrou ao mundo aquilo que é capaz de fazer quando acredita em si próprio. O charuto de Bubista ficará na memória como a imagem de uma conquista histórica. Mas o verdadeiro desafio começa agora: transformar a emoção de um Mundial num projeto duradouro de desenvolvimento desportivo, económico e social. Porque, se este Mundial ensinou alguma coisa, é que os sonhos cabo-verdianos podem ser maiores do que o tamanho das suas ilhas.
José Mendonça Monteiro
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