As Nações Unidas estimam que conflitos entre as Forças de Defesa e Segurança (FDS) moçambicanas e paramilitares naparamas, bem como protestos pós-eleitorais, bloquearam ajuda humanitária a 160 mil afetados pelo ciclone Chido na província de Nampula.
"As preocupações com a segurança intensificaram-se após um ataque em Namapa [distrito de Erati] no dia 25 de dezembro, onde um grupo de autodefesa [naparamas] matou cinco seguranças e destruiu infraestruturas importantes", lê-se num relatório do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), consultado hoje pela Lusa.
No mesmo dia, recorda o OCHA, foram raptadas 15 crianças no distrito de Memba, também em Nampula, norte de Moçambique, agravando a situação de insegurança.
Os naparamas são paramilitares moçambicanos que surgiram na década de 1980, durante a guerra civil, aliando conhecimentos tradicionais e elementos místicos no combate aos inimigos, atuando em comunidade.
De acordo como o relatório, em resposta aos ataques, as forças moçambicanas lançaram uma campanha militar, "restringindo" a ajuda humanitária e o acesso a Erati e Memba, durante quase dois meses.
"Entretanto, protestos e os distúrbios interromperam as rotas de abastecimento críticas do porto de Nacala [em Nampula] para Cabo Delgado, atrasando os carregamentos humanitários essenciais", explica ainda.
O ciclone Chido atingiu Moçambique em 14 de dezembro, tendo causado a morte de, pelo menos, 120 pessoas e afetado outras 450 mil, principalmente, nas províncias de Nampula e Cabo Delgado, no norte do país.
O OCHA explica ainda que os protestos pós-eleitorais, caracterizados por manifestações e paralisações, também atrasaram a ajuda humanitária naquela província.
"Os bloqueios de estradas [nos postos administrativos] de Namialo e Rope atrasaram a entrega de ajuda e, num incidente, os manifestantes incendiaram um camião humanitário que transportava 30 toneladas (...) de sementes agrícolas, agravando a insegurança alimentar", acrescenta o documento.
Historicamente, os naparamas classificam-se como uma força que se organizou espontaneamente para a autodefesa da população perante a guerra e os seus elementos submetem-se a ritos de iniciação, destinados a dar-lhes alegada "proteção sobrenatural" que acreditam que os torna imunes, até a balas.
Moçambique está em plena época chuvosa, que decorre entre outubro e abril, período em que, além do Chido, o país registou ainda os ciclones Dikeledi, em 13 de janeiro, e Jude, em 10 de março.
O ciclone Jude, o mais recente a afetar o país, entrou em Moçambique através do distrito de Mossuril, província de Nampula, tendo feito, pelo menos, 16 mortos, afetando ainda, Tete, Manica e Zambézia, no centro, e Niassa e Cabo Delgado, no norte.
A última atualização do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD) apontava para, pelo menos, 384.877 afetados, com 82.780 famílias igualmente afetadas.
Moçambique é considerado um dos países mais severamente afetados pelas alterações climáticas globais, enfrentando ciclicamente cheias e ciclones tropicais durante a época chuvosa, mas também períodos prolongados de seca severa.
A Semana com Lusa







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