Apelo, mais uma vez, ao Governo para que dê a devida atenção ao Sal, uma ilha com elevada procura de eletricidade e uma responsabilidade acrescida na economia nacional, sobretudo pelo seu peso no turismo. A segurança do abastecimento de energia e água é indispensável à vida das famílias, ao funcionamento das empresas e à confiança de quem investe e visita a ilha.
Por Efrem Soares*
A ilha do Sal está novamente a enfrentar cortes programados de eletricidade. Se não forem tomadas medidas urgentes, corremos o risco de regressar ao aluguer de grupos geradores contentorizados, uma solução de emergência à qual já foi necessário recorrer no passado recente.
Chamo a atenção do Governo para a situação herdada no setor da energia e da água. A reestruturação da Electra deu lugar a quatro empresas, mas, na minha perspetiva, persistem práticas de gestão assentes no «djunta mon», sem uma definição suficientemente clara das responsabilidades e da capacidade de decisão local.
No Sal, continua a recorrer-se à figura do coordenador. Recordo que esta solução foi introduzida ainda no tempo da gestão conjunta da Electra, perante a reivindicação de um administrador sediado na ilha. A sua continuidade, depois da reestruturação, merece ser reavaliada: quais são as suas competências, a sua autoridade e a sua relação com cada uma das quatro empresas?
Uma função desta responsabilidade exige capacidade técnica, liderança e poder efetivo de decisão. A escolha de quem a exerce deve assentar na competência e no conhecimento do setor. Não basta preencher um lugar: é necessário ter condições para resolver problemas e responder pelos resultados.
Apelo, mais uma vez, ao Governo para que dê a devida atenção ao Sal, uma ilha com elevada procura de eletricidade e uma responsabilidade acrescida na economia nacional, sobretudo pelo seu peso no turismo. A segurança do abastecimento de energia e água é indispensável à vida das famílias, ao funcionamento das empresas e à confiança de quem investe e visita a ilha.
Dirijo também um apelo aos partidos políticos: na composição das listas para a Assembleia Nacional e para os órgãos municipais, procurem incluir profissionais das áreas técnicas. O conhecimento prático das infraestruturas pode contribuir para identificar problemas, avaliar propostas e apoiar decisões mais informadas.
Os deputados e os eleitos locais devem acompanhar regularmente as infraestruturas essenciais das ilhas, no âmbito das suas competências. As visitas precisam de permitir conhecer o estado dos equipamentos, ouvir os trabalhadores e exigir esclarecimentos às entidades responsáveis.
Espero que visitem as instalações das empresas resultantes da reestruturação da Electra para perceberem, no local, o que se passa, desde quando e porquê. É necessário esclarecer as causas dos constrangimentos, apurar responsabilidades e acompanhar a execução das medidas corretivas.
Os investimentos que deveriam retirar a ilha do Sal desta situação de sufoco merecem uma avaliação técnica rigorosa. Importa conhecer o seu desempenho efetivo, as avarias registadas, as condições de manutenção e a capacidade de resposta às necessidades da ilha.
Considero igualmente necessário repensar a forma como os investimentos em energias renováveis são integrados no sistema elétrico. Segundo as informações de que disponho, a ilha conta com cerca de 14 MW de potência instalada em fontes eólicas e solares cujo contributo fica condicionado nos períodos de pouco vento e de ausência ou insuficiência de radiação solar. Essa potência instalada não equivale a potência permanentemente disponível para responder à procura.
As energias renováveis têm um papel importante, mas a segurança do abastecimento exige que o seu aproveitamento seja acompanhado por armazenamento adequado, capacidade de reserva e manutenção atempada dos equipamentos. As baterias também dependem da energia armazenada e têm uma autonomia limitada.
De acordo com as informações de que disponho, a situação atual envolve avarias em grupos da central recentemente inaugurada, atrasos nas manutenções e dificuldades na resolução de avarias nas centrais mais antigas. Estas questões precisam de esclarecimento público e de uma resposta técnica com prazos definidos.
O Sal precisa de um plano de recuperação da capacidade disponível, com responsáveis identificados e informação clara à população sobre as intervenções e a previsão de normalização do abastecimento. A resposta não pode limitar-se à gestão dos cortes enquanto os problemas de fundo permanecem por resolver.
Espero que sejam tomadas medidas concretas para o bem da ilha do Sal e de Cabo Verde.
Um bem-haja à nação cabo-verdiana!
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