quarta-feira, 28 outubro 2026

BRINCAR COM A SORTE

 

 

Enfim, sorte são os acontecimentos do mundo nos quais me insiro e em que talvez interfira, mas não a ponto de determiná-los. Os dicionários concordam: sorte é a “força invencível a que se atribuem o rumo e os diversos acontecimentos da vida” (Houaiss); ou a “combinação de circunstâncias ou de acontecimentos que influem de um modo inelutável” (Priberam); ou a “força que intervém em todos os acontecimentos da vida” (Mor).

 

Júlio César cruzou-o com suas legiões. Ele sabia perfeitamente que estava conflitando com o Senado e deflagrando uma guerra cujos resultados se poriam além do seu controle ou do controle de quem quer que fosse. Então, a frase famosa: Alea jacta est. O mais todo mundo sabe: César passou a história de Roma e a história do mundo a limpo. César tornou-se o dono do mundo.

Alea jacta est significa, em tradução literal, os dados estão lançados. Mas dados como jogo, como o imponderável, daí a palavra alea ser traduzida como sorte e passar a significar sorte. “A sorte está lançada”: a Wikipédia diz que a expressão é “utilizada quando os fatores determinantes de um resultado já foram realizados, restando apenas revelá-los ou descobri-los”.

Ou seja, a expressão diz de um ato praticado e irreversível por tão só haver sido executado, e do qual decorrerão necessariamente outros, porém aleatórios. Quer para o bem, quer para o mal, a marcha dos acontecimentos será indiferente a quem quer que seja. Aliás, dificilmente haverá bem ou mal que atendam o interesse geral: o bem de fulano pode ser o mal de beltrano.

Enfim, sorte são os acontecimentos do mundo nos quais me insiro e em que talvez interfira, mas não a ponto de determiná-los. Os dicionários concordam: sorte é a “força invencível a que se atribuem o rumo e os diversos acontecimentos da vida” (Houaiss); ou a “combinação de circunstâncias ou de acontecimentos que influem de um modo inelutável” (Priberam); ou a “força que intervém em todos os acontecimentos da vida” (Mor).

Voltando do Rubicão para o que eu, ao dar com ele, pensava sobre a palavra: é que sorte, que era sinônimo, passou a ser usada como antônimo de azar (que também, como sorte, pode ser sinônimo de acaso, de fortuna etc., mas isso é outra história). Sorte assumiu o significado de boa sorte, deixou de ser apenas eventualidade.

Eu pensava sorte como aleatório, acidental, contingente. Eis que me acode uma preleção trazida por Gresiela Nunes da Rosa: "É necessário algum desenvolvimento intelectual para se acreditar no acaso; o primitivo, o ignorante e com certeza uma criança já sabem atribuir uma razão para tudo o que acontece" (Freud, A feminilidade).

Quer dizer, o simplório toma um acontecimento que resulta de uma complexa inter-relação de variáveis incidentes (aleatórias ou administradas, com as administradas, à sua vez, sofrendo a influência de inúmeras outras variáveis imponderáveis), e elucida tudo, buscando inspiração em alegadas vontades das estrelas, das divindades, dos espíritos.

Interpreta-se o sentido do presente com base nessas “leituras” das intenções ocultas, sempre o justificando, numa espécie de profecia sobre o passado: lê-se o passado e se o explica depois de ele já ser presente e, então, já esclarecido, se o esclarece. Um simplismo que apazigua os desprovidos de hipóteses complexas.

E, interessante, ainda se fazem mapas para o devir. Por meio de cartas de baralho, borra de café, velas, adivinhações, jogos de Tarô, marcas das mãos, alguma miçanga, mensagens dos mortos, oitiva de entidades espirituais, é vaticinado o futuro: leem-se os desígnios do advir.

Claro, o resultado, para os faltos de sensatez, acontece em conformidade com o prenunciado, ainda que não seja idêntico, mas para isso sempre cabe justificação, pois “deus escreve certo por linhas tortas”.

As pessoas dão-se horrores de sofrimento à frente do fortuito. Essa má vontade em face do aleatório me apoquenta. O fascinante da vida me parece ser exatamente esse amanhã incerto: ao acordar, se o acordar acontecer, seremos o mundo e eu, e aí vamos ver a peleia do dia. O “vamos ver” é o tempero do existir.

Ruminava meu aborrecimento com quem gosta de um mapa orientativo para seus passos quando a boa sorte me aparece com Marina Santana, amiga artista que muito prezo. Principio o diálogo: – Que importância dás ao aleatório? – Toda. – Assim, tudo? – Creio que sim. – Não crês que incida algo de vontade tua; entregas-te totalmente à sorte?

Percebo que ela se dá alguma meditação, então prossegue: – Vai algo da minha vontade, sim. Talvez seja impossível o inteiramente aleatório, mas, em alguns momentos, entrego-me ao possível. – Seja à sorte boa, seja à sorte má?

Nova pausa de reflexão, depois completa: – O interessante do aleatório é a possibilidade, as descobertas. Mas não me entrego a qualquer coisa que venha. Eu deixo a vida correr e, então, conduzo o aleatório, mas, às vezes, exponho-me de propósito às possibilidades. – Ah... isso me inspira! Queres saber da minha inspiração? – Eu quero... Alea jacta est.

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*Doutor em Direito pela UFSC.Psicanalista e Jornalista.

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Comentários

joão do rosário
20 dias atrás

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jcf
22 dias atrás

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joão do rosário
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