sábado, 31 outubro 2026

PERFIL/Patone Lobo: O mecânico de aviões que desenhou o turismo do Sal e continua a inventar o futuro

 

O Hotel Odjo d’Água é um baluarte da “morabeza” real, resistindo à padronização dos grandes resorts all-inclusive, e para Patone, o sucesso não se mede em capitais, mas em amizades e impacto social.

 

Manuel António Sousa Lobo, seu nome próprio, nascido na ilha do Sal, criador do icónico Hotel Odjo d’Água, abre o livro da sua vida, recordando uma trajetória de audácia, da infância descalça à disciplina militar, até se tornar o visionário que não aceita o “não” da burocracia, que travou os seus projectos por uma década.

Foi uma conversa agradável e descontraída, entre sorrisos e gargalhadas, com esta memória viva da transformação da ilha do Sal, de um posto remoto de salinas a um destino turístico global, cuja história confunde-se com a própria história contemporânea de Cabo Verde.

Antes de erguer os alicerces do Hotel Odjo d’Água, um ícone de hospitalidade que carrega a identidade cabo-verdiana em cada detalhe, desde a gastronomia até a música ao vivo, Patone Lobo afinava motores de busca e salvamento na Força Aérea e hoje, aos 75 anos, o homem que trocou os hangares de Portugal pela areia de Santa Maria não se limita a olhar para o passado.

Entre a precisão técnica da sua formação e a teimosia de quem venceu uma década de burocracia, ele continua a ser o arquitecto de um turismo com identidade, provando que o motor que move a ilha ainda tem muita autonomia para inventar o futuro.

“Se percebes a mecânica da aviação, percebes a mecânica do carro, de tudo”, afirma, observando que essa visão técnica permitiu-lhe ser, simultaneamente, gestor, fiscal de obra e desenhador dos seus projectos, pois, Patone não apenas “mandou fazer” o Odjo d’Água, ele sentiu cada pedra e cada viga, e hoje com 135 colaboradores é uma vitória contra o “não”, na década que passou a correr atrás de autorizações.

“Eu poderia ter sido muito melhor se me tivessem deixado construir logo. Sinto uma certa revolta. Eu podia ter feito muito mais se não fosse a burocracia e a inveja. O que eu construo fica aqui, é para todos. Às vezes, as pessoas de níveis mais baixos criam mais problemas do que quem está no topo”, desabafa, num alerta sobre o peso da burocracia que ainda trava o desenvolvimento do país.

O Hotel Odjo d’Água é um baluarte da “morabeza” real, resistindo à padronização dos grandes resorts all-inclusive, e para Patone, o sucesso não se mede em capitais, mas em amizades e impacto social.

Diz o povo que “bezerro manso mama em todas as vacas”, uma máxima, também herdada da mãe, que é o fio condutor da vida de Patone Lobo, para quem ter amigos é melhor do que ter dinheiro.

Embalado nas suas lembranças, recorda com clareza o frio que sentiu ao aterrar em Lisboa, vindo da Guiné, com apenas alguns trocos no bolso que deu para comprar uma banana.

“A chegada a Portugal foi um choque térmico e cultural. Eu não imaginava o que era o frio. À uma da madrugada, saí do autocarro na Portela, senti aquele frio de rachar e tornei a entrar imediatamente”, recordou entre risos.

Ali começava a sua formação na OTA, onde se tornou o segundo melhor classificado em mecânica de material aéreo, e essa precisão militar, a capacidade de entender como cada engrenagem funciona, foi o que ele trouxe na bagagem ao regressar para o Sal após o 25 de Abril.

Uma competência técnica que, anos mais tarde, seria a base para ele próprio desenhar e fiscalizar as obras dos seus empreendimentos.

A Revolução de 25 de Abril de 1974 foi o sinal para voltar à casa.

Patone não queria saber de Lisboa ou de Santiago, o seu coração batia no ritmo das ondas do Sal, rejeitou empregos mais rentáveis na capital para ficar na sua ilha, começando como técnico no Hotel Morabeza.

Conta que a sua entrada no turismo foi um golpe do destino geopolítico, quando o governo de Ronald Reagan proibiu voos sul-africanos nos EUA, tendo o Sal perdido o seu fluxo habitual, então no Morabeza, ele foi o homem que ajudou a criar os primeiros pacotes turísticos com a TAP, inventando o turismo na ilha quando ninguém sabia bem o que isso era.

Foi ali, sob o olhar atento da administração belga da época, que Patone saltou da oficina para a gestão, cuja transição para a hotelaria foi natural, impulsionada por uma curiosidade insaciável.

Ele não era apenas o gerente, era o homem que ajudava a descarregar o peixe e a organizar os frigoríficos.

Ao percorrer os trilhos da sua vida, Patone Lobo que confessa não ter apego ao dinheiro e para quem o sucesso não se mede em capitais, mas em amizades e impacto social, volta à sua infância contando entre risos que a alcunha, nasceu de uma dificuldade de dicção quando criança.

“Eu não sabia falar, perguntavam o meu nome e eu dizia Patone. Ficou”, narra.

Nascido a 12 de Junho de 1950, na Rua de Meio, em Santa Maria, Patone, homem feito de mar e de sonhos persistentes, viveu uma infância que descreve como “muito feliz”, entre tamareiras e pescarias de lagosta.

A juventude, porém, impôs distâncias, já que aos 10 anos partiu para São Vicente para estudar, regressando ao Sal apenas nas férias. Aos 18, o destino levou-o mais longe, e para evitar o exército e o trauma da perda de um irmão na guerra da Guiné, alistou-se como voluntário na Força Aérea Portuguesa.

Fora dos balanços financeiros, Patone que prefere a humildade à ostentação é um homem de hábitos simples e paixões curiosas.

Confessa-se um entusiasta do TikTok e da Inteligência Artificial, ferramentas que usa para se manter actualizado.

Praticante de Pilates e adepto de uma boa cachupa, ele não esconde o seu ponto fraco: “Detesto a mentira. Sou capaz de perdoar tudo, menos quem me mente”, comentou.

Pai de seis filhos, três do primeiro casamento e três do actual, com a sua companheira e braço-direito, Manica, Patone vê agora a nova geração entrar no negócio, com quatro filhos a trabalhar consigo, enquanto ele próprio se refugia na tecnologia, para acompanhar o ritmo do mundo.

Para além dos planos de construção e das estratégias de hotelaria, Patone Lobo é um homem que não esconde o seu entusiasmo pela beleza e pelos afectos.

Com o mesmo brilho nos olhos com que fala de um novo projecto, ele recorda as aventuras da juventude, e entre risos, confessa que sempre foi um admirador das mulheres bonitas e que o seu percurso foi pontuado por romances que marcaram época, desde os tempos de Portugal com a São e a Ritinha, até aos anos dourados do Morabeza, por onde passavam hospedeiras de todo o mundo.

“O meu tio Antoninho dizia que um homem apaixonado é um homem louco”, cita, justificando as “loucuras por amor” que a vida lhe permitiu viver.

Hoje, essa energia vital reflecte-se na sua união com Manica, 22 anos mais jovem, com quem partilha não apenas a vida, mas a gestão quotidiana do Odjo d’Água.

A diferença de idade, para Patone, é um detalhe irrelevante perante a cumplicidade.

“Trabalhamos juntos 24 horas por dia. Eu estou sempre a criar e ela apoia-me sempre. Esse é o segredo”, revela o empresário, segundo o qual o amor e o trabalho fundem-se na mesma paixão: a de manter o coração e o hotel sempre pulsantes.

No fim do dia, entre uma memória de uma paixão antiga e o desenho de um projecto futuro, Patone Lobo deixa claro que a sua maior conquista não é o património construído, mas a liberdade de ter vivido cada década com a intensidade de quem sabe que, na mecânica da vida, o motor mais importante é o coração.

Dono de um dos refúgios mais charmosos do arquipélago, quando um projecto termina, confessa uma “depressão” passageira, que só se cura com a invenção de um novo sonho.

“Uma das coisas que me dá mais prazer é ajudar o próximo. Se eu puder ajudar, eu ajudo”, confessa Patone, sublinhando que essa filosofia de vida é partilhada pela sua esposa, Manica, o que evita conflitos e reforça o espírito de solidariedade da família.

Para ele, o sucesso de um homem não se mede pelo que ele acumula, mas pela facilidade com que resolve problemas, os seus e os dos outros, através da amizade e da generosidade.

“A verdadeira realização pessoal vem da capacidade de estender a mão a quem precisa”, disse.

Mesmo com o percurso consolidado, o empresário continua a desenhar o futuro, e o seu maior desejo não é financeiro, mas cívico, isto é, ver uma Santa Maria limpa, com árvores, uma ilha com bons hospitais e estradas, à altura da dignidade do seu povo.

A Semana com Inforpress

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Comentários

joão do rosário
23 dias atrás

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jcf
25 dias atrás

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joão do rosário
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