Vivemos numa época marcada por um paradoxo profundo: nunca houve tanto acesso à informação e, paradoxalmente, tão pouca disposição para a verdade. A sociedade contemporânea move-se num estado de sonambulismo moral, anestesiada por estímulos constantes, por frustrações crónicas e por uma ansiedade difusa que se infiltra na política, nas relações sociais e na própria interioridade do indivíduo. Neste cenário, instala-se uma lógica silenciosa, mas eficaz: nada é suficiente, e o outro — o diferente — deve ser sempre o culpado. Foi a partir desta inquietação que imaginei um diálogo com Maquiavel. Não o Maquiavel vulgarmente reduzido ao estereótipo do apologista da mentira, mas o pensador lúcido da mecânica do poder. Ele advertia-me que a política contemporânea não se funda na mentira como falsificação da realidade, mas na gestão estratégica das crenças.
Por Jacob Vicente*
- Jacob Vicente
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