domingo, 18 outubro 2026

ENTREVISTA: Houve um "golpe de Estado" no Centro de Estudos Sociais de Coimbra, acusa Boaventura de Sousa Santos

“Se [o CES] fosse uma instituição política, diria que houve um golpe de Estado, com aparência democrática. Obviamente que não vou de maneira nenhuma pôr em causa a legalidade da direção e do conselho científico, que foram democraticamente eleitos. Mas ponho em causa a legitimidade do conselho científico, porque era o mesmo que estava naquele momento [da denúncia] e não trataram imparcialmente, não o fizeram, e estão a fazê-lo desta forma para fazer valer aquela narrativa que é a narrativa das denunciantes e não uma narrativa que seja imparcialmente avaliada”.

Em entrevista à agência Lusa quase 15 meses depois do assunto ter sido tornado público, Boaventura de Sousa Santos disse ter sido transformado num bode expiatório e, de alguma maneira, como a origem do mal de uma “instituição de excelência, de uma instituição inclusiva”.

“Em 2020, o CES tinha 17% dos doutoramentos da Universidade de Coimbra. Há um estudo que mostra que as mulheres estão em maioria nos órgãos de gestão e de coordenação do CES. 81% dos projetos de produção científica são de mulheres, 61% da coordenação dos nossos projetos são de mulheres. Portanto, temos uma instituição inclusiva extremamente avançada e extremamente exigente”.

E esta exigência, defendeu o investigador titular de 21 doutoramentos honoris causa, levou a que muitos não conseguissem acompanhar a investigação ali criada.

Boaventura de Sousa Santos encontra, por isso, duas razões principais para este “golpe de Estado” e para estas acusações mediáticas, que o tiveram como alvo.

“A minha própria orientação científica não é do agrado de muita gente dentro do CES. Mas o CES sempre foi um espaço em que se respeitou o pluralismo. E isto indigna-me e é um a situação extremamente preocupante”.

O sociólogo recordou ainda ser um intelectual público, mas um intelectual público de esquerda.

“Todos sabemos, mas não tenho igreja, nem partido. Portanto, sou um alvo fácil para uma guerra mediática, porque sou incómodo nas minhas posições independentes. Desde que rebentou a guerra na Ucrânia, que sempre me insurgi. Sempre fui adepto das independências. Portanto, critiquei e defendi a paz. Mas, neste momento, em Portugal, lutar pela paz é quase um insulto, porque realmente, como vê as notícias, são todas para que os orçamentos dos Estados aumentem mais os seus gastos militares”.

Ora isto, defendeu, se os investimentos vão para os gastos militares, não vão para a educação, para a saúde, para as pensões, nem para o bem-estar das populações.

“Estamos a alimentar uma guerra infinita e a alinhar numa guerra que pode ser nuclear, que pode ser destrutiva para a própria espécie humana”, alertou.

E por isso, admitiu, foi insultado, desde os média, mas também nas redes sociais.

“Há muitos interesses em Portugal, sobretudo na faixa dos grupos de direita e de extrema-direita. Estão interessados em silenciar a minha voz, mas não é fácil, porque a minha voz é internacional e eu continuo a publicar os meus textos”.

A Semana com Lusa

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Comentários

joão do rosário
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12 dias atrás

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