sábado, 17 outubro 2026

Bissau: Cancelamento da missão da CEDEAO seria "o caos"

O silêncio "ensurdecedor" da CEDEAO após a cimeira de Abuja começa a gerar mais perguntas do que respostas na Guiné-Bissau. Passadas semanas desde as decisões que exigem a libertação imediata dos presos políticos e o envio de uma missão a Bissau, nada disso se concretizou. Pelo contrário, a missão anunciada foi adiada e, segundo o próprio governo de transição, já nem deverá acontecer, enquanto figuras centrais da oposição continuam detidas.

É neste clima de impasse que a oposição reagiu com um comunicado. Fernando Dias da Costa acusa o Alto Comando Militar de ganhar tempo, usar a detenção de Domingos Simões Pereira como instrumento de pressão e de contornar as decisões da CEDEAO com uma narrativa judicial que considera falsa.

Em entrevista à DW, o sociólogo e docente universitário guineense, Armando Correia, afirmou que a CEDEAO está a falhar gravemente na gestão da crise política na Guiné-Bissau, demonstrando falta de coerência, incapacidade de intervenção e perda de autoridade na sub-região. Armando Correia alertou ainda que, caso a missão da CEDEAO não seja enviada a Bissau nas próximas semanas, o país poderá entrar num ciclo de caos político, social e económico em 2026.

 

DW África: Como avalia o silêncio da CEDEAO após a cimeira de Abuja?

Armando Correia (AC): O silêncio ensurdecedor da CEDEAO revela a opacidade da organização perante a situação política vigente no país. Por exemplo, o adiamento, por duas vezes, da missão da CEDEAO de vir aqui à Guiné-Bissau e também o adiamento da missão militar que iria vir aqui à Guiné-Bissau, e a vinda de uma delegação senegalesa ao país, demonstrou todo o descompasso que a organização internamente vive e o modo seletivo como tenta resolver as sucessivas crises que se vivem na sub-região.

Ou seja, a CEDEAO não consegue ter um controlo da agenda de resolução dos conflitos na região ou faz uma seleção da sua capacidade para resolver o problema em diferentes países membros da organização.

 

DW África: Se a CEDEAO não reage a este caso, que mensagem passa ao comando militar em Bissau?

AC: Passa uma mensagem muito clara de que qualquer pessoa ou qualquer militar, seja soldado ou comandante da classe castrense militar, pode assumir o poder sem qualquer consequência. Vemos que a Guiné-Bissau tem um histórico relativamente a estes tipos de ruturas institucionais e vê-se que a comunidade internacional, especificamente a CEDEAO, não tem capacidade para resolver o problema de uma forma clara e interventiva do ponto de vista político.

 

DW África: Quer com isso dizer que as sanções já não assustam ninguém na Guiné-Bissau?

AC: Exatamente. A sanção não assusta, até porque o comando militar e o governo de transição já demonstram este certo "conluio" com a CEDEAO, e de uma forma geral, vemos a resposta das autoridades que assumiram o poder neste momento - não têm medo das sanções. E porquê? Porque já viram que são sanções que, na prática, quase não têm impacto sobre a vida deles ou sobre o poder que eles detêm no país.

 

DW África: Se a missão da CEDEAO não chegar a Bissau nas próximas semanas, que cenário político se desenha para 2026?

AC: O país transforma-se num Estado de caos. É o que podemos esperar relativamente ao próximo cenário político, social e económico. E a CEDEAO está a ver isto a olho nu, assim como o Senegal, e todos. Neste momento, a Guiné-Bissau virou um palco de interesses, não só na sub-região, mas também a nível internacional, porque todas as organizações internacionais estão opacas.

 

A Semana com DW África

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Comentários

joão do rosário
9 dias atrás

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jcf
11 dias atrás

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joão do rosário
13 dias atrás

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