Esta tarde, cidades como São Paulo, Lisboa, Londres e Paris são palco de manifestações da diáspora guineense para denunciar aquilo que os organizadores classificam como “um golpe militar conduzido pelo presidente Umaro Sissoco Embaló”. Entre palavras de ordem e apelos à solidariedade internacional, os protestos evidenciaram a crescente preocupação de uma comunidade que exige a defesa da democracia na Guiné-Bissau.
Em Lisboa, a concentração reuniu dezenas de participantes e contou com a presença de Nexús Faria, jurista e estudante da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, um dos principais organizadores. Nexús Faria justificou a mobilização afirmando que “é preciso repor a verdade sobre aquilo que sucedeu”. Segundo o jurista, “o ex-presidente Umaro Sissoco Embaló e os seus auxiliares querem vender uma narrativa de que quem sofreu golpe foi o presidente”, algo que, afirma, “não faz sentido, observando os elementos que estão à vista”.
Nexús Faria sustenta que os actuais dirigentes da transição “são as mesmas figuras que eram ministros e generais de Umaro Sissoco Embaló”. Acrescenta que “os líderes da oposição estão presos” e que, por isso, “não faz sentido dizer que Embaló sofreu um golpe; quem sofre golpe não vê os seus ministros serem premiados”. Para o jurista, “é preciso fazer a reposição desta verdade: o Umaro não sofreu golpe; pelo contrário, deu golpe ao povo guineense”.
No centro das reivindicações está a exigência de divulgação dos resultados eleitorais. Nexús Faria lembra que “o povo guineense foi votar a 23 de Novembro” e que, apesar de a CNE não ter proclamado resultados, “as três primeiras fases de apuramento — mesa, círculo e região — já tinham ocorrido, e por isso era de conhecimento público quem venceu”. Segundo afirma, “os resultados são conhecidos porque há actas-síntese das mesas, dos círculos e das regiões”. E conclui: “Temos um vencedor, Fernando Dias. O artifício criado por Embaló serviu apenas para travar a vontade eleitoral do povo”.
Sobre o papel da diáspora nesta mobilização, Nexús Faria considera-o inédito: “É talvez a primeira vez que assistimos a esta realidade no contexto guineense. A diáspora nunca se tinha mobilizado de forma tão organizada e concertada”. Para o jurista, esta articulação tem dois objectivos centrais: “explicar ao exterior o que sucedeu, contrariando a desinformação”, e “exigir a verdade eleitoral e a libertação dos detidos”.
Questionado sobre as medidas que a comunidade internacional deveria adoptar, Nexús Faria divide-as em dois planos. Em primeiro lugar, defende que “a Guiné-Bissau deve ser suspensa das actividades das organizações de que faz parte — CPLP, CEDEAO, União Africana e Nações Unidas — enquanto vigorar este regime de transição”. Em segundo lugar, sustenta a necessidade de sanções personalizadas: “É possível responsabilizar e sancionar os sujeitos envolvidos no golpe: impedir que viajem, congelar contas e bens no exterior e estender essas consequências aos familiares”.
Para Nexús Faria, esta última medida seria particularmente eficaz: “Quase todos os governantes envolvidos têm património e familiares na Europa, sobretudo em Portugal. Não podem criar o caos no país e manter os seus familiares a viver em tranquilidade.” E conclui com um apelo: “A comunidade internacional tem de deixar claro que, se não repensarem o seu posicionamento, sofrerão as consequências juntamente com os seus familiares. Só assim será possível dissuadir o comportamento que está em curso”.
A Semana com RFI

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