terça-feira, 13 outubro 2026

Cabo Verde na Vanguarda da Nova Economia: O Desafio "Bizgital" e o Papel Crítico da Cabo Verde Telecom

A indicação do líder da operadora concessionária deve basear-se em critérios bastante rigorosos, conciliando competências, conhecimentos, experiências e não puramente políticos ou administrativos. Exige-se um profissional com competências híbridas comprovadas, capaz de dialogar de igual para igual com gigantes globais (como a Starlink ou consórcios internacionais), de gerir financiamentos de alta complexidade com entidades como o BEI e de guiar a transformação interna sem gerar dívida técnica.

Por: Eng. MsC. José Rodrigues

 

Estamos a viver uma era de transição profunda, impulsionada pela aceleração exponencial da tecnologia e pela inevitável integração digital de processos, serviços e comportamentos.
No atual cenário mundial, a capacidade de coletar, transmitir e processar dados em tempo real tornou-se o diferencial entre as organizações que prosperam e as que se tornam obsoletas!
No entanto, para um país arquipelágico como Cabo Verde, com as suas especificidades geográficas e desafios de coesão territorial, a Economia Digital não é apenas uma área setorial de atividade, mas sim a plataforma de integração capaz de esbater barreiras e impulsionar o desenvolvimento sustentável.

No centro desta engrenagem rumo ao futuro está a Cabo Verde Telecom (Alou). Detentora das infraestruturas de comunicação que suportam todos os serviços públicos, privados e financeiros do país, incluindo a sua participação estratégica como acionista fundadora da SISP com 9,52% do capital, figura – se como alicerce insubstituível sobre o qual se desenha o amanhã digital cabo-verdiano.


1. A Autoestrada Transatlântica e o Salto Tecnológico: EllaLink, 5G e as Fronteiras do 6G

O percurso de modernização tecnológica de Cabo Verde deu um salto qualitativo histórico com a entrada em funcionamento, em junho de 2022, do cabo submarino de fibra ótica de última geração EllaLink.
Trata-se de um investimento estruturante de cerca de 30 milhões de dólares — financiado maioritariamente pelo Banco Europeu de Investimento (BEI) com o aval do Estado, que dotou a cidade da Praia de uma Estação Terminal ligada diretamente à rota transatlântica entre Sines (Portugal) e Fortaleza (Brasil).

Com uma capacidade colossal de 30TB e baixíssima latência, o EllaLink securizou as comunicações internacionais do país, quebrando a dependência histórica de rotas isoladas e dotando o arquipélago de redundância física.
Tal investimento transformou-se numa "autoestrada" de comunicação que permite a Cabo Verde não apenas garantir a estabilidade das redes existentes, mas sim posicionar-se como um polo dinâmico para a criação de novos negócios digitais.

Essa infraestrutura de conectividade robusta serve de base direta para as redes móveis do futuro, sendo que m abril de 2026, Cabo Verde iniciou oficialmente a fase piloto da tecnologia 5G, numa parceria estratégica entre o Parque Tecnológico de Cabo Verde e a CV Telecom.
Com uma capacidade de dados até dez vezes superior e latências praticamente instantâneas, o modelo técnico escolhido, o “5G Non-Standalone (NSA)”, construído sobre a infraestrutura 4G existente, garante um avanço célere com menor custo de investimento inicial.
O lançamento comercial projetado para 2027-2028 terá início nos grandes polos urbanos e turísticos (Praia, São Vicente e aeroporto do Sal), mas o grande desafio reside na sua expansão para as ilhas de menor densidade, combatendo a fratura digital que ainda afeta as zonas mais isoladas.

Mais do que o 5G, as potencialidades de transmissão de altíssima velocidade do EllaLink e a infraestrutura modular cabo-verdiana já começam a viabilizar os primeiros estudos estruturais para a futura tecnologia 6G.
Esta proatividade científica e técnica visa manter Cabo Verde "na crista da onda", posicionando o país não como mero importador de tecnologia, mas como participante ativo do ecossistema de inovação global.

2. O Equilíbrio da Competitividade: Tarifas, Receitas e a Rede do Estado

A transição digital sustentável exige uma difícil, mas necessária coordenação entre o Governo, as entidades reguladoras (ARME) e a operadora concessionária. Para aumentar a competitividade das micro, pequenas e médias empresas (MPMEs) e acelerar a literacia digital, o mercado clama por uma redução de custos nos serviços de telecomunicações. No entanto, reduzir preços de forma abrupta e desregulada pode quebrar o fluxo de receitas necessário para sustentar os elevados investimentos de capital em infraestrutura crítica.

O recente aval soberano do Governo de 37 milhões de euros concedido à CV Telecom para a modernização das suas infraestruturas demonstra que os investimentos nesta área são de capital intensivo e exigem parcerias sólidas de cofinanciamento, de maneira que a redução de tarifas deve ser desenhada com base numa lógica de ganho de eficiência operativa e economia de escala: o aumento massivo do volume de dados consumidos deve compensar a descida progressiva do preço unitário por gigabyte.

Paralelamente, urge realizar um investimento robusto na Rede do Estado (NOSinet), melhorando significativamente a velocidade e a largura de banda que interliga os serviços governamentais.


A eficiência de um hospital, de uma conservatória ou de uma delegação aduaneira digitalizada depende diretamente da qualidade da ligação fornecida pela operadora, portanto as melhorarias na rede estatal traduz-se de forma direta na melhoria da qualidade dos serviços públicos prestados ao cidadão, promovendo a eficiência e a transparência administrativa.

3. A Invasão da Starlink: Desafio Regulatório e Oportunidades de Parceria

Em outubro de 2024, a Agência Reguladora Multissetorial da Economia (ARME) autorizou a entrada em Cabo Verde da Starlink, a gigante de internet por satélite de órbita baixa da SpaceX, com a capacidade de fornecer internet de banda larga de alta velocidade e baixíssima latência nas zonas sem cobertura de redes terrestres teve um impacto disruptivo imediato!
Em apenas 9 meses, isto é, até junho de 2025, a Starlink conquistou 0,2% do mercado de internet no país, coincidindo com uma ligeira perda de quota da CV Telecom (que se fixou em 72,3%).

Este cenário não deve ser encarado pela CV Telecom apenas como uma ameaça de concorrência estrangeira, mas sim como uma oportunidade estratégica de parceria e representação oficial (complemento “Teoria do Oceano azul), ao estabelecer um acordo de representação comercial com a Starlink, a CVT poderá:

  1. Fornecer e apoiar localmente os equipamentos (antenas), gerindo o processo de venda, instalação técnica e assistência de manutenção pós-venda em todo o arquipélago.
  2. Integrar a conectividade por satélite nas suas ofertas híbridas, fornecendo às populações mais remotas, navios (como os da CV Interilhas) e zonas isoladas uma conectividade garantida, retomando assim a liderança e faturação desse segmento de mercado.
  3. Proteger a soberania digital e a governança de dados, assegurando que os dados críticos dos cidadãos e do Estado transitem em conformidade com as regulações de segurança cabo-verdianas.

4. Responsabilidade Social e Inovação Aberta: O Ecossistema Empreendedor

A sustentabilidade corporativa moderna baseia-se na harmonia entre a viabilidade financeira e o benefício gerado para a sociedade.
A CV Telecom tem demonstrado este compromisso através de programas estruturantes de responsabilidade social, como o financiamento de bolsas de formação profissional em parceria com o IEFP para apoiar jovens em situação de vulnerabilidade, donativos de viaturas comunitárias e equipamentos médicos para hospitais nacionais.

Contudo, na era "Bizgital", a responsabilidade social deve também atuar como motor de Inovação Aberta (Open Innovation).
A CV Telecom, como parceira ativa de programas nacionais como a Bolsa Cabo Verde Digital (que apoia dezenas de jovens empreendedores com bolsas e incubação técnica), deve aprofundar parcerias com as universidades nacionais (como a Uni-CV, Uni Piaget, Uni Mindelo, entre outras) para promover concursos de startups digitais.

Ao financiar as melhores ideias em áreas como Fintech, Economia Azul, Economia Verde e Smart Cities, a CVT não só apoia a criação de MPMEs sustentáveis, como também fomenta o surgimento de novos criadores de conteúdos e aplicações. Estes produtos locais de valor acrescentado consumirão a capacidade de banda larga de redes como o EllaLink e o 5G, fechando um ciclo de retroalimentação virtuosa na economia cabo-verdiana.

5. O Perfil do Novo Líder: O PCA "Bizgital" com Competências Híbridas

Para navegar neste mar de disrupções e oportunidades, a escolha do Presidente do Conselho de Administração (PCA) indicado para liderar a Cabo Verde Telecom tornou-se uma decisão de Estado de extrema importância.
O líder moderno de uma infraestrutura crítica de telecomunicações já não pode possuir um perfil meramente técnico ou estritamente financeiro.
Todavia o novo PCA deve ser um expoente do conceito Bizgital, o paradigma defendido pelo autor, que funde indissociavelmente o Negócio, o Digital e a Cultura organizacional, sendo que as valências e competências requeridas a esta liderança assentam num perfil híbrido claro:

  • Visão Estratégica de Negócio (Business):
    Capacidade de manter a solidez financeira e rentabilidade da empresa perante as novas pressões da concorrência e exigências de redução tarifária, gerindo o portfólio de ativos físicos e digitais com rigor.
  • Fluência Tecnológica (Digital):
    Compreensão profunda de arquiteturas de rede (5G, 6G, fibra ótica, redes de satélite) e de cibersegurança, focando-se sempre no "Para Quê" estratégico da tecnologia e não apenas no "Como" instrumental, sendo vital para evitar o colapso na "dívida técnica" que ocorre quando se implementa tecnologia avançada sem reestruturar os processos organizacionais obsoletos.
  • Competências Humanas e Culturais (Soft Skills):
    Liderança inspiradora, capacidade de comunicação aberta, inteligência emocional e agilidade cultural para transformar as equipas internas em "sensores de valor", sendo que o líder moderno deve saber promover o lifelong learning e construir uma mentalidade de co-criação colaborativa.

O novo PCA da CV Telecom será o grande maestro deste ecossistema, gerindo uma empresa que, além de operadora, atua como parceira central de outros veículos estratégicos do país, como a SISP (no processamento de transações, na desmaterialização de pagamentos com o mobile e na e-fatura suportada por assinaturas eletrónicas qualificadas).

Aconselhamento Estratégico ao Governo: Alertas para o Executivo

Face à radiografia geral apresentada pelo autor, deixam-se quatro conselhos fundamentais ao Governo de Cabo Verde para garantir que a transição digital ocorra na prática e com sucesso:

  1. A Transformação Digital do país passa obrigatoriamente pela CV Telecom:
    Qualquer programa governamental de desmaterialização administrativa, e-governança ou modernização dos serviços do Estado falhará se a infraestrutura física de telecomunicações que o suporta não for rápida, resiliente e escalável, uma vez que a CVT é o coração do ecossistema digital cabo-verdiano.
  2. A escolha do PCA da CVT é um assunto de soberania económica:
    A indicação do líder da operadora concessionária deve basear-se em critérios bastante rigorosos, conciliando competências, conhecimentos, experiências e não puramente políticos ou administrativos.
    Exige-se um profissional com competências híbridas comprovadas, capaz de dialogar de igual para igual com gigantes globais (como a Starlink ou consórcios internacionais), de gerir financiamentos de alta complexidade com entidades como o BEI e de guiar a transformação interna sem gerar dívida técnica.
  3. Investir em Pessoas e Processos antes de comprar Tecnologia:
    Digitalizar um processo burocrático e ineficiente apenas cria burocracia digital acelerada, portanto o Governo deve apoiar a CV Telecom e o NOSi na capacitação contínua dos recursos humanos (através de programas de reskilling e bolsas) e na reengenharia prévia de processos operacionais (usando padrões como o BPMN) antes de avançar para a pura automação.
  4. Promover a Cooperação em "Coopetição":
    O ecossistema de telecomunicações deve equilibrar a sã concorrência com o desenvolvimento nacional, tendo o Governo o dever de incentivar a CV Telecom a estabelecer parcerias locais e internacionais inteligentes (incluindo com operadoras concorrentes e novos players como a Starlink), promovendo a partilha de infraestruturas onde isso represente uma redução de custos operacionais e um benefício direto para o cidadão cabo-verdiano.

O futuro de Cabo Verde está a ser escrito hoje!
Ou o Estado e as suas empresas lideram com agilidade estratégica e "surfam a onda" da inovação Bizgital, ou correm o risco de ser submersos por ela, assistindo à perda progressiva da soberania e competitividade económica do país.

A decisão está nas mãos da liderança.

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Comentários

joão do rosário
6 dias atrás

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jcf
7 dias atrás

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joão do rosário
10 dias atrás

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