sábado, 17 outubro 2026

ENTREVISTA: Poeta José Luiz Tavares surpreso com a escolha de Augusto Veiga para ministro da Cultura

“Não deixa de ser uma escolha surpreendente, porquanto os ministros da cultura vieram sempre de áreas culturais ditas clássicas ou de gente com relevante peso político, desde o regime do partido único. Recorde-se dos nomes de David Hopffer Almada, António Jorge Delgado, o melhor ministro da Cultura de que tenho memória, Ondina Ferreira, Vítor Borges, Jorge Tolentino, Manuel Veiga, Mário Lúcio, que, sendo músico, é também escritor”, recordou.

Para o poeta, natural do Tarrafal de Santiago, que falava à inforpress a propósito do Prémio Oceanos 2024, de que é um dos 60 semifinalistas, com a obra poética “Perder o pio a emendar a morte”, depois de oito anos de um ministro “vaidoso e ventoso, vácuo e conflituoso”, chega alguém agora com um outro perfil.

“Não faço nenhum juízo antecipatório, até porque eu não sou indivíduo de ter expetativas em ninguém, sobretudo na política. Eu apenas digo o que acho que se deve fazer na área que melhor conheço, que é a do livro e da literatura, que tem sido votado a um abandono atroz, com a retirada, em tempos, da autonomia administrativa, financeira e patrimonial à Biblioteca Nacional, com um défice crónico de investimento no livro.

Esse desinvestimento, segundo o poeta apanágio de todos os governos da República, agravou-se na gestão de Abraão Vicente, com a “desastrosa (política e patrioticamente criminosa, do ponto de vista do dinheiro desbaratado e canalizado para uma entidade estrangeira) «morabeza», e o abandono completo do sector do livro, a não ser quando era preciso engendrar algum show sem conteúdo para contentar uns escreventes sedentos de migalhas e palco, ou precisasse de qualquer forma de publicidade ou caucionamento, que apenas as artes eruditas podem proporcionar”.

Para o mais premiado escritor cabo-verdiano, o anterior ministro, “que só tinha olho e boca para as suas bazófias, dizendo que «morabeza» era maior festival literário da África de língua portuguesa, como se fosse isso o que mais importa, importando de Portugal um modelo sugador dos parcos recursos nacionais, sobretudo nefasto à ecologia literária cabo-verdiana, nunca olhou para o trabalho que se faz em Moçambique, quer ao nível do investimento na literatura, quer ao nível dos jurados dos prémios relevantes da lusofonia”.

“Alguém achará que é por acaso que os dois prémios Camões atribuídos a escritores cabo-verdianos aconteceram precisamente em duas das três vezes em que estiveram autores cabo-verdianos no júri: eu, quando o prémio foi atribuído ao Germano Almeida, e o Corsino Fortes, quando foi o Arménio Vieira? Apenas quando o Germano fez parte do júri é que o prémio não calhou a um escritor cabo-verdiano”, atirou.

Referiu-se à edição deste ano do Prémio Oceanos e ao número de jurados moçambicanos presentes.

“Agora com dois elementos moçambicanos em cada júri das meias-finais, o da prosa e o da poesia, é natural que venhamos a ter finalistas moçambicanos quer num género ou outro, sem que isto implique qualquer jogada, mas apenas porque há um investimento nos centros de decisão sobre estes assuntos, e sobretudo no apoio à criação e edição na área da literatura, até da parte de privados, como o notável trabalho feito pela fundação Leite Couto e pelas empresas que apoiam com relevantíssimos prémios pecuniários o sector da criação literária”, lançou.

E prosseguiu: “Veja-se a plêiade de jovens e notáveis poetas que há hoje nesse país, o que me enche de contentamento como poeta e africano e escritor numa língua que partilho com eles. Acham que isso é obra do espírito santo? Não! Enquanto uns investem em festivais e regabofes e pinotes mediáticos, Moçambique investe em verdadeiros valores culturais”.

 

A Semana com Inforpress

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Comentários

joão do rosário
9 dias atrás

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11 dias atrás

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