sexta-feira, 16 outubro 2026

África do Sul prepara novo escrutínio 30 anos após primeiras eleições

Quando votou, em 27 de abril de 1994, Nelson Mandela, que se tornou então no primeiro Presidente negro do país, confessou tratar-se de "uma ocasião inesquecível", a "realização de esperanças e sonhos" acalentados ao longo de décadas: "Os sonhos de uma África do Sul que represente todos os sul-africanos".

 

Libertado em 1990 pelo então Presidente William de Klerk, após 27 anos de prisão, o líder histórico da luta contra o 'apartheid' queria uma "nova África do Sul", onde "todos os sul-africanos sejam iguais e trabalhem em conjunto para trazer segurança, paz e democracia" ao país.

"Mas também estamos preocupados com as minorias do país, especialmente a minoria branca", frisou então Mandela, afirmando que a liderança do partido "estava preocupada" em "dar confiança e segurança" aos que estavam preocupados com o facto de, com as mudanças, ficarem "numa posição de desvantagem".

"Lutei com muita firmeza contra a dominação branca. Lutei com muita firmeza contra a dominação negra", vincou então Mandela.

Em 1994, o partido Congresso Nacional Africano, de orientação marxista-leninista liderado por Mandela, foi eleito com 62,65% dos votos para governar a economia mais desenvolvida do continente como parte de uma "Aliança Tripartida" formada com o Partido Comunista da África do Sul (SACP) e a Confederação Sindical da África do Sul (COSATU).

Nas primeiras décadas, até cerca de 2008, a África do Sul -- um dos principais produtores mundiais de ouro, diamantes, platina, e carvão -, implementou com sucesso políticas de habitação, energia elétrica, água e saneamento, nomeadamente para a população de maioria negra, tendo conseguido também, através da política de Crescimento, Emprego e Redistribuição (GEAR, na sigla em inglês), controlar a dívida pública e gerar mais emprego, segundo a diretora do Instituto de Relações Raciais da África do Sul (SAIRR, na sigla em inglês), Anthea Jeffery à Lusa.

"Infelizmente também houve más políticas implementadas pelo ANC e as suas consequências negativas tornaram-se cada vez mais evidentes, especialmente depois de 2008, quando o Presidente Thabo Mbeki deixou a Presidência da República, sendo substituído no cargo, interinamente, por Jacob Zuma, que foi eleito Presidente em 2009", frisou.

Thabo Mbeki foi afastado pela ala de esquerda radical do ANC, que, juntamente com os parceiros da aliança de governação tripartida, apoiaram a nomeação do vice-presidente Zuma para o cargo de Presidente da República, com o ANC a obter nesse ano 65,9% da votação a nível nacional.

Em 2014 entrou em declínio, alcançando 62,15%, baixando para 57,50% nas eleições gerais de 2019, segundo dados da comissão eleitoral.

Jacob Zuma, de 81 anos, governou o país entre 2009 e 2018, tendo sido também afastado pelo seu próprio ANC devido a inúmeros escândalos de alegada corrupção pública, tendo acusado este mês o seu sucessor Cyril Ramaphosa de ser "um problema para o país".

Após o novo ciclo sob a liderança de Zuma, atualmente candidato às eleições gerais em 29 de maio com um novo partido político, o ANC governante enfrenta também nos últimos anos a quase falência das empresas públicas.

A economia sul-africana, a mais desenvolvida no continente, encontra-se numa trajetória de baixo crescimento de emprego, com pobreza persistente desde a crise financeira mundial de 2008 e 2009, a taxa de criminalidade é das mais altas do mundo, sendo o impacto do crime estimado em pelo menos 10% do PIB anual, segundo uma avaliação do Banco Mundial em 2023.

Entre 2000 e 2020, mais de 400 mil sul-africanos com estudos superiores emigraram, nomeadamente para a Europa, Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia, segundo agência de estatística sul-africana Stats SA.

A Semana com Lusa

 

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Comentários

joão do rosário
8 dias atrás

SENHOR PRESIDENTE, DEIXE-SE DE TRETAS: NÓS SABEMOS QUEM O SENHOR É José Maria Neves vem agora dizer que é “muito melho ...

jcf
10 dias atrás

Cabo Verde tem uma facilidade extraordinária para comentar o que se passa na casa dos outros. Guiné-Bissau, Angola, Moçamb ...

joão do rosário
12 dias atrás

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