Nesta quarta-feira,14, decorrem as meias-finais da competição organizada pela CAF - Confederação Africana de futebol - com os seguintes jogos: Senegal-Egipto em Tânger e Nigéria-Marrocos em Rabat.
Recorde-se que nos quartos-de-final, o Senegal venceu o Mali por 1-0, o Egipto derrotou a Costa do Marfim por 3-2, a Nigéria levou a melhor contra a Argélia por 2-0, enquanto o país anfitrião, Marrocos, triunfou por 2-0 diante dos Camarões.
A RFI falou com Carlos Fortes, avançado de 31 anos, que já vestiu as camisolas do Nacional, do SC Braga, do Vizela e do Vilafranquense em Portugal, do Ittihad Tanger em Marrocos, do Gaz Metan e do Universitatea Craiova na Roménia, do Racing Santander em Espanha, do Sanliurfaspor na Turquia, do Arema FC e do PSIS Semarang na Indonésia, e do Foshan Nanshi e do Suzhou Dongwu na China.
Em entrevista à RFI, Carlos Fortes afirmou que a Nigéria tem mostrado ser uma equipa fortíssima e tem fortes hipóteses de vencer a prova se ultrapassar Marrocos nas meias-finais.
RFI: Que balanço pode fazer até agora do CAN-2025?
Carlos Fortes: Tem sido uma boa competição, sinceramente. Mas eu acho que não houve tanta publicidade em relação aos anos anteriores. Não tem sido muito falado este CAN como tinha sido nos anos anteriores. Se calhar sou eu, isto por Cabo Verde não estar presente, mas acho que este ano está um bocado fraco. Não era essa a palavra, mas é nesse sentido. Acho que a competição, em si, está boa. Acredito que, na minha opinião, vai ser a Nigéria que, este ano, vai ganhar, mas vamos ver. O Egipto também tem uma selecção muito boa.
Quatro candidatos ‘naturais’ podem vencer a prova neste momento, não falta um bocadinho de surpresas nesta prova?
Falta sim! O último CAN foi muito mais disputado nesse sentido. Eu acho que estes quatro semi-finalistas são naturais e qualquer um pode ganhar, porque são quatro favoritos à vitória. No entanto, acredito que sim, que falte uma surpresa. Acho que isso também traz um bocado de publicidade à competição, competitividade e bom marketing à competição. Quando aparecem outras selecções a fazerem um bom campeonato, dá outra visibilidade, outro acompanhamento, as pessoas costumam comentar mais. Agora estas quatro selecções, as pessoas já estão praticamente à espera.
Não falou de Marrocos como candidato ao título, isto apesar de ter jogado lá na equipa de Tânger?
Eles também são um dos candidatos. Jogando em casa, eles têm o favoritismo do lado deles. Mas eu sinceramente acho que a Nigéria vai surpreender. Por causa de estar a jogar em casa, Marrocos vai sentir um bocadinho a pressão. Acho que, na fase inicial do jogo, vai ser a Nigéria a sentir, porque os adeptos marroquinos são muito fervorosos. Mas, com o desenrolar do jogo e se Marrocos não marcar cedo, acho que vai haver uma surpresa.
Jogou em Marrocos. Como é justamente jogar em Marrocos e ter um público fervoroso?
Sim, eu adorei jogar em Marrocos e nesse sentido os adeptos é espectacular. É o mais alto nível a nível de adeptos, acredito que seja dos melhores, não só de África, mas acredito até do mundo. É um espectáculo, especialmente nos jogos grandes. Eles utilizam muito a pirotecnia, que na Europa é proibido, e é um espectáculo. Mas também presenciei muitas vezes no aquecimento, ainda nem sequer tinha começado o jogo, estavam adeptos da minha própria equipa à porrada uns com os outros. Uma coisa fora do normal. Adorei lá estar, o campeonato é muito bom, os jogadores são muito tecnicistas, o futebol é mesmo muito rápido e agressivo também. Acho que os jogadores marroquinos têm muita qualidade e muita técnica. É algo que os caracteriza mesmo.
Jogou em Tânger, no grande estádio com cerca de 75 mil lugares. Em relação às instalações, parece haver um nível alto em Marrocos e também em Tânger?
Sim, eu quando cheguei já joguei no novo estádio de Tânger. Não tive a sorte de jogar lá contra as duas equipas grandes, que foram os meus dois primeiros jogos e não estava inscrito. Vi os jogos da bancada e é um ambiente espectacular. As instalações e as condições são muito boas, não só em Tânger, mas, em geral, em Marrocos. Os estádios são todos muito bons, com muita boa qualidade, relva boa, e o futebol lá é um futebol bom.
Pensa que também pode ser isso, as instalações e os centros de formações, que pode levar uma selecção africana a vencer um Mundial?
Sim, sem dúvida. As infra-estruturas são o começo e a base para uma boa prática a seguir tem que haver outro tipo de investimentos, mas acredito que sim. Quando nós temos boas condições de trabalho, nós temos mais vontade e mais predisposição para fazer as coisas. Também a qualidade dos treinos e dos exercícios torna-se melhor e com isso vem uma evolução natural. Acho que é isso mesmo que falta às selecções africanas, e ao futebol africano em geral, é mais investimento em infra-estruturas e em conhecimento também. Tem que haver esse tipo de investimentos para haver um crescimento natural e que as pessoas também não se apressem a querer que as coisas sejam feitas de um dia para o outro, porque leva tempo, leva cuidado e leva paciência. Mas se as pessoas tiverem essa perspectiva, e olharem a longo prazo, acredito que o futebol africano vai-se desenvolver e um dia vamos ver uma selecção africana a ganhar o Mundial, sem dúvida.
No CAN deste ano, a Nigéria, que não conseguiu o apuramento para o Mundial, parece ultra forte, isto consegue-se explicar?
Cabo Verde não se apurou para o CAN e está no Mundial pela primeira vez. Isto é um pouco do que as selecções africanas, às vezes, não demonstrando. Podem não ter consistência numa competição e acabam por se apurar noutra, ou não corre tão bem num sítio e depois acabam por surpreender noutro. Nós tivemos selecções que já estiveram muito bem e depois acabam por, de certa forma, não demonstrar aquilo que podem verdadeiramente fazer. Esta Nigéria não se apurou para o Mundial, mas eu acredito, e estamos a ver aqui neste CAN, que é um dos favoritos à vitória. Na minha opinião, eu acho que vai ser mesmo esta Nigéria a ganhar com aquele trio de ataque que é mesmo muito forte (ndr: Osimhen, Lookman e Adams) e eles têm feito um CAN muito bom. Vamos ver o que é que acontece agora neste jogo, que vai ser um jogo muito difícil contra os grandes favoritos, os anfitriões, Marrocos. Mas acredito que se passarem à final, acho que os nigerianos vão ganhar.
Já estamos em 2026. Cabo Verde está no Mundial. Participar nesse Mundial é um objectivo para 2026?
Claro que é um sonho, é um objectivo, obviamente. Acho que vai depender muito do próximo passo na carreira. Isto vai claramente ditar se posso ser uma opção ou não. Independentemente de para onde eu vá, vou continuar a trabalhar e se o seleccionador assim entender, também serei uma opção para ajudar. Se não entender, também serei mais um a apoiar. Mas claro que é um objectivo. Vai depender um pouco, como eu disse, do próximo passo, mas vamos aguardar e vamos ver. Depois também dentro de campo, tenho que fazer o meu trabalho para poder ser uma opção.
Qual é o próximo passo? Já tem algumas ideias, algumas pistas para 2026? Europa, Ásia, África?
Na verdade, eu não tenho um desejo, eu tenho dois objectivos. Se passar pela Europa, seria algo que tinha que ser para ser uma opção na selecção. Essa é uma das opções que eu tenho posto em cima da mesa. Obviamente que se for para a Ásia é mais a questão monetária, mas a questão da selecção fica muito mais longe. O facto de ser ano de Mundial, com Cabo Verde pela primeira vez nesse Mundial, claro que vai pesar na minha decisão. Neste momento não tenho nada concreto. Estou à espera. Tenho tido algumas abordagens, mas ainda nada concreto e nada que fizesse sentido. São países muitas vezes que a mim não me deixam estável a nível psicológico. Eu quero ir para um sítio, um projecto onde eu me sinta bem, onde eu possa trabalhar como deve ser, porque só assim é que as coisas podem correr bem. Na verdade, estava à espera que o telefone tocasse um bocadinho mais. E não tem tocado. Mas tenho tido paciência, tenho aguardado e sei que vai aparecer o projecto certo. É aguardar e esperar.
Até agora, como é que vê a sua carreira em que passou por inúmeros países?
Na verdade, eu acredito que poderia ter sido uma carreira, até agora, melhor. Tenho noção disso. Muitos erros cometidos da minha parte, obviamente só por mim, porque eu acredito que tenho qualidade mais do que suficiente para outros campeonatos, outros patamares. Mas não me lamento, nem sequer meto esse tipo de pressão em cima de mim. Se estou feliz, sou feliz. Acredito que tenho uma carreira boa até agora e quero continuar a dar passos e a crescer. Nem todo o mundo, por exemplo, pode dizer que é internacional por Portugal e por Cabo Verde, e eu sou! Isso dá-me muito orgulho.
Por onde passou retém sempre apenas o positivo?
Eu gosto muito de olhar para todos os projectos e perceber o que é que foi feito bem, e o que é que foi feito mal. Eu acabo sempre por tirar as minhas conclusões e adaptar-me no meu próximo desafio. Eu dou, inclusive, mais atenção aos aspectos negativos, àquilo que eu posso fazer e àquilo que eu posso melhorar, e os erros que cometi para não os voltar a cometer no próximo desafio. O facto de ter passado por diversos países, diversas culturas, acrescenta outro tipo de experiência a nível pessoal.
Qual foi a melhor experiência?
A nível profissional, a melhor experiência foi na Indonésia, claramente. A nível pessoal, onde eu mais gostei de estar, foi mesmo aqui ao lado, foi em Espanha, que foi um ano que, inclusive, a nível de salários nem vi nada, não recebi. Isso foi no Racing Santander, mas adorei. Adorei jogar em Espanha, adorei viver em Espanha, mas a nível profissional o melhor ano foi na Indonésia.
Quando era mais jovem, acreditava que pudesse chegar onde chegou?
Acreditava. No fundo, não me via fazer outra coisa que não fosse jogar futebol. Desde muito pequeno, agora vejo mesmo isso, é uma loucura total. É bola de manhã à noite, por isso sempre acreditei. Não sabia qual seria a magnitude, obviamente. Hoje, olhando para a carreira em si, também consigo dizer que poderia ter chegado mais longe, mas o facto de ser profissional, de conseguir viver de algo que eu gosto de fazer, é indescritível.
A Semana com RFI

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