sábado, 17 outubro 2026

Aldeia cabo-verdiana convive com navio naufragado e cada vez mais curiosos

“As pessoas chegam cá e perguntam: onde está o Pentalina? Nós mostramos o caminho, eles tiram fotografias e até já vieram artistas para fazer vídeos”, explica Flávio Carvalho, 29 anos, residente na aldeia, trabalhador agrícola e da construção.

Os residentes também costumam passear pelos destroços: “Vamos lá, entramos, passeamos dentro do navio, tomamos banho no mar, ao lado, fazemos piqueniques. Para nós, pode ficar ali, porque atrai muitos turistas”. “As pessoas chegam aqui porque viram na Internet e vão dizendo umas às outras”, descreve.

Mas Flávio reconhece que, com o passar dos anos, a ferrugem, a estrutura corroída e o casco arrancado por desconhecidos tornam o Pentalina “mais perigoso, porque está a cair”.

Da aldeia até ao barco, o percurso é feito de carro, em modo o todo-o-terreno, durante uns 10 minutos — ou numa caminhada a pé de cerca de meia-hora.

Quem ali habita, como Vanilson, jovem de 15 anos, com a sua bicicleta, sabe as coordenadas, para evitar valas ou outras surpresas. Hoje é ele que vai à frente.

Após a última curva, o Pentalina salta à vista: é uma gigante carcaça com 74 metros de comprimento por 13 de largura, com diferentes andares que acolhiam passageiros e largas áreas para carga e veículos.

Os registos disponíveis na Internet mostram que o navio foi construído na Escócia, na década de 1970, onde serviu como “ferry” entre várias ilhas do país, até ser substituído e vendido para uma empresa que fazia ligações interilhas em Cabo Verde.

Numa dessas ligações, em 05 de junho de 2014, quando já se aproximava da capital, Praia, o navio encalhou, durante a noite, no local onde hoje se encontra.

Levava carga e 85 pessoas a bordo e todas foram retiradas da embarcação, após um valente susto, com um estrondo na escuridão que inclinou o navio, um episódio retratado ao longo do tempo em várias publicações.

Maria Moreira, 69 anos, moradora em Moia Moia, lembra-se bem daquela noite. “Um senhor que mora mais na ponta da aldeia é que nos avisou. Encontrámos pessoas a chorar, com crianças. Os que conseguiram, começaram a saltar, Levámos roupa, demos apoio” até chegar “ajuda da cidade da Praia”, recorda.

Depois do naufrágio, foi improvisada uma estrada e uma rampa, com terra e pedras do local, para remover toda a carga: as aplicações na Internet com histórico de imagens de satélite mostram a evolução do sítio.

Os meios de comunicação locais deram conta de diligências para tentar remover, reparar e colocar o Pentalina B de novo ao serviço, mas o que está à vista são destroços corroídos e largos pedaços de chapa arrancada — cortes recentes, que não surgiam em vídeos publicados no YouTube, em 2021, por exemplo.

Na noite do naufrágio, “ajudámos as pessoas a sair, havia muita gente”, lembra João Fonseca, 59 anos. “No momento, deviam tê-lo retirado dali”, ao navio, mas agora é indiferente, diz: “de vez em quando, chegam pessoas para tirar fotografias e nós também lá vamos pescar, ver como está”.

Um casal espanhol aproxima-se do barco. Deixaram o carro na aldeia e caminharam, acompanhados por uma pessoa com quem estabeleceram contacto na Internet e que conhece o caminho para o Pentalina.

“Estamos a passar uma semana na ilha de Santiago, à procura de sítios que não tenham turismo massificado e vimos este na Internet. Parece-nos muito interessante, sobretudo pela paisagem. É impressionante estarmos aqui sozinhos”, descreve Rodrigo Vasquez. “Vamos nos aproximar o máximo possível”, descreve o jovem de 24 anos, a caminho do Pentalina.

A Lusa tentou obter informação adicional sobre a situação do navio junto das autoridades cabo-verdianas, nomeadamente através do Instituto Marítimo Portuário (IMP), mas não obteve respostas.

 

A Semana com Observador/Lusa

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Comentários

joão do rosário
9 dias atrás

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jcf
11 dias atrás

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