Mais de meio século depois do assassínio de Amílcar Cabral, nove artistas revisitam o seu pensamento numa exposição em Paris. Entre a memória das independências africanas e as perguntas do presente, Amílcar Cabral: Por um Humanismo Radical procura o homem para lá do herói e interroga uma ideia de liberdade que não termina com o fim do colonialismo.
"Cabral já não pertence aos guineenses, Cabral não pertence aos cabo-verdianos, Cabral pertence à esfera universal", afirma o artista plástico guineense Nú Barreto.
Há homens que sobrevivem ao tempo em que viveram. Não porque a história os tenha tornado intocáveis, mas porque as perguntas que deixaram continuam sem resposta. Amílcar Cabral foi assassinado em Conacri, a 20 de Janeiro de 1973. Não chegou a ver a independência da Guiné-Bissau, proclamada meses depois, nem a de Cabo Verde, em 1975. Mais de meio século passou. Mas deixou perguntas, nomeadamente, o que significa ser verdadeiramente livre?
É também esta pergunta que atravessa a exposição Amílcar Cabral: Por um Humanismo Radical, que reúne nove artistas na Casa dos Mundos Africanos (MansA), em Paris, a partir desta sexta-feira, 16 de Outubro, até 13 de Dezembro.
"Cabral já não pertence aos guineenses, Cabral não pertence aos cabo-verdianos, Cabral pertence à esfera universal", afirma o artista plástico guineense Nú Barreto.
A frase contém uma provocação como pensar um homem que dedicou a vida à libertação de dois povos sem o confinar às fronteiras desses países? Na obra de Nú Barreto, Cabral surge entre duas geografias que foram também um projecto político, a Guiné e Cabo Verde. Dois territórios separados pelo Atlântico, unidos por uma história colonial e por uma luta comum.
Ângela Benoliel Coutinho, historiadora e co-comissária da exposição, recorda essa dimensão frequentemente ofuscada pela figura do combatente. "Constatamos que era um indivíduo que pôs o ser humano, as comunidades humanas, no centro da sua acção, da sua reflexão, da sua análise", sublinha.
Para Cabral, a cultura não era um ornamento da política. Era parte da própria luta. A libertação implicava recuperar a capacidade de um povo pensar por si, reconhecer os seus saberes e decidir o seu futuro. Uma ideia que encontra eco nas palavras do artista cabo-verdiano Yuran Henrique, "primeiramente, acreditar na engenhosidade, acreditar na cultura, na tua identidade e no conhecimento, mas próprio, próprio teu, que é teu".
As independências mudaram o mapa político de África, mas não eliminaram todas as relações de dependência nem as desigualdades herdadas do colonialismo. É neste intervalo entre as promessas da libertação e as realidades do presente que a exposição encontra parte da sua razão de ser.
"Eu acho que essa é uma das principais funções desta exposição, é manter o pensamento de Cabral actual e trazer esse debate para a sociedade contemporânea", afirma Diogo Bento, fotógrafo da série Cabral ka morre.
Através de diferentes linguagens artísticas, a exposição revisita o legado de Cabral sem o transformar numa memória encerrada no passado. A soberania, a identidade e a relação entre cultura e poder voltam a ser interrogadas à luz do presente.
Mas, para além do revolucionário, do pensador e do dirigente político, há um outro Cabral. O que escrevia. O que sentia. Liz Gomis, directora-geral da Casa dos Mundos Africanos, MansA, lembra essa dimensão íntima, tantas vezes esquecida nas narrativas sobre a luta armada. "É preciso ler a poesia de Cabral nas suas cartas. Nessa poesia, há uma forma de amor e de emoção pelo seu povo. Sentia-se que era genuíno. Não fingia, nem na luta armada, nem no seu humanismo", lembra.
Provavelmente uma das chaves para compreender o humanismo radical de Cabral, a ligação entre pensamento e acção, entre a luta pela independência e a preocupação com a dignidade humana.
A Semana com RFI

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