sexta-feira, 16 outubro 2026

Subida do preço do petróleo pode trazer ganhos para Angola

O preço global do petróleo disparou nas últimas 48 horas devido ao conflito no Médio Oriente. Com a tensão na região, está comprometido o transporte marítimo pelo Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do consumo mundial de petróleo.

Em entrevista à DW, o economista Nataniel Fernandes diz que "o balanço fiscal para Angola com a subida do preço do petróleo é sempre positiva", sendo o crude o "motor" daeconomia angolana. O economista acredita que a atual conjuntura terá um "impacto de alívio fiscal" para o país, mas sublinha que eventuais picos nas receitas são "temporários".

DW África: Que impacto pode ter para Angola o atual conflito?

Nataniel Fernandes (NF): O facto de existir essa guerra Irão-Estados Unidos-Israel, com um risco que envolve 20% do transporte de petróleo mundial, os preços sobem, isso é claro, e já está a acontecer, e isso tem um impacto fiscal para Angola. Aumentam divisas, porque o preço subiu, aumentam impostos relativos à produção petrolífera, também aumenta o preço dos refinados que vamos comprar. No entanto, o balanço fiscal para Angola com a subida do preço de petróleo é sempre positivo, porque o petróleo é o motor da nossa economia.

DW África: De que forma Angola, enquanto país produtor, pode beneficiar desta subida do preço do petróleo? Pode ter um impacto mais estrutural, mais a longo prazo, como o aumento das receitas fiscais e o pagamento da dívida pública, por exemplo?

NF: Aí entramos na parte que é essencial e que é, de facto, estratégica. Nós vamos ter esse acréscimo de receitas fiscais, vamos ter esse acréscimo de reservas líquidas estrangeiras em moeda estrangeira, em moeda forte, e precisamos saber exatamente o que vamos fazer com esse acréscimo de receitas, é isso que vai fazer a diferença no longo prazo para Angola ou não. Em primeiro lugar, precisamos tratar isso como um aumento temporário, porque a guerra vai passar. Sempre que existem essas questões de guerra, as receitas têm um pico, mas logo depois do pico elas voltam à normalidade.

E o que vamos fazer com esse pico de receitas é que vai definir se vão ser benéficas para nós ou se vai permanecer tudo igual. É importante guardar uma boa parte dessas receitas, provisioná-las para os momentos em que haverá momentos de baixa abaixo das nossas expectativas, isso é fundamental fazer. Outro ponto essencial é que nós precisamos diminuir o nosso serviço da dívida, especialmente em moeda estrangeira, escolher os contratos de dívida que são piores e nos desfazermos delas. Outro ponto importante é fazermos os investimentos aqui dentro, investimentos em produção, na indústria, na agricultura, acho que são os vetores que nós precisamos olhar e implementar.

DW África: Dados mostram que a produção de petróleo em Angola tem vindo a cair, ficando em média abaixo de um milhão de barris por dia. Angola pode aproveitar este embalo, tendo em conta esta limitação, ou pode ser um problema?

NF: Eu acredito que os nossos níveis de produção podem vir a melhorar, não imediatamente, acho que não vamos aproveitar esse boom do preço, mas foram descobertas novas reservas. Temos de ter um pouco mais de soberania em relação a isso, termos capital financeiro angolano, tentar angariar capital financeiro interno para se fazer prospeção e para se fazer produção. Temos a limitação e dependemos da intenção e da viabilidade que outros veem no investimento em prospeção e produção para Angola.

DW África: Do ponto de vista social, os angolanos podem beneficiar ou, pelo contrário, podem vir dias difíceis, como, por exemplo, o aumento do custo de vida?

NF: Bom, se é receita temporária, não podemos expandir despesas permanentes, não seria prudente. Nesse caso, eu acredito que a população vai beneficiar, sem dúvida, e o kwanza é capaz de se apreciar relativamente a outras moedas ou, pelo menos, termos um espaço muito maior de estabilidade cambial. Se aplicarmos parte dessas receitas em investimento de capital humano, teremos aproveitado algo para o longo prazo que pode vir a criar oportunidades, sejam bolsas de estudo ou melhorias de infraestrutura ligada à formação das pessoas. É o que se pode fazer a nível de investimentos sociais.

A Semana com DW

 

Colunistas

Efrem Soares
Efrem Soares
06 Oct. 2026
Cabo Verde: liderança, mérito e prestação de...
  Ao fazer uma reflexão retrospetiva sobre os percursos de...
Alexandre Vieira Fontes
Alexandre Vieira Fontes
18 Sep. 2026
Filomena Silva: uma jornalista de coragem e...
Léo Rosa de Andrade
Léo Rosa de Andrade
31 Aug. 2026
A ÉTICA DO DESINTERESSE, A VIDA EM...
César Augusto G. Garcia
César Augusto G. Garcia
21 Aug. 2026
COISAS DO ESTADO ou ESTADO DE COISAS...

Comentários

joão do rosário
8 dias atrás

SENHOR PRESIDENTE, DEIXE-SE DE TRETAS: NÓS SABEMOS QUEM O SENHOR É José Maria Neves vem agora dizer que é “muito melho ...

jcf
10 dias atrás

Cabo Verde tem uma facilidade extraordinária para comentar o que se passa na casa dos outros. Guiné-Bissau, Angola, Moçamb ...

joão do rosário
12 dias atrás

Isto já parece gozo. 177 casos desde o início do ano e já estão outra vez a sacudir o fantasma da pandemia. Sem números ...

Pub-Reportagem

publireport