domingo, 18 outubro 2026

Mogovolas/Moçambique: "Massacre" de garimpeiros ou legítima defesa?

2025 terminou de forma sangrenta em Maraca, no posto administrativo de Iuluti, província de Nampula. No dia 29 de dezembro, tumultos na zona das minas resultaram em mortes e feridos, mas há diferentes versões sobre o que aconteceu.

A versão oficial é de que tudo começou quando um grupo tentou invadir uma posição da polícia, com catanas, azagaias e bombas caseiras. De acordo com a porta-voz da corporação em Nampula, Rosa Chaúque, o objetivo seria roubar armas e semear a desordem. Daí a intervenção da polícia:

Rosa Chaúque afirma que "foi registado um óbito, por parte da Polícia da República de Moçambique, e seis de indivíduos que se denominam Naparamas e como membros do partido ANAMOLA". "Eles portavam cartões, é por isso que afastamos a questão de serem garimpeiros", acrescentou.

O coordenador provincial do ANAMOLA, Castro Niquina, garante que os membros do partido não estiveram envolvidos nesses atos e classifica os pronunciamentos da polícia como perseguição política.

"Esta é uma polícia politizada, que cumpre ordens muitas vezes inaceitáveis."

O secretário de Estado de Nampula, Plácido Pereira, insiste na versão oficial, garantindo que "não são garimpeiros, são Naparamas. Porque estavam encapuzados, com fitas vermelhas [na cabeça], e entre eles havia simpatizantes de alguns partidos", conta.

Morador fala em "banho de sangue"

Mas há outra versão do que aconteceu. Um morador, que pediu anonimato, contou à DW que houve um "banho de sangue" no final do ano, em Marraca.

"Morreram muitas pessoas. Mulheres, homens e crianças. Não escolhiam contra quem atiravam", conta.

A Kóxukhuro, uma organização não-governamental que trabalha na promoção e defesa dos direitos humanos, esteve no terreno a investigar o caso e Gamito dos Santos, diretor-executivo, desmente a versão oficial.

"O que aconteceu no povoado de Marraca foi um massacre. A PRM matou cerca de 38 pessoas, incluindo oito mulheres e oito crianças. Treze estão feridas e a fazer tratamento ambulatório [sem assistência das autoridades]", diz.

Gamito dos Santos diz que, ao contrário do que afirmou a polícia, o alvo foram, sim, garimpeiros ilegais, que se teriam oposto a ações das forças de segurança.

Queixa à PGR

O responsável da Kóxukhuro promete levar o caso à Procuradoria-Geral da República.

"Vamos pedir à Procuradoria para que se abra uma investigação célere, transparente, coerente e séria para responsabilizar as pessoas que deram ordem para se disparar naquele lugar e as pessoas que lideraram esta operação, assim como o comando provincial", garante Gamito dos Santos.

Este não é o primeiro caso do género na região de Marracas, envolvendo garimpeiros ilegais e as forças policiais.

 

A Semana com DW África

Colunistas

Efrem Soares
Efrem Soares
06 Oct. 2026
Cabo Verde: liderança, mérito e prestação de...
  Ao fazer uma reflexão retrospetiva sobre os percursos de...
Alexandre Vieira Fontes
Alexandre Vieira Fontes
18 Sep. 2026
Filomena Silva: uma jornalista de coragem e...
Léo Rosa de Andrade
Léo Rosa de Andrade
31 Aug. 2026
A ÉTICA DO DESINTERESSE, A VIDA EM...
César Augusto G. Garcia
César Augusto G. Garcia
21 Aug. 2026
COISAS DO ESTADO ou ESTADO DE COISAS...

Comentários

joão do rosário
10 dias atrás

SENHOR PRESIDENTE, DEIXE-SE DE TRETAS: NÓS SABEMOS QUEM O SENHOR É José Maria Neves vem agora dizer que é “muito melho ...

jcf
12 dias atrás

Cabo Verde tem uma facilidade extraordinária para comentar o que se passa na casa dos outros. Guiné-Bissau, Angola, Moçamb ...

joão do rosário
14 dias atrás

Isto já parece gozo. 177 casos desde o início do ano e já estão outra vez a sacudir o fantasma da pandemia. Sem números ...

Pub-Reportagem

publireport