Um mês depois da tomada do poder à força pelos militares na Guiné-Bissau, a sociedade civil guineense voltou a tentar fazer-se ouvir. Na quarta-feira, 31 de Dezembro, activistas procuraram manifestar-se em várias zonas de Bissau, enfrentando fortes restrições à circulação e uma presença maciça das forças de defesa e segurança nas ruas da capital.
Segundo o líder do movimento Pó de Terra, os activistas estiveram sob vigilância e perseguição desde as primeiras horas do dia. Ainda assim, conseguiram deslocar-se por diferentes bairros e realizar uma acção simbólica durante a noite, já depois da meia-noite. “Desde a manhã que fomos perseguidos, mas isso não nos desmotivou. Continuamos comprometidos com o povo”, afirmou.
A passagem de ano foi marcada por um silêncio pouco habitual. Ao contrário de outros anos, não houve grandes festejos populares. “As ruas estavam praticamente vazias. O povo decidiu ficar em casa, em silêncio, como sinal de dor e de luto”, explicou o activista, sublinhando que a população se sente intimidada pela presença de militares e de forças policiais em vários pontos estratégicos da cidade.
O movimento Pó de Terra, em articulação com outras organizações da sociedade civil, mantém três reivindicações centrais: a libertação imediata de todos os presos políticos, a restauração da ordem democrática e a divulgação dos resultados das eleições presidenciais realizadas a 23 de Novembro. “O povo não votou no alto comando militar”, defende. “O povo votou e escolheu um presidente.”
Para os activistas, a tomada do poder à força não pode ser justificada por alegados riscos de instabilidade. “Dizem que quiseram evitar um problema maior, mas isso não corresponde à verdade. Se se dizem republicanos, então devem criar condições para a publicação dos resultados eleitorais e respeitar o veredicto das urnas”, acrescenta.
Os militares anunciaram um período de transição de um ano, liderado pelo general Horta N’Tam, mas a solução é rejeitada pela sociedade civil. “O povo não aceitou essa transição e não está ao lado do alto comando militar”, insistiu o activista, garantindo que a luta vai continuar até à reposição da legalidade constitucional.
Apesar do clima de medo, os organizadores apelam à mobilização contínua. “De acordo com a Constituição da República, o povo é soberano. É o povo que manda e é o povo que ordena”, afirmou, assegurando que novas acções de protesto estão a ser preparadas.
Entre as próximas iniciativas está a convocação de uma marcha regional, prevista para as próximas semanas, envolvendo associações estudantis e professores. A crise no sector da educação é apontada como um reflexo da instabilidade política: falta de docentes, emigração de professores, salários em atraso e cobrança de propinas em várias escolas.
“Muitos alunos estão sem aulas e muitos professores passaram as festas sem serem pagos”, denunciou. “Vamos unir estudantes, professores e trabalhadores numa só luta, porque a juventude é sempre a força motriz da sociedade.”
"Fernando Dias deve ser empossado como chefe de Estado rapidamente."
A sociedade civil continua a exigir garantias de segurança para Fernando Dias, que permanece refugiado na embaixada da Nigéria. Para os activistas, ele é o único candidato com legitimidade para assumir a presidência. “O processo eleitoral foi transparente. Todos os representantes dos candidatos participaram nas mesas de voto, assinaram as actas e sabem que houve um vencedor”, assegurou.
Segundo o líder do movimento, a interrupção do processo ocorreu poucas horas antes da divulgação oficial dos resultados, sem fundamento técnico válido. “Há condições para publicar os resultados. O vencedor é conhecido e deve ser empossado”, afirmou, apelando directamente à direcção de campanha de Fernando Dias para que assuma a sua responsabilidade política.
Apelo à comunidade internacional
Os activistas criticam ainda o que consideram ser uma reacção insuficiente da comunidade internacional. A CEDEAO, a União Africana e as Nações Unidas são chamadas a intervir de forma mais clara. “Na Guiné-Bissau vivem-se violações graves e repetidas dos direitos humanos, com detenções arbitrárias, raptos e maus-tratos”, denunciou.
Desde 26 de Novembro, um dia antes da data prevista para o anúncio dos resultados eleitorais, a Guiné-Bissau vive sob controlo militar, depois da deposição do então Presidente, Umaro Sissoco Embaló. Apesar das dificuldades, a mensagem da sociedade civil mantém-se: “Esta luta tem de nascer dentro do país. O povo guineense vai fazer a sua parte e não vai desistir", concluiu.
A Semana com RFI

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