quinta-feira, 15 outubro 2026

ENTREVISTA: “Economia do país não vai funcionar sem a imigração daí a coerência no acolhimento” - Carmem Barros

A presidente da Alta Autoridade para a Imigração (AAI), Carmem Barros, asseverou hoje que o país precisa estruturalmente da mão-de-obra estrangeira, advertiu que a economia nacional “não vai funcionar” sem a imigração e apelou à coerência no acolhimento.

 

Em entrevista à Inforpress, Barros vincou que o dinamismo de diversos sectores económicos e a sustentabilidade futura do arquipélago dependem directamente de uma integração bem-sucedida de cidadãos estrangeiros, cuja procura pelos serviços institucionais tem registado um crescimento recorde e sem precedentes nos últimos anos.

“Nenhum país no mundo hoje vive sem as imigrações e Cabo Verde hoje mais do que nunca, precisa de mão de obra estrangeira, sempre precisou e continuará a precisar (...) a economia cabo-verdiana não vai funcionar sem a imigração”, declarou, realçando igualmente os ganhos ao nível da diversidade cultural, inovação e dos novos conhecimentos introduzidos por quem escolhe o país para viver.

A análise efectuada pela Alta Autoridade para a Imigração demonstra que o perfil dos cidadãos estrangeiros que procuram o arquipélago mantém uma continuidade histórica de mais de 30 anos, com uma clara predominância de fluxos provenientes da África Ocidental. 

Contudo, este quadro tem vindo a ser “moldado por nuances e transformações geográficas e estatísticas significativas”.

Se os cidadãos europeus e asiáticos têm vindo a aumentar progressivamente de peso ao longo do tempo, continuou, o grosso da comunidade imigrante continua a provir de países vizinhos com laços históricos, políticos e culturais profundos com Cabo Verde.

Com a Guiné-Bissau e o Senegal a se manterem como as principais origens tradicionais, a que se junta de forma muito expressiva a Nigéria, registando-se também o crescimento recente de cidadãos oriundos da Guiné-Conacri.

Esta pressão demográfica se reflecte de forma directa nos postos de atendimento da AAI, criados progressivamente a partir de 2022, com unidades na Praia, Sal, Boa Vista, São Vicente e Santa Catarina de Santiago. 

Segundo aquela responsável, os dados institucionais ilustram um salto abrupto na procura, passando de cerca de 600 atendimentos anuais no arranque para 2.228 em 2024 e disparando para 4.842 em 2025, sendo que só no primeiro semestre deste ano a instituição já contabilizou 3.651 atendimentos, grande parte dos quais direccionados a cidadãos recém-chegados ao país.

Contudo, este fluxo migratório acentuado expõe de forma crua as fragilidades estruturais já existentes no país, nomeadamente ao nível da habitação. 

“A imigração (...) pressiona os países a desenvolver políticas que já eram necessárias para os seus nacionais, mas aumenta essa pressão e desafia”, resumiu Carmem Barros, que sublinhoui que a habitação social e a gestão do território continuam a exigir um esforço interinstitucional coordenado entre o Governo central e os municípios.

Sobre a regularização documental, frequentemente apontada pelos imigrantes como o principal entrave, Carmem Barros sublinhou que a falta de papéis é, na verdade, uma consequência de problemas estruturais mais profundos.

A presidente da AAI deixou ainda uma mensagem de cariz humano e ético, lembrando que a identidade de Cabo Verde como nação de emigrantes obriga a uma postura irrepreensível de reciprocidade no acolhimento de quem chega.

“Para uma sociedade como a cabo-verdiana, onde as migrações são o centro de tudo aquilo (...) não há espaço na nossa história, na nossa vivência, nem na nossa experiência para o preconceito e para a discriminação”, finalizou.

 

 

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Comentários

joão do rosário
7 dias atrás

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jcf
9 dias atrás

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joão do rosário
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