quarta-feira, 14 outubro 2026

Sobre Palavras

 

As palavras me encantavam. Elas iam se desdobrando, recebendo tons, tempos, intensidade, volume. Gestos fortes as acompanhavam; as faces dos falantes se contraíam, sorriam, expressavam de valentia a escárnio. Diziam pelo silêncio breve, surpreendiam expectativas, causavam ira, faziam rir. Mágicos que não usavam “varinhas”, usavam palavras.

Povo e palanque, nos momentos efusivos, ficavam uma coisa só. Tudo vibrava em uníssono. O meu gosto era antecipar esses instantes. Acompanhava o crescer da fala, a oratória que se soltava, e percebia como que um contágio. Da multidão vinham urros, aplausos, a vibração dos corpos que gozavam os arroubos retóricos, tocados no seu âmago, até explodirem.

Pura arte. Desde sempre eu acreditei que as palavras podem tudo. Penso essas coisas à face de uma discussão que entretém alguns intelectuais. Existia um dito de gosto popular: “Há sentimentos que as palavras não conseguem expressar.” Isso chegou a uma afirmação mais sofisticada: “No nosso pensar, somos prisioneiros dos limites do exprimível pela língua.”

De tal maneira essa ideia se foi assentando, que já não falta quem diga que, na ausência de palavras, as artes representam as dimensões do humano. Isso me espanta: excluem-se as palavras – ou a articulação delas – das artes elevadas? Francamente, não creio que qualquer outra forma de expressão alcance todos os sentidos que o verbo pode proporcionar.

Donde viria o juízo de que a imaginação é cativa da linguagem? Suponho que da moda de dizer que a arte é expressão do inconsciente. Assim, um texto, porquanto filtrado pelo superego, não seria expressão artística? Não creio: primeiro, qualquer dizer artístico carrega cultura; segundo, cultura é sempre superego; terceiro, o inconsciente não se cala diante da cultura.

Arte é a expressão estética humana que diz ao humano sobre os aspectos humanos subjacentes: glórias e covardias; desembaraços e vergonhas; desejos e interditos; coragens e medos. A arte é uma experiência estética única entre a criação do artista e o espectador, mas o espectador e o artista estarão sempre grávidos das coisas do mundo.

Arte é linguagem. A palavra é a melhor linguagem. A pintura comove, a música enleva, há esculturas que vivem. Bernardo Soares: “Na prosa se engloba toda a arte - em parte porque na palavra se contém todo o mundo, em parte porque na palavra livre se contém toda a possibilidade de o dizer e pensar. Na prosa damos tudo por transposição [...]” (MultiPessoa, Poética 21).

As coisas da vida são áridas. “A literatura, como toda a arte, é uma confissão de que a vida não basta”, diz Fernando Pessoa em Erostratus, onde disserta sobre imortalidade das obras literárias. Os comícios se me ficaram imortais: as palavras e tudo o mais. Quando havia um comício, eu nem pensava na vida, as palavras, as formas de dizê-la, elas me bastavam.

Palavras fazem devanear, porém, limitam aos seus limites: só pensamos dentro do alcance das palavras que sabemos. Não sei tantas, sei o bastante: conto um gesto meigo, digo saudade, narro paixão. As palavras nunca me faltaram. Talvez alguém sinta falta de palavras e não tenha palavras para lamentar. Aí, a pessoa não sabe que não sabe, talvez

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Comentários

joão do rosário
6 dias atrás

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jcf
8 dias atrás

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joão do rosário
10 dias atrás

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