Imigrantes a residir na ilha do Sal partilharam hoje com a Inforpress as suas experiências de integração no arquipélago, enaltecendo a hospitalidade do povo cabo-verdiano, mas apontando entraves no acesso à habitação, na regularização documental e na burocracia.
Por ocasião do Dia Nacional das Comunidades, que hoje se assinala, Malang Gitteh, cidadão estrangeiro a trabalhar na empresa de excursões Spot Travel Tour, descreve a sua vivência no país como amplamente positiva, destacando o ambiente laboral e a forma afável como foi recebido.
“Aqui é muito bom. O meu chefe e as pessoas com quem convivo são muito amigáveis e fantásticas. Não há problemas, não há 'stress', está tudo bem”, afirmou o profissional do sector do turismo, salientando que a sua actividade profissional em Cabo Verde é idêntica à que exercia no seu país de origem.
Gitteh referiu ainda que a única barreira inicial foi a língua, superada rapidamente pelo calor humano do povo.
“Estou muito feliz e grato. Cabo Verde é um dos melhores lugares e dos melhores países onde já estive”, declarou.
Numa perspectiva igualmente positiva, mas marcada por reparos aos desafios do quotidiano, Tony Mendy, promotor de excursões na empresa Olá Tours, relata a sua trajectória de dois anos e meio no arquipélago, onde garante sentir-se “quase local”, apesar de ter chegado sem conhecer ninguém.
Mendy ressalva que, a par da boa acolhida e das amizades consolidadas, enfrentou “três grandes obstáculos”: o acesso à habitação, o processo de obtenção do título de residência e episódios pontuais de xenofobia.
“O acesso à casa é extremamente desafiante. Cheguei a concluir que é mais fácil arranjar trabalho do que conseguir uma casa para morar no Sal”, salientou, expressando o desejo de que as autoridades governamentais possam encontrar soluções para a crise habitacional.
Sobre a morosidade nos processos de documentação, Tony Mendy revelou que o seu primeiro pedido de autorização de residência demorou cerca de um ano e meio a ser deferido, considerando o período de validade de dois anos “demasiado curto” face ao tempo e esforço despendidos na recolha de documentos.
“É um processo cansativo e frustrante. Acredito que as autoridades deveriam aumentar a duração da residência inicial para pelo menos quatro anos”, defendeu.
O profissional manifestou ainda preocupação com episódios pontuais de intolerância e desrespeito motivados pela nacionalidade ou religião, classificando o preconceito como “inaceitável”, embora reconheça que “são situações que infelizmente acontecem em qualquer parte do mundo”.
Apesar dos percalços, Mendy fez questão de sublinhar que guarda um profundo afecto pelas ilhas.
Por sua vez, o empresário italiano Gabriele Punzo, a residir no país há cerca de uma década, considera-se totalmente integrado na sociedade cabo-verdiana, país que adoptou como a sua própria terra e onde tem investido no sector da comunicação social.
Sócio-gerente da empresa de publicidade Cabo Media e do projecto Rádio TV Sal One, Punzo enfatizou o sentimento de pertença, mas lamentou os constrangimentos administrativos que condicionam o ambiente de negócios e o crescimento económico no arquipélago.
Segundo o empresário, a excessiva burocracia estatal constitui o principal entrave para quem pretende fixar-se e desenvolver iniciativas empresariais e pessoais no país.
O Dia Nacional das Comunidades é assinalado a 18 de Outubro, data que coincide com o nascimento do poeta B.Léza, constituindo um momento de reflexão sobre a diáspora cabo-verdiana espalhada pelo mundo e sobre o papel da comunidade imigrante residente no processo de desenvolvimento do país.
A Semana com Inforpress

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