sábado, 24 outubro 2026

Aulas decorrem, apesar da greve de professores em Cabo Verde

Nem o Ministério da Educação nem os sindicatos divulgaram números da adesão à paralisação de dois dias.

Neusa Sanches, docente e representante dos professores no Liceu Domingos Ramos, no Plateau, centro histórico da cidade, juntou-se a 12 colegas, alguns trajados de preto, e iniciaram o dia em frente ao edifício para “mostrar insatisfação".

Sem números, reconheceu, em declarações à Lusa, que a adesão não é unânime e a escola está aberta, com aulas a decorrer.

Na Escola Regina Silva, na zona de Achadinha, uma aluna do 10.º ano de escolaridade contou que muitos alunos não apareceram: "Na minha sala havia apenas 10 colegas, muitos disseram ontem que, por causa da greve, não vinham", apontou.

Uma outra aluna do 11.º ano confirmou o cenário: "Na nossa turma tivemos aulas normalmente e muitos alunos não vieram", mais de metade, disse.

Lorena Gomes, professora há 22 anos na Escola Secundária Pedro Gomes, no bairro da Achada Santo António e em representação dos colegas daquele estabelecimento de ensino, descreveu a adesão como "muito fraca", dizendo que muitos docentes temem represálias.

"Muita coisa aconteceu na primeira greve”, em novembro de 2023, justificou, numa alusão a pressões e “desmotivação”, por causa da “insistência radical do Governo" no novo plano de carreiras.

Jorge Cardoso, presidente do Sindicato Nacional dos Professores (Sindep), falou também de um ambiente de "pressão enorme, de intimidação", numa altura em que “muitos professores estão a receber horários”, por ser a semana de arranque do ano letivo. 

“Participando na greve, podem ser prejudicados na distribuição desses horários", acrescentou, reiterando queixas de falta de diálogo: o Governo "está a mostrar ser mais radical que todos os que Cabo Verde já teve desde a abertura política".

O dirigente sindical disse também não ter dados sobre a adesão, referindo que “muitos professores optaram pela ausência, não comparecerem nas escolas, mas outros estão a lecionar de forma normal".

A Lusa contactou o Ministério da Educação, que remeteu declarações para mais tarde.

Abraão Borges, presidente do Sindicato de Professores da Ilha de Santiago (Siprofis), juntou-se ao Sindicato Democrático de Professores (Sindprof)  e Sindep, reunindo cerca de 35 professores em frente à Escola Secundária Abílio Duarte, no bairro do Palmarejo.

Admitiu que a greve de dois dias até pode ser cancelada, caso o Governo apresente um despacho a definir “o subsídio por não-redução de carga horária, conforme prometeu”.

Mas essa é apenas uma das reivindicações: "Nós queremos que [o Governo] se sente à mesa, que se discuta um estatuto", apontou o sindicalista, avançando que está a ser preparada uma manifestação nacional para o Dia Mundial do Professor, a 05 de outubro.

Em causa está a equiparação da classe, em vários aspetos, à administração pública, com um Plano de Carreiras, Funções e Remunerações (PCFR), ao passo que os sindicatos reclamam a manutenção de um estatuto da classe docente, tal como acontece com outras profissões, como os médicos.

Na cerimónia de arranque do ano letivo, na segunda-feira, o primeiro-ministro de Cabo Verde recordou as inúmeras rondas negociais realizadas e pediu aos sindicatos que tenham uma "noção dos limites" da despesa pública.

Em agosto, o Presidente da República, José Maria Neves, vetou a proposta de PCFR, mas o Governo já anunciou que a vai submeter novamente à Assembleia Nacional, onde a bancada do Movimento pela Democracia (MpD, no poder) tem maioria.

O Sindprof admite tentar recorrer ao Tribunal Constitucional, caso a proposta de lei passe sem apoio do resto do parlamento.

A Semana com Lusa

Colunistas

Efrem Soares
Efrem Soares
06 Oct. 2026
Cabo Verde: liderança, mérito e prestação de...
  Ao fazer uma reflexão retrospetiva sobre os percursos de...
Alexandre Vieira Fontes
Alexandre Vieira Fontes
18 Sep. 2026
Filomena Silva: uma jornalista de coragem e...
Léo Rosa de Andrade
Léo Rosa de Andrade
31 Aug. 2026
A ÉTICA DO DESINTERESSE, A VIDA EM...
César Augusto G. Garcia
César Augusto G. Garcia
21 Aug. 2026
COISAS DO ESTADO ou ESTADO DE COISAS...

Comentários

joão do rosário
17 dias atrás

SENHOR PRESIDENTE, DEIXE-SE DE TRETAS: NÓS SABEMOS QUEM O SENHOR É José Maria Neves vem agora dizer que é “muito melho ...

jcf
18 dias atrás

Cabo Verde tem uma facilidade extraordinária para comentar o que se passa na casa dos outros. Guiné-Bissau, Angola, Moçamb ...

joão do rosário
21 dias atrás

Isto já parece gozo. 177 casos desde o início do ano e já estão outra vez a sacudir o fantasma da pandemia. Sem números ...

Pub-Reportagem

publireport