sábado, 24 outubro 2026

Guerra Rússia/Ucrânia: Incursão da Ucrânia na Rússia foi um "sucesso tático" mas pode haver um objetivo maior para este ataque

 

Nos primeiros dias de agosto, um grupo de reconhecimento de soldados russos atravessou a fronteira de Kursk, na Rússia, para a província de Sumy, na Ucrânia. Assim que entraram em território ucraniano, foram detetados e atacados pelo exército ucraniano. Ninguém sobreviveu para compreender o que se estava a passar, mas os militares russos tinham acabado de esbarrar numa força militar ucraniana que se preparava para invadir a Rússia. Quatro dias depois, na manhã de terça-feira, a Ucrânia lançou uma ofensiva relâmpago em território russo, capturando dezenas de soldados russos e deixando um rasto de destruição no coração do território inimigo.

“As forças armadas russas foram completamente apanhadas de surpresa. Não estavam a contar ser atacadas em Kursk. Esta operação ucraniana estava muito bem planeada e foi bem preparada. O ataque foi coordenado e as tropas ucranianas fazem-se acompanhar de sistemas antiaéreos. A Ucrânia já abateu, pelo menos, dois helicópteros, um Ka-52 e um Mi-8. A ação de drones é intensa”, explica o major-general Agostinho Costa.

 

A fronteira russa, defendida de forma dispersa por um misto de unidades de serviços de fronteiras, unidades do Serviço Federal de Segurança (FSB) e por militares russos, não estava pronta para a velocidade da operação ucraniana. Em poucas horas, carros blindados ucranianos fintavam as localidades de Korenevo e Sudzha e empurravam a linha da frente para mais de 10 quilómetros no interior do território russo, perto de um dos principais centros de transmissão de gás natural russo.

 
 

Mas o propósito por detrás do ataque permanece um mistério. Vários analistas têm questionado a pertinência destes ataques, numa altura em que a falta de militares no leste do país tem vindo a fazer com que a Rússia tenha conseguido ganhar território a um ritmo que não era visto desde o primeiro ano da guerra. A situação é particularmente complicada nos setores de Pokrovsk e de Chasiv Yar.

“Analisando o plano táctico, esta operação é um sucesso. Mas se olharmos para esta guerra como um todo, não me parece boa altura tendo em conta o que se passa no Donbass. A zona mais crítica é Pokrovsk, que é o centro logístico do Donbass e que pode provocar o colapso da frente”, considera Agostinho Costa.

Na última semana, o exército russo avançou 15 quilómetros na região de Pokrovsk e nos arredores de Toretsk. Ao mesmo tempo, soldados russos ocuparam algumas partes do leste da cidade de Chasiv Yar, uma cidade que ocupa uma região geograficamente favorável e que é vista como a principal defesa da região do Donbass, depois da queda de Bakhmut e de Advdiivka. A queda destas cidades colocaria os bastiões de Kostyantynivka, Druzhkivka, Kramatorsk e Slovyansk na linha da frente.

A situação deve-se a uma combinação mortífera de fatores. Devido à dificuldade da liderança política em encontrar um consenso para aprovar uma nova lei de mobilização, várias unidades das forças armadas ucranianas estão a relatar uma severa falta de soldados. O documento, aprovado em abril, promete resolver estes problemas, mas os seus efeitos só devem ser sentidos no final deste verão. Além disso, a liderança militar não foi capaz de fortificar o terreno à velocidade necessária e as unidades militares na linha da frente estão a ressentir-se.

Mas para saber qual o intuito do ataque é preciso perceber qual a dimensão do mesmo. A Rússia mobilizou 30 mil militares para a operação em Kharkiv, que teve como objetivo obrigar a Ucrânia a desviar recursos da frente de batalha para estancar os avanços de Moscovo nos arredores da sua segunda maior cidade. Para já, pouco se sabe quanto à dimensão do ataque em Kursk e ao número de unidades utilizadas. Sabe-se apenas que a 22.ª brigada mecanizada está envolvida, embora não seja claro que esta esteja a utilizar todas as suas unidades.

Para os especialistas, os próximos dias serão cruciais para perceber as verdadeiras intenções de Kiev. A Ucrânia pode reforçar as ações ofensivas na região e obrigar a Rússia a deslocar mais unidades de outras partes da frente de batalha para recuperar esta região, mas também pode utilizar esta ofensiva como ação para distrair as forças armadas russas para a verdadeira ofensiva, focada noutro ponto da frente.

“Os indicadores falam de que isto é apenas o primeiro nível da ofensiva ucraniana. É provável que a Ucrânia reitere esforços. Não é expectável que a Ucrânia faça uma ofensiva na Rússia para capturar território russo, parece-me que há vontade de desequilibrar o dispositivo russo. Mas pode também ser um ataque de apoio a uma outra ofensiva que ainda estamos para ver”, alerta Agostinho Costa.

A Semana com CNN Portugal

Colunistas

Efrem Soares
Efrem Soares
06 Oct. 2026
Cabo Verde: liderança, mérito e prestação de...
  Ao fazer uma reflexão retrospetiva sobre os percursos de...
Alexandre Vieira Fontes
Alexandre Vieira Fontes
18 Sep. 2026
Filomena Silva: uma jornalista de coragem e...
Léo Rosa de Andrade
Léo Rosa de Andrade
31 Aug. 2026
A ÉTICA DO DESINTERESSE, A VIDA EM...
César Augusto G. Garcia
César Augusto G. Garcia
21 Aug. 2026
COISAS DO ESTADO ou ESTADO DE COISAS...

Comentários

joão do rosário
17 dias atrás

SENHOR PRESIDENTE, DEIXE-SE DE TRETAS: NÓS SABEMOS QUEM O SENHOR É José Maria Neves vem agora dizer que é “muito melho ...

jcf
18 dias atrás

Cabo Verde tem uma facilidade extraordinária para comentar o que se passa na casa dos outros. Guiné-Bissau, Angola, Moçamb ...

joão do rosário
20 dias atrás

Isto já parece gozo. 177 casos desde o início do ano e já estão outra vez a sacudir o fantasma da pandemia. Sem números ...

Pub-Reportagem

publireport