domingo, 25 outubro 2026

"Rabelados" de Cabo Verde querem preservar casas de palha para atrair turistas  

 

Para Samira, a reconstrução das casas de palha é importante: "As pessoas vêm à procura disso. Sem elas, há menos turistas".Após o incêndio, as visitas diminuíram e prejudicaram as vendas dos artistas locais.

 
"Os turistas chegam, mostram fotografias e perguntam pelas habitações", atrativo da aldeia, traço identitário de uma história única com mais de 80 anos, explica, segundo NM que reporta Lusa, Gracelinda Ribeiro, presidente da Associação de Arte e Cultura dos Rabelados.

Antes, os visitantes "chegavam, viam estas casas, ouviam histórias e compravam arte. Agora, muitos que vêm com este propósito, não encontram as habitações, nem se aproximam, seguem caminho", lamenta a dirigente, de 31 anos.

Numa comunidade com muitas necessidades, cada visita conta. 

"O turismo sustenta a vida de famílias que dependem exclusivamente da arte. Sem visitantes, não há vendas", acrescenta.

Entre blocos de cimento empilhados e trabalhadores a preparar a reconstrução da aldeia, algumas casas estão quase concluídas, faltando apenas os telhados.

Resistem ainda as duas últimas casas de palha, que antes se alinhavam lado a lado, formando a imagem que os visitantes mais procuram.

A poucos metros, num quintal improvisado, onde algumas famílias se abrigaram, Samira Silva, 34 anos, prepara peixe para o almoço enquanto as crianças correm à sua volta.

Perdeu, segundo a fonte referida, a casa e vive desde então com o marido, três filhos e a mãe numa habitação emprestada.

"Perdi tudo: mobílias, roupas. Esta casa é pequena, mas desenrascámo-nos", conta.

Para Samira, a reconstrução das casas de palha é importante: "As pessoas vêm à procura disso. Sem elas, há menos turistas".

Após o incêndio, as visitas diminuíram e prejudicaram as vendas dos artistas locais.

Numa sala repleta de telas e peças em barro, João Cardoso, 44 anos, mostra a cerâmica e as pinturas que aprendeu a fazer com os avós.

"A arte retrata o nosso dia a dia: o campo, a pesca, os animais. Os turistas compram, sobretudo franceses, ingleses e portugueses", explica.

"Mas vamos reconstruir pelo menos algumas casas de palha para ver se os turistas regressam, porque, o que mais os atrai é isso", acrescenta.

Ao início da tarde, uma mulher de 73 anos, que se apresenta apenas como "Rabelada", regressa da colheita de sequeiro.

Durante décadas, foi parteira da comunidade.

"Antes não íamos ao hospital nem registávamos os filhos. O nome de todos é sempre 'Rabelado'. Com o tempo, as coisas mudaram. Agora os jovens vão à escola e conhecem muitas coisas. Já não somos maltratados como antes, mas eu vou morrer 'Rabelada'", conta.

Confome lembra a fonte deste jornal, a aldeia de Espinho Branco, no interior da ilha de Santiago, isolou-se na década de 1940, quando novos padres chegaram à ilha com mudanças na missa e na educação.

Alguns grupos da população rebelaram-se contra essas alterações, ficando conhecidos, em crioulo, como 'rabelados' (revoltados), que passaram a exercer as suas antigas tradições na clandestinidade e formaram as suas próprias comunidades - refugiaram-se principalmente nas zonas montanhosas de difícil acesso.

Atualmente, são uma comunidade aberta a visitantes e que tem procurado, através de projetos de artesanato, especialmente na pintura e na olaria, ter um sustento e promover a divulgação do seu modo de vida.

Pela aldeia circula Nicola Haller, 36 anos, alemã, acompanhada pelos pais, de férias na ilha de Santiago.

"É uma comunidade diferente, com identidade própria. Queremos conhecer melhor a cultura e a arte. É impressionante. Vejo muitas casas novas e será interessante perceber como a aldeia se vai desenvolver nos próximos anos", afirma.

Contactado pela Lusa, o presidente da Câmara Municipal de São Miguel, Herménio Fernandes, refere à Lusa que a autarquia está a concluir as obras das habitações das oito famílias afetadas, atrasadas devido à necessidade de uma parceria com o Ministério da Cultura e do Turismo para transformar a aldeia num atrativo turístico.

Serão ainda entregues seis habitações adicionais a outras famílias, promete, acrescenta a fonte deste jornal.

"Estamos a construir casas para depois serem revestidas de palha, garantindo habitação condigna e valorizando também o turismo", afirma.

Paralelamente, será requalificada toda a aldeia e o centro de exposição de artesanato será reabilitado, sendo construídas oficinas de arte para apoiar jovens e mulheres talentosas da comunidade.

"O objetivo é assegurar segurança habitacional e preservar a história dos Rabelados, sem perder a identidade da aldeia nem o interesse turístico que esta comunidade desperta", conclui.

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Comentários

joão do rosário
18 dias atrás

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jcf
19 dias atrás

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joão do rosário
21 dias atrás

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