“É inaceitável que, desde o início desta crise, o Primeiro-Ministro, Ulisses Correia e Silva, não tenha dado a cara, nem uma palavra que seja, permanecendo em silêncio e ausente, deixando famílias e pequenos negócios à mercê da crise. Esta omissão revela descaso, desresponsabilização e total falta de liderança”, disse.
Esta advertência vem na sequência da declaração política do PAICV feita esta quinta-feira, 09, pelo deputado Carlos Tavares, durante a sessão da Assembleia Nacional sobre a crise energética e escassez de água em Santiago e na Cidade da Praia. O parlamentar, que é também Presidente da Comissão Política Regional de Santiago Norte do partido, sublinha que a energia elétrica é um bem essencial e que a sua falta impacta negativamente a economia, compromete serviços essenciais e prejudica a qualidade de vida das pessoas.
“Os cidadãos enfrentam cortes constantes e prolongados de energia elétrica, muitas vezes superando dez horas consecutivas sem luz. Em vários bairros, as pessoas passam mais tempo sem eletricidade do que com ela. Esta situação não é apenas inconveniente — é crítica e insustentável. Estamos a falar de prejuízos reais e profundos para famílias e pequenos negócios — a base da nossa economia local”, analisou..
Carlos Tavares apontou diversos problemas que têm afetado diretamente a vida dos cabo-verdianos, como: Prejuizos com avarias de eletrodomesticos e perda de alimentos; As empresas perdem produtos, clientes e faturamento; Os pequenos negócios — salões de beleza, barbearias, padarias, restaurantes, oficinas, mercearias, escolas privadas e clínicas — veem o seu trabalho interrompido.
Segundo a mesma fonte, a crise não afeta apenas famílias e empresas — atinge também serviços públicos essenciais. O sistema de comunicação e informaçao é afetado. Nas escolas, aulas que exigem recursos tecnológicos são cancelados. Cidadãos encontram barreiras para obter certidões na Casa do Cidadão, e o Campus da Justiça praticamente parou de funcionar, revelou.
“É insólito que, pessoas se desloquem à EDEC para pagar a luz e se deparem com falta de eletricidade no próprio balcão de atendimento. Este é o retrato fiel da desorganização e incapacidade de governação instalada no país”, criticou.
Para além dos constrangimentos e prejuízos indicados pelo parlamentar, Calos frisou que os cortes têm ainda impacto psicológico devastador. “Stress, ansiedade e frustração tornam-se parte da vida diária. Famílias perdem noites de sono, crianças não conseguem estudar e profissionais trabalham sob enorme pressão, sem poder atender devidamente pacientes ou clientes”.
Outro ponto debatido no parlamento hoje foi a escassez de água.
O deputado do PAICV indicou que famílias vivem enormes dificuldades sem água para consumo ou higiene e comerciantes enfrentam perdas e, mesmo assim, as faturas chegam todos os meses. Revelou ainda que estudos apontam contaminação na água da rede pública, com riscos sérios para a saúde e possibilidade de doenças graves.
Retrocesso na transição energética
Segundo Carlos Tavares, desde 2016, não foi adquirido um único grupo gerador. Disse ainda que a Electra sobrevive à custa de equipamentos antigos, comprados em governos anteriores do PAICV, já com sérios sinais de desgaste.
“Enquanto a procura de energia aumentou, a capacidade instalada manteve-se estagnada. E, para agravar, a penetração de energias renováveis caiu de 25% em 2015 para 18% atualmente”.
O parlamentar questionou se a decisão de segmentar o setor elétrico — separando produção, comercialização e distribuição — foi, de facto, a melhor opção para o país. E revelou que o seu partido irá “propor uma Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar esta crise energética, em nome do interesse nacional”.
Acesso à eletricidade com o PAICV no poder e exigências ao atual governo
Tavares recordou em seu discurso, o legado do PAICV, quando esteve no Governo — “um legado de visão e resultados concretos”.
“Quando o PAICV assumiu o poder, apenas 50% do país tinha acesso à eletricidade, e a penetração de energias renováveis era de apenas 1%. A Electra estava descapitalizada e a rede elétrica em ruínas. Mas com visão e investimento estratégico, o PAICV modernizou centrais, ampliou a cobertura elétrica, aumentou a produção, criou centrais únicas, desenvolveu parques eólicos e fotovoltaicos, e investiu fortemente na produção e distribuição de água dessalinizada. Entre 2001 e 2016, o acesso à energia subiu de 50% para 90% da população”, pode ler-se na declaração política remetida ao Asemanaonline.
Face a essa situação crítica, o deputado pede ao governo que:
- - Aumente com urgência o número e a capacidade dos geradores de reserva, de forma a garantir que o sistema se mantenha ativo caso as centrais principais falhem;
- - Apresente um relatório público detalhado sobre o estado real da Central do Palmarejo e das demais infraestruturas energéticas do país;
- - Aprove o Plano Nacional de Segurança Energética, com metas claras de curto, médio e longo prazo, para evitar novas crises e garantir estabilidade no abastecimento elétrico;
- - Invista na modernização do sistema energético, priorizando energias renováveis, armazenamento de energia e redes inteligentes, de forma a reduzir a dependência de centrais obsoletas e vulneráveis;
- - Crie uma célula de coordenação interinstitucional permanente entre o Ministério da Energia, a empresa de eletricidade, a entidade reguladora e outras entidades, para monitorizar riscos e antecipar falhas;
- - Reforce a fiscalização e as auditorias públicas por parte da entidade reguladora, assegurando transparência, qualidade do serviço e uso eficiente de recursos;
- - Esclareça publicamente as dívidas acumuladas pela empresa pública do setor energético a fornecedores, divulgando valores, prazos e responsabilidades;
- - Compense de forma justa as famílias e pequenos negócios pelos prejuízos materiais e operacionais provocados pelos apagões.
Carlos concluiu, alertando, aos cabo-verdianos, se estará o Governo a preparar outro perdão de dívidas de luz em período eleitoral, como aconteceu em 2021, “para iludir os eleitores e encobrir a sua incompetência e seu fracasso”.

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