segunda-feira, 26 outubro 2026

Dia da Mulher Cabo-verdiana: Né Calceteira - a mulher que quebrou barreiras e fez da calçada o seu sustento

 

“Quando me mudei para a Praia, com a necessidade de sustentar os filhos, vi um calceteiro trabalhando nas proximidades de minha casa e decidi que queria seguir o mesmo caminho”, relatou.Com coragem e determinação, Né arranjou o material necessário para o ofício, um martelo e uma enxada, e começou a trabalhar no bairro de Eugénio Lima e logo se percebeu que conseguiria garantir algum rendimento para sustentar a família.

 

No âmbito do Dia da Mulher Cabo-verdiana, que se assinala hoje, 27 de Março, a Inforpress ouviu Manuela Correia Rocha, mais conhecida por Né Calceteira, uma mulher que enfrentou o preconceito e o machismo para abraçar uma profissão tradicionalmente masculina.

Ao acompanhá-la em mais uma  jornada, nos arredores do Porto da Praia, a Inforpress encontrou Né de joelhos no chão, martelo em punho, empenhada no seu trabalho de assentar pedras.

Determinada e batalhadora, orgulha-se de ter criado os seus quatro filhos com a profissão de calceteira que exerce há nove anos, que para ela é um ofício como qualquer outro, e sente-se “plenamente confortável” ao desempenhá-lo, enfrentando com coragem o esforço físico exigido.

Começou sua trajectória como servente de pedreiro no município de São Lourenço dos Órgãos de vez em quando, ela se aventurou no trabalho de calceteira, observando seus colegas e gradualmente se apaixonando pela actividade.

“Quando me mudei para a Praia, com a necessidade de sustentar os filhos, vi um calceteiro trabalhando nas proximidades de minha casa e decidi que queria seguir o mesmo caminho”, relatou.

Com coragem e determinação, Né arranjou o material necessário para o ofício, um martelo e uma enxada, e começou a trabalhar no bairro de Eugénio Lima e logo se percebeu que conseguiria garantir algum rendimento para sustentar a família.

"Foi uma necessidade, e consegui criar os meus quatro filhos", afirmou com orgulho.

Há nove anos no ramo e com uma jornada que começa às 08:00 e vai até as 17:00, de segunda a sexta-feira, Né nunca pensou em desistir, acreditando que sua força está neste trabalho, que considera “uma verdadeira bênção de Deus”.

Embora tenha sido bem-recebida pelos colegas, que lhe deram força e coragem, Né enfrentou preconceitos nas ruas onde algumas pessoas a apoiaram, enquanto outras criticaram, dizendo: 'Se fosse a minha mulher, não trabalharia como calceteira'.

A esposa e mãe de quatro filhos revelou que sempre contou com o apoio incondicional da família. O marido nunca lhe impôs restrições em relação à sua profissão, acreditando que ele a apoia, uma vez que, com esse trabalho conseguiram criar os filhos e sustentar a família.

Actualmente, Né trabalha com um colega, dividindo o rendimento por igual conforme a metragem trabalhada, garantindo que a verba seja suficiente para sustentar a casa e proporcionar uma vida digna aos filhos.

Apesar de ser um trabalho cansativo, Né calceteira sente-se “confortável e bem” no meio predominantemente masculino e assegura que enquanto tiver vida e saúde continuará a trabalhar para criar os seus filhos.

Nunca frequentou uma formação específica para a profissão, mas ao longo dos nove anos de experiência, aperfeiçoou suas habilidades.

Agradeceu a todos que, desde o início, lhe deram força e a incentivaram a não desistir, pois hoje consegue sustentar os filhos com seu trabalho.

Com muito orgulho, ela deixou uma mensagem às mulheres: "Sigam o meu exemplo, unam-se para trabalhar e mostrem aos homens que somos poderosas e que temos a curiosidade e capacidade de trabalhar em qualquer área".

Actualmente, Né é a única mulher calceteira na cidade da Praia, uma verdadeira referência de força e perseverança e continua firme em sua profissão, quebrando barreiras e enfrentando desafios com dedicação.

Aproveitou para apelar ao fim da violência baseada no género, ressaltando que as mulheres cabo-verdianas “são batalhadoras e merecem respeito”.

O Dia da Mulher Cabo-verdiana, que se comemora a 27 de Março, foi instituído para homenagear todas as mulheres de Cabo Verde, pelo seu contributo dado no processo de desenvolvimento do país.

 

A Semana com Inforpress

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Comentários

joão do rosário
19 dias atrás

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jcf
20 dias atrás

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