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Fontainhas: A aldeia encantada de Santo Antão
Moldada pelo isolamento geográfico, pela agricultura em socalcos e pelas tradições centenárias, a aldeia das Fontainhas preserva costumes como o fongo, uma iguaria artesanal associado à Páscoa. Considerada, várias vezes, como o segundo lugar com a vista mais bonita do mundo, impulsionada pelo crescente turismo e pelo reconhecimento da UNESCO, a aldeia de Santo Antão procura conciliar a valorização do seu património com a preservação da sua identidade. Chegar às Fontainhas é, por si só, uma experiência memorável. Encravada nas montanhas da ilha de Santo Antão, em Cabo Verde, esta pequena aldeia revela-se apenas depois de uma longa viagem por uma estrada sinuosa, que serpenteia entre escarpas e precipícios, aumentando a expectativa a cada curva. Quando finalmente surge diante dos olhos, o cenário é arrebatador: um conjunto de casas coloridas parece desafiar a gravidade, agarrado à encosta da falésia e suspenso sobre um vale coberto por socalcos verdejantes que se estendem até onde a vista alcança. Em 2024, as Fontainhas foram classificadas como Património Mundial da UNESCO, um reconhecimento que veio reforçar a projecção internacional da aldeia, já anteriormente distinguida pela revista National Geographic como uma das localidades com a segunda vista mais bonita do mundo. A estrada dos Namorados Durante décadas, o acesso à aldeia foi difícil e reservado aos mais destemidos. A antiga estrada, escavada na própria rocha, era tão estreita que quem sofresse de vertigens dificilmente conseguia percorrê-la, fosse a pé ou de automóvel. Em 2025, as autoridades cabo-verdianas concluíram um projecto de valorização turística e ambiental da aldeia, inaugurando uma nova via de acesso. No entanto, a antiga estrada continua a fazer parte da memória colectiva e é conhecida como a "Estrada dos Namorados". Vítor Monteiro recorda a história que deu origem ao nome. A estrada foi mandada construir por João Serra, então administrador do concelho, para poder visitar a esposa, Bárbara, natural das Fontainhas. Proprietário do único camião Bedford existente na região, fez questão de abrir uma estrada com a largura exacta necessária para a passagem do veículo. Construída integralmente em pedra seca, a obra permanece como testemunho da perícia e da dedicação dos trabalhadores da época. Anos mais tarde, porém, o próprio João Serra perdeu o controlo do camião numa das curvas, devido a uma falha nos travões. O veículo caiu na ribeira e ficou destruído, mas o condutor sobreviveu ao acidente. Agricultura e caminhadas entre montanhas Apesar da crescente escassez de água, as Fontainhas continuam a manter alguma actividade agrícola. Nos socalcos cultivam-se produtos como inhame, cana-de-açúcar e bananeiras, culturas que ainda garantem parte do sustento das famílias locais. A aldeia das Fontainhas é igualmente um dos pontos de passagem obrigatória para os amantes das caminhadas. O percurso entre Cruzinha e Ponta do Sol, com cerca de 15 quilómetros, é considerado um dos mais espectaculares de Cabo Verde. Todos os dias, dezenas de visitantes percorrem este trilho costeiro e, durante a época alta, esse número ascende facilmente às centenas. O desafio de preservar a autenticidade O reconhecimento internacional trouxe uma crescente procura turística. Actualmente, mais de 500 visitantes passam - na época alta- diariamente pelas Fontainhas. Para Vítor Monteiro, o turismo representa uma oportunidade importante para o desenvolvimento económico da comunidade, mas alerta para os riscos associados ao crescimento descontrolado. A sua principal preocupação é a construção de edifícios modernos que possam descaracterizar a aldeia. Com a melhoria dos acessos, receia que aumente o interesse de investidores externos, comprometendo a autenticidade que distingue as Fontainhas. O fongo: um sabor que atravessa gerações Entre as tradições mais emblemáticas das Fontainhas encontra-se o fongo, uma especialidade gastronómica profundamente ligada às celebrações da Páscoa. Na casa de Dona Antónia, de 90 anos, descobrimos uma receita artesanal transmitida de geração em geração. A preparação começa com banana madura esmagada, à qual se juntam sal, açúcar, farinha de milho, farinha de mandioca e fermento. Depois de bem amassada, a massa é envolvida em folhas de bananeira. Dona Antónia aprendeu a confeccionar o fongo quando tinha pouco mais de quarenta anos, ensinada por uma mulher mais velha da aldeia. Desde então, nunca deixou de manter viva esta tradição. Ao contrário das versões mais modernas, preparadas no forno, Dona Antónia continua fiel ao método antigo: o fongo é cozinhado lentamente sobre palha e brasas, uma técnica que lhe confere um sabor e uma textura muito característicos. Para os habitantes das Fontainhas, o fongo é mais do que um alimento. É um símbolo de identidade, de partilha e de memória colectiva. Em 2024, esta tradição foi registada pelo Instituto do Património Cultural de Cabo Verde, integrando o processo de valorização do património cultural imaterial da aldeia. A Semana com RFI
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