domingo, 11 outubro 2026

A SOLIDÃO DO MENTIROSO

Dizer-se o que não corresponde ao que se acredita que seja. O nome disso é mentira. Formulei este conceito para poder excluir compreensões distorcidas por transtornos de qualquer ordem que alcancem alguém.

Se, por motivos emocionais, eu desvirtuo os fatos, de maneira a contornar desconfortos insuperáveis, não estaria mentindo, pois me encontraria pressionado por consternações emotivas invencíveis.

Mentir, então, é mentir mesmo, é não dizer a coisa como se a sabe, ou honestamente se a supõe: aumentar, mitigar, distorcer, suprimir, acrescentar, escamotear etc., em ato deliberado, induzindo a erro.

Há casos em que a mentira é legítima. O exemplo usual é o do judeu que negava sua etnia a um nazista, simplesmente para não ser morto. Mas há coisas mais singelas, que, igualmente, legitimam a mentira.

Se pais autoritários cerceiam exageradamente o ir e vir da filha, não se pode condenar o ‘‘vou dormir na casa da amiga para estudar’’, e, de lá, o ir para as festas que a vida oferece, às quais a menina tem direito.

Existe a mentira misericordiosa, dita, talvez devidamente, ao doente, ou à pessoa vestida não tão bem assim. Há, inclusive, a regalia de mentir: ninguém é obrigado, ao depor em juízo, a produzir prova contra si.

E a mentira gratuita? Aquela que não é transtorno, misericórdia ou legítima. Não creio que haja mentiroso gratuito sem necessidade psicológica de sê-lo. Necessidade, contudo, explica esse mentiroso; não o justifica.

Ninguém pode atender suas necessidades, desconsiderando os danos emocionais e de relacionamento que causa ao seu redor. Uma necessidade não é, forçosamente, insuperável. Talvez, se pedir ajuda...

Quem mente tem que optar entre as amarguras de saber-se um mentiroso e as dores de encarar uma verdade que lhe é difícil. O imperativo de optar é solitário e aflitivo. Mas, quem pode viver sem enfrentar opções?

O mentiroso mente, antes, para ele mesmo. Autoengana-se de que enganou o próximo. A vontade vence a vergonha de mentir. Vencesse a vergonha, não mentiria. E não é de ser descoberto que tem medo.

Ao mentiroso apavora-lhe é que se lhe descubra a verdade. Envergonha-se de algo escondido: a verdade. Essa verdade, normalmente, o envolve. O mentiroso tem vergonha da verdade em que está envolvido.

Criada uma ficção, o mentiroso tem que sustentá-la com outras, o que não lhe é confortável. Porém menos confortável é-lhe a realidade que deseja esconder. Cria um mundo vicioso de mentiras e vai morar nele. Sozinho.

Este mundo é construído sobre mentiras indulgentes, pregadas para si. O mentiroso se convence de que está convencido (no fundo, não está) de que mentir é o menor mal, ou de que prega a última mentira.

O mentiroso, em momentos sinceros, está só: ele sabe que os outros sabem que ele está mentindo e que não vai parar. Na vida, quem mente vai sendo desmoralizado; vai se desmoralizando até se desmoralizar.

Não deve ser confortável levar a existência deparando-se consigo falsificado por si mesmo. “Fiz questão de esquecer \ Que mentir pra si mesmo \ É sempre a pior mentira” (Legião Urbana, Quase sem querer).

Os amigos do mentiroso devem-lhe um espaço afetuoso, que lhe abrigue a verdade escondida, e a recusa à própria falsificação. Tolerá-lo sob suspeita é acrescentar-lhe mal ao mal que ele faz ao seu viver.

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*Doutor em Direito pela UFSC.Psicanalista e Jornalista.

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Comentários

joão do rosário
3 dias atrás

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jcf
5 dias atrás

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joão do rosário
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