domingo, 11 outubro 2026

NAVIOS FULÔS

Minha surpresa começou de modo invertido. Em recente viagem, contei, no aeroporto, do avião à fila dos táxis, nove pessoas negras, aliás, deve ser anotado, todas homens. Digo que me surpreendi de forma invertida porque, se não tivesse visto negro nenhum, talvez não me houvesse dado conta do fenômeno: nove negros, milhares de brancos.

Desde que constatei esse fato, venho conferindo essa relação, e, para bem ver, busquei lugares de grande frequência pública. Em cinco shoppings, foram pouquíssimos os negros que vi. Em três sessões de cinema, nenhum negro. Nos últimos musicais que frequentei, vi negro na orquestra, não porém, na plateia. Em peças teatrais, nem no elenco, nem na plateia havia pessoa negra. Nas classes em que lecionei pouquíssimas pessoas negras encontrei.

Segundo o Censo de 2022, do IBGE, a população brasileira se declarou assim: pardos: 45,3%; brancos: 43,5%; pretos: 10,2%; indígenas: 0,8%; amarelos: 0,4%. Note-se que os pardos apareceram como o maior grupo populacional do país, superando os brancos. Se somados pretos e pardos, categoria frequentemente agrupada como “negros” em estudos sociais e políticas públicas, o total chega a 55,5% da população brasileira.

As contas oficiais, portanto, afirmam que somos, os brasileiros, pouco menos da metade brancos, pouco mais da metade negros, enquanto categoria social. Não os vejo, nunca os vi. Em doze restaurantes, nenhum estava lá, em quatro estabelecimentos bancários, muitos brancos passando, contei seis pessoas negras, nenhuma delas mulher, e, posso garantir, estava atento no procurar.

Conferi meus contatos de rede social; uma que outra pessoa negra ou parda. Bisbilhotei os amigos dos meus amigos e os amigos dos amigos dos meus amigos: há negros, mas são pouquíssimos. Escrevo para sites, jornais me publicam; raros negros estão nesses lugares, quase nenhum mantém coluna em jornal.

Note-se, não estou trazendo dados sobre negros em cargos relevantes públicos ou privados, contudo, deixo uma provocação: tente lembrar de algum, seja na esfera federal, na estadual, ou na municipal. Sim, claro, alguém citará uma exceção, mas uma exceção citada como tal apenas confirma que os negros, embora progressos, estão excluídos dos melhores espaços sociais.

No que o IBGE categoriza como subocupação, informalidade e subutilização da massa trabalhadora, em 2017 pretos e pardos correspondiam a 65,8% dos trabalhadores subutilizados; em 2022, a informalidade atingia cerca de 47% dos trabalhadores pretos e pardos. Sim, já foi pior, porém, a atual desproporção nas formas mais precárias de inserção no mercado de trabalho segue denunciadora de um estado de exclusão sistemático.

Lembro como é ido, e como é atual: “Mas que vejo eu aí... Que quadro d’amarguras! [...] Que cena infame e vil... [...] Era um sonho dantesco... [...] Em sangue a se banhar. Tinir de ferros... estalar de açoite... Legiões de homens negros como a noite [...]”, O Navio Negreiro, Castro Alves.

Trazidos assim, para cumprir toda tarefa: “(Era a fala da Sinhá) – Vai forrar a minha cama \ pentear os meus cabelos, [...] vem abanar o meu corpo que eu estou suada, Fulô \ vem coçar minha coceira, [...] vem balançar minha rede, \ vem me contar uma história, \ que eu estou com sono, Fulô!”, Essa Negra Fulô, Jorge de Lima.

Olhado ao redor, vê-se que as coisas estão erradas. As coisas mesmas são erro e expressão de coisa errada. Onde estão os negros desse Brasil, que oferecia bandeira para os navios que os buscavam cativos? Dos escravizados os brancos se serviram para tudo, em tudo, da pior forma que se pode imaginar. Libertos – espanto! – foi o espanto que tive: são trazidos à parte.

Sempre eu soube disso, contudo, de algum modo, só o percebo agora. Sinto culpa, não pelo passado, mas por perceber tão tarde o quanto nisso tenho de responsabilidade. Responsabilidade no tanto que todos somos responsáveis pela História do País, senão pelo que foi, pelo que é, pela naturalização desfaçada do que está, ou, pior, não está à vista.

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Comentários

joão do rosário
3 dias atrás

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jcf
5 dias atrás

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joão do rosário
7 dias atrás

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