sexta-feira, 09 outubro 2026

“A Fé, o Dinheiro e o Milagre Digital do Nosso Tempo”

 

A alma das criptomoedas (e a fé de quem investe antes de entender)

Criptomoedas são ativos digitais criados com base em criptografia e blockchain, conceitos que muitos repetem sem saber definir. Surgiram com o Bitcoin em 2009, pela mão (ou teclado) de Satoshi Nakamoto, e desde então multiplicam-se:

Bitcoin, Ethereum, Ripple, Solana, Cardano, memecoins como Dogecoin e Shiba Inu, stablecoins como Tether, tokens de utilidade, de governança… e, claro, as versões tropicais e milagrosas: OptCoin, WS Tokens e outras revelações financeiras que aparecem com o entusiasmo de uma romaria.

A promessa era descentralização, inclusão e inovação. A realidade, porém, mistura risco, especulação e fé, uma fé tão intensa que ganhou até nome contemporâneo: espiritualidade financeira, onde o fiel não acende velas, mas recarrega saldo e vê vídeos motivacionais.

 

O caso OPT Coin e o “certificado místico” da WS

A OptCoin apareceu proclamando modernidade. Depois surgiu a Plataforma WS – Shared Wealth, com um suposto “certificado internacional” que a autorizaria a operar durante dez anos. O documento circula em apresentações, raramente em sites oficiais, e sempre em PDF,  o que, para muitos crentes digitais, equivale a uma escritura sagrada.

 

Quando o país inteiro virou investidor digital

A adesão cabo-verdiana foi digna de tese sociológica.

Jovens investiram porque “está a pagar bem”.

Idosos investiram porque “o vizinho ganhou 5 euros ontem”.

Empresários respeitados, figuras públicas, trabalhadores, emigrantes… todos entraram. Das ilhas às ribeiras, do litoral ao interior, Cabo Verde viveu um fenómeno raro: a democratização da ilusão.

Este entusiasmo revela duas verdades incômodas:

— mesmo os mais esclarecidos têm pouca literacia financeira;

— e quando o assunto é “dinheiro fácil”, o país inteiro vira otimista.

 

O Banco de Cabo Verde: avisou, mas ninguém ouviu

O BCV já avisou que criptomoedas não são moeda legal, que tais plataformas não são reguladas, e que tudo corre por conta e risco do investidor. Mas o cabo-verdiano, sempre resiliente, só lê comunicados do BCV quando já está a preencher queixa na polícia.

 

A era da literacia tecnológica (que ainda não chegou)

A verdade é simples: sem literacia digital e financeira, qualquer promessa parece boa, qualquer plataforma parece séria, e qualquer certificado em PDF parece oficial. Por isso, o país precisa investir não só em escolas e estradas, mas também em educação financeira, para que as pessoas saibam distinguir investimento de aposta, e aposta de golpe.

 

A doutrina do dinheiro fácil

A velocidade com que estes negócios se espalham criou um novo sistema de crenças. É a teologia do ganho rápido, onde todos esperam um milagre e ninguém quer saber da matemática. Porém, a história ensina: quem corre atrás de dinheiro fácil acaba fácil sem dinheiro.

 

As pirâmides e o velho enredo das quedas anunciadas

Os esquemas piramidais têm sempre o mesmo ritual:

  1. pagam bem no início,
  2. fazem centenas acreditar,
  3. arrebanham milhares,
  4. recolhem milhões,
  5. e desaparecem abruptamente.

Todos ganham no começo. Depois, todos perdem,  menos os criadores, que já estão num país distante, a abrir nova plataforma com nome igualmente inspirador.

 

Lembram da Diamond Média?

Em 2022, a famigerada Diamond Média engoliu milhões de cabo-verdianos, residentes e emigrantes. Famílias inteiras perderam poupanças. Amigos convenceram amigos. A plataforma cresceu como febre e caiu como tempestade. E desapareceu sem devoluções, sem responsáveis, sem milagres finais.

 

O Direito (que tenta correr atrás do prejuízo)

Enquanto o BCV tenta proteger o sistema financeiro, o Direito Internacional tenta definir jurisdição, responsabilidade e vias de litígio para empresas sem país, sem rosto e sem morada. Quando a plataforma cai, quem reclamar? A quem processar? A página inicial? O ecrã de login? O fantasma digital que criou tudo?

 

 Saber não pesa, mas a ignorância custa caro

O mundo digital é fascinante, mas não perdoa ingenuidade.  Investir sem perceber é entregar o bolso à sorte ou talvez o  “ ouro ao bandido”.

E quando a sorte é comandada por plataformas não reguladas, o resultado costuma ser apenas um: prejuízo. Desconfie sempre de quem promete o impossível. E lembre-se: no mercado, milagre é sempre caro.

 -----

* Licenciado em Direito, Técnico de Segurança Pública , Pós-graduando em Direito Penal e Direito Processual Penal militar

 

Colunistas

Efrem Soares
Efrem Soares
06 Oct. 2026
Cabo Verde: liderança, mérito e prestação de...
   Ao fazer uma reflexão retrospetiva sobre os percursos de...
Alexandre Vieira Fontes
Alexandre Vieira Fontes
18 Sep. 2026
Filomena Silva: uma jornalista de coragem e...
Léo Rosa de Andrade
Léo Rosa de Andrade
31 Aug. 2026
A ÉTICA DO DESINTERESSE, A VIDA EM...
César Augusto G. Garcia
César Augusto G. Garcia
21 Aug. 2026
COISAS DO ESTADO ou ESTADO DE COISAS...

Comentários

joão do rosário
1 dias atrás

SENHOR PRESIDENTE, DEIXE-SE DE TRETAS: NÓS SABEMOS QUEM O SENHOR É José Maria Neves vem agora dizer que é “muito melho ...

jcf
3 dias atrás

Cabo Verde tem uma facilidade extraordinária para comentar o que se passa na casa dos outros. Guiné-Bissau, Angola, Moçamb ...

joão do rosário
5 dias atrás

Isto já parece gozo. 177 casos desde o início do ano e já estão outra vez a sacudir o fantasma da pandemia. Sem números ...

Pub-Reportagem

publireport