quinta-feira, 08 outubro 2026

O Corpo violento

 

Um organismo, para pensar, tem de ter capacidade de registrar dados e de buscá-los na memória para operações no presente. Humanos, macacos e computadores fazem isto. Esta constatação não é suficiente para explicar todo o comportamento humano. O que, afinal, faz com que o humano pense e, ainda assim, comporte-se com violência?

 

Não nos vemos como um corpo. Não nos ensinaram que somos um organismo, um sistema vivo, uma estrutura psicofisiológica. Contudo, nós somos um corpo. Se nos olhamos no espelho, não vemos o “nosso” corpo; vemos o corpo que somos. A dualidade platônica reelaborada pelo cristianismo que nos alcançou não venceu Espinosa ou Hume.

Seja: não temos uma mente e nem temos um corpo, mas somos um corpo com capacidade de pensar, uma estrutura física dotada de psiquismo. O pensamento é um atributo do corpo. E como e por que esse corpo pensante gera violência? A ciência confessa: aprendemos muito, não sabemos tudo.

Temos, contudo, razoável noção das coisas.

Um organismo, para pensar, tem de ter capacidade de registrar dados e de buscá-los na memória para operações no presente. Humanos, macacos e computadores fazem isto. Esta constatação não é suficiente para explicar todo o comportamento humano. O que, afinal, faz com que o humano pense e, ainda assim, comporte-se com violência?

A primeira razão está na relação do corpo com o seu passado. O que memorizamos, nós o fazemos com conteúdo significante, e correlacionando significativamente com os registros significativos antecedentes. Macacos fazem isso de forma rudimentar; computadores não conseguem fazê-lo; humanos fazem-no de forma complexa.

A segunda relaciona-se com o tempo futuro. O humano tem expectativa, consegue viver antecipadamente o que imagina será o amanhã, fazendo-o com emoções da realidade presente informada pelo passado. Finalmente, o humano é situado na história do seu tempo, e só se afeta, pensa e se compreende nela. Somos um animal histórico.

A memória (dados) e a expectativa (panorama futuro) sempre foram os elementos de decisão do humano. Nos tempos selvagens, o corpo humano compunha a cadeia alimentar. Matava para comer, mas era caçado e servia de comida. Sobreviveram os que aprenderam a usar subsídios da memória para levar a vida até o dia seguinte.

Memória da violência e estratégias de violência moldaram o animal que evoluía. Nesse sentido, então, a inteligência que brotava no humano formava-se como um recurso de luta, como uma arma. O que nos faltava de garras ou dentes nos sobrava de cérebro mortal, inigualável em organizar a violência como recurso eficaz de sobrevivência.

Descobrimos que agrupados éramos mais fortes. Internamente, no entanto, membros do grupo tinham que se conter, ou a guerra doméstica mataria a todos. Sobreviveram os capazes de se adaptar à convivência. Assim é que grupos cresceram e produziram cultura – cultura como sistema de comportamento vantajoso, mas que pede regra.

Sem regra compartilhada, está-se sujeito à oscilação das iras da coletividade. É desse modo que a cultura se introjeta em animais humanos: como “lei” subjetivada. O humano caracteriza-se exatamente por conter em si essa tensão entre um corpo formado para a violência e uma cultura que se inscreve nesse corpo violento e o reprime.

Atualmente, além da tradição cultural, há meios de repressão institucional bem organizados e atuantes (ideologia e repressão). A violência, porém, segue, e não em poucos lugares. Que ocorre? Os estados sociais dos agrupamentos primitivos evoluíram muito rapidamente, sem que os corpos humanos acompanhassem essas mudanças.

Os primitivos viviam em condições equivalentes e possuíam um objetivo comum: sobreviver aos ataques externos de outros animais, humanos ou não. Era, ou coesão, ou morte. Hoje não nos articulamos em torno de objetivos comuns (laços sociais esgarçados) e muitos estão relegados a condições de selva (desprovidos das vantagens disponíveis).

Demasiadas pessoas têm passado ruim, presente triste, futuro desanimador. A evolução nos fez violentos antes de nos fazer controlados socialmente. A violência que nos incomoda é indesejável, mas ela compõe a natureza humana. O que não é natural nem razoável que se naturalize é uma sociedade tão injusta e injustificável como a nossa.

 ---

* Doutor em Direito pela UFSC.Psicanalista e Jornalista.

Colunistas

Efrem Soares
Efrem Soares
06 Oct. 2026
Cabo Verde: liderança, mérito e prestação de...
   Ao fazer uma reflexão retrospetiva sobre os percursos de...
Alexandre Vieira Fontes
Alexandre Vieira Fontes
18 Sep. 2026
Filomena Silva: uma jornalista de coragem e...
Léo Rosa de Andrade
Léo Rosa de Andrade
31 Aug. 2026
A ÉTICA DO DESINTERESSE, A VIDA EM...
César Augusto G. Garcia
César Augusto G. Garcia
21 Aug. 2026
COISAS DO ESTADO ou ESTADO DE COISAS...

Comentários

joão do rosário
1 dias atrás

SENHOR PRESIDENTE, DEIXE-SE DE TRETAS: NÓS SABEMOS QUEM O SENHOR É José Maria Neves vem agora dizer que é “muito melho ...

jcf
3 dias atrás

Cabo Verde tem uma facilidade extraordinária para comentar o que se passa na casa dos outros. Guiné-Bissau, Angola, Moçamb ...

joão do rosário
5 dias atrás

Isto já parece gozo. 177 casos desde o início do ano e já estão outra vez a sacudir o fantasma da pandemia. Sem números ...

Pub-Reportagem

publireport