É sabido, o humano é natureza e cultura (eu diria: a natureza humana inclui a cultura). Cláudia Bonfim ensina: ''Sexo: biologicamente natural. Gênero: culturalmente construído. Identidade de gênero (ou identidade de sexo): forma como alguém se sente, se identifica, se apresenta, para si próprio e aos que o rodeiam, bem como, relaciona-se à percepção de si como ser 'masculino', ou 'feminino', ou ambos. Orientação sexual (ou opção sexual): sexo das pessoas pelas quais sentimos atração física, desejo e afeto”. Essa formulação conceitual, que inicialmente caracterizava a sexualidade humana como heterossexual, homossexual ou bissexual, desdobrou-se na comunidade LGBTQIAPN+.
Estaria bem (ou menos mal) se a usassem para fundamentar as próprias práticas sexuais, mas querem haver suas formulações como uma teoria geral da sexualidade humana. Como não se sentem bem com diferenças tão próprias a humano\as, insistem em homogeneidade e saem em pregação, em tentativa de conformação.
Para dar satisfação íntima ao meu aborrecimento com essa gente, bastaria chamá-la de chata. É que o\as que se fazem missionário\as são mesmo aporrinhadore\as. Batem nas nossas portas nas manhãs dominicais, instalam autofalantes externos em seus templos, põem-se aos gritos nas praças públicas, ocupam meios de transporte público, e, claro, a invasão internética, usada com extrema competência.
Tudo com um argumento base: a urgência da ''salvação'', a que se somam outras ladainhas que evidenciam culpa. Culpa de que? Sei lá! Acho que é do que sentem vontade de fazer, mas não têm coragem para pôr em ato. Então, não querem que ninguém faça. Cada tesão mal resolvido é um sério risco ao tesão geral da humanidade. Mas xingá-los não atende à minha preocupação.
Esse\as pregadore\as individuais de escatologia, pecados e caminhos do céu, que deve ser um lugar horrível, cheio tipos assim, são, porém, menos graves que seus recursos midiáticos por atacado. Presto atenção na ''obra divina'' levada a efeito pelos meios de comunicação. Se alguém verificar a programação dos diversos canais de televisão noite adentro, encontrará um espetáculo estarrecedor. Em concessões estatais, em um Estado laico, arautos de diversas confissões efetuam atividades religiosas, o que já pede reflexão. Nessas atividades incluem-se milagres de cura, o que recomenda intervenção das autoridades, dado que há explícitos ataques à saúde pública.
Essa ''obra divina'' produz, entretanto, um dano mais grave: os palanques eletrônicos milagreiros conduzem esse\as pregadore\as aos cargos políticos. A notoriedade lhes proporciona votos. Feito\as político\as, solapam a República e forçam um estado-religião. Aí, depois, fatos consolidados, gestos tardatários, fazem-se passeatas, manifestos; grita-se fora fulano\a.
Essas manifestações tardias até logram alguma utilidade pedagógica, dado que polemizam certos tristes efeitos, mas, no geral das ocasiões, o\as religioso\as as capitalizam e as vendem como ''coisa do reino dos homens''. Resta que as ''ovelhas'' se afirmam nas suas crenças e confirmam mais ''pastore\as'' como líderes, já não de uma igreja, mas da Nação.
É sabido, o humano é natureza e cultura (eu diria: a natureza humana inclui a cultura). Cláudia Bonfim ensina: ''Sexo: biologicamente natural. Gênero: culturalmente construído. Identidade de gênero (ou identidade de sexo): forma como alguém se sente, se identifica, se apresenta, para si próprio e aos que o rodeiam, bem como, relaciona-se à percepção de si como ser 'masculino', ou 'feminino', ou ambos. Orientação sexual (ou opção sexual): sexo das pessoas pelas quais sentimos atração física, desejo e afeto”. Essa formulação conceitual, que inicialmente caracterizava a sexualidade humana como heterossexual, homossexual ou bissexual, desdobrou-se na comunidade LGBTQIAPN+.
Crentes, que levaram a sério o “crescei e multiplicai-vos”, fizeram-se muito\as (vide o recém-publicado senso do IBGE), são proativos e não suportam duas dessas possiblidades. Ora, não obstante o combate ideológico e mesmo físico que lhes é dado (refiro o número de assassinatos de pessoas sexualmente ”não convencionais”, triste estatística que anota o Brasil como campeão), tais alternativas existem; são “coisas” do mundo, têm o direito de se expressar.
Biologia (natureza) e cultura (dimensão simbólica) nos definem. Povos com organização social menos primitiva resguardam o universo político de influências religiosas. Nós demos marcha à ré. Estamos desfazendo a República, relativizando a Constituição e levando religião às escolas, aos meios de comunicação, ao Parlamento.
Essas práticas fazem não só a cabeça da massa ignara, fazem também parlamentares, logo, leis. O exercício de liberdades, incluindo a sexual, necessita de uma cultura libertária. Que o\as democratas preocupado\as com laicidade, república, igualdade de gênero, enfim, com os sentidos da civilização, façamos por nos salvar de atrasos tais e quais. Amém
*Doutor em Direito pela UFSC.Psicanalista e Jornalista

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