quarta-feira, 30 setembro 2026

Rita Cruz: “Fui a Cabo Verde depois do meu pai morrer. Era uma coisa que me faltava, como se tivesse esse lado que precisava de concretizar”

 

Ainda pequena, Rita Cruz sonhou e anunciou o próprio futuro: “vou ser atriz”. A certeza, conta nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, foi-se acentuando enquanto crescia, nas “pequenas rábulas” que fazia na escola. “Era mais forte do que eu, essa necessidade de colocar a criatividade em prática”.

Os planos artísticos acabaram, contudo, adiados, ao esbarrarem em alertas de precariedade laboral.

Por um lado, a mãe aconselhou-a a tirar um curso superior com uma saída profissional estável. Por outro lado, o pai estava bem consciente dos desafios da vida de artista. “Era músico, mas também tinha uma profissão dita normal. Acho que ele via em mim este gosto pela arte, mas também me dizia: vai por uma coisa mais segura”.

Rita foi, e por isso formou-se em Reabilitação e Inserção Social, pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada, antes de seguir o destino que desde cedo reconheceu como seu.

Licenciada em Teatro – Atores, pela Escola Superior de Teatro e Cinema, avançou para os palcos e nunca mais recuou.

“Cofundei o Teatro do Eléctrico já com a vontade de construir oportunidades. Só mais tarde percebo a importância que teve, porque jovens vieram ter comigo: ‘olha, fui para a escola de teatro porque te vi num palco, nunca tinha visto uma atriz negra’”.

Hoje consciente da importância de todas as pessoas se sentirem identificadas na ficção, Rita defende que a “falta de representatividade fecha-nos a possibilidade de sonhar”.

Ela própria ‘órfã’ de referências negras – “Em criança via quem? A Whoopi Goldberg, e pouco mais” –, reconhece que a sua trajetória foi construída a partir de uma “grande vontade de fazer”, combinada com uma certa dose de inconsciência.

“Ouvi muitos “nãos’ e ‘mais vale não vires ao casting porque não fazes parte do perfil’. Eu percebia o que se queria dizer, era pura e simplesmente a cor. Mas ia, e aconteceu-me variadíssimas vezes o encenador ter gostado da minha prestação e ficar com o papel”.

Contra as probabilidades, numa altura em que “não via Ritas na televisão, na publicidade, ou na música”, a multifacetada artista considera que, a partir da exposição a outras Ritas, as novas gerações expandiram o imaginário, e, com isso as aspirações.

“Há uns tempos, tivemos uma conversa com diferentes gerações, em que se falou de representatividade, e viu-se a diferença geracional: os miúdos de 20 anos são muito mais frontais, [dizem]: “isto é um direito meu’”.

Além das palavras, a atriz sublinha a importância de combater atos de discriminação, algo que procura fazer também através da educação do filho.

“Quando eu era mais jovem sentia-me sozinha e não sabia porquê. Era um sítio de solidão, este não dizer, sentir, mas não saber dar nome, este não lugar. Portanto, acho muito importante falar [sobre racismo] com os pais, com a professora, e com o meu filho”.

Um dos temas de discussão, aponta Rita, tem sido o lápis cor de pele. “Basta colocar várias mãos à frente, e conseguem perceber que há diferentes tons de pele. Isto é muito importante para as crianças não se sentirem sozinhas, num sítio de exclusão”.

O compromisso com a inclusão, presente na representação e na maternidade, estende-se à música, e tem no tema ‘Cuidado’, gravado com Dino d’Santiago, um sonoro manifesto.

“Ser uma boa pessoa é uma relíquia, ter em atenção o outro. Nós estamos num sítio de muito umbigo, fechados. Temos de procurar mais o outro”.

 
A Semana com  SIC Noticias

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Comentários

joão do rosário
23 dias atrás 17 horas atrás

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jcf
25 dias atrás 10 horas atrás

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joão do rosário
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