quinta-feira, 01 outubro 2026

Dia Mundial do Cinema: Natasha Craveiro defende criação de políticas públicas para impulsionar cinema cabo-verdiano

No âmbito do Dia Mundial da Cinema, assinalado hoje, Natasha Craveiro traçou à Inforpress um retrato claro e apaixonado da realidade do cinema cabo-verdiano, que considera “ainda um projecto, um desejo e um sonho por concretizar”.

Segundo a cineasta, o país vive um momento de crescente procura internacional, muito por causa da riqueza natural das ilhas e do talento das pessoas, mas continua a enfrentar graves limitações estruturais.

A aprovação da primeira lei do cinema, referiu, foi um passo decisivo, mas insuficiente.

“A lei, por si só, não tem a capacidade de fazer a indústria florescer. É preciso muito mais do que legislação”, afirmou, defendendo a criação de uma nova política para o sector e uma nova percepção sobre o cinema como instrumento de transformação social e económica.

Natasha Craveiro destacou que o cinema deve ser visto também como actividade económica, com potencial para gerar emprego, promover o turismo e fortalecer a cultura nacional.

Para ela, a consolidação de verdadeira indústria exige harmonização entre talento, financiamento e vontade política.

Socióloga de formação, feminista e fundadora da produtora “Korikaxoru Films”, Craveiro considera que o seu trabalho nasce de um forte compromisso social.

“A arte deve ser utilizada como instrumento de transformação no sentido de alcançarmos sociedades mais humanas”, realçou, explicando que a sua formação em sociologia molda a missão do seu cinema.

O seu percurso profissional começou há cerca de dez anos, quando sentiu a necessidade de criar um espaço próprio de produção e partilha.

Desde então, a “Korikaxiru Films” tornou-se um símbolo de resistência e criatividade dentro do panorama nacional.

Entre as suas influências artísticas, apontou o realismo fantástico, presente desde a infância, e o impacto de realizadoras como Sarah Maldoror e Chantal Akerman, cujas abordagens estéticas e políticas inspiraram o seu olhar.

Referiu ainda a admiração por Leão Lopes, Carlos Yuri Ceuninck, autor de “Omi Nobu”, vencedor do Etalan d’ Or no Fespaço 2023, e destacou a força de novas vozes femininas como Artemisa Ferreira, Celeste Fortes, Chissana Magalhães, Josiana Cardoso, Lisa Lopi e Max Maximiano.

Entre as produções que mais a marcaram, mencionou o filme “Black Tea”, de Abderrahmane Sissako, o seu projecto “Pirinha”, e a sua participação no Festival de Cannes em 2023, um momento que descreve como “terminante” na sua trajectória. 

Para Craveiro, o cinema é um instrumento de memória e afirmação identitária.

“Quero contar as nossas histórias com toda a bagagem que nascer, crescer e viver neste chão me conferem”, frisou. 

A língua, a música, o espaço insular e a convivência com o povo, sublinhou, são elementos centrais da sua narrativa.

Ao falar dos desafios do sector, voltou a insistir na ausência de políticas consistentes e de fontes de financiamento nacionais.

“Só fazendo esse trabalho de base surgirá, no fundo do túnel, a luz de um verdadeiro financiamento”, vincou.

Acrescentou que o cinema e o audiovisual “têm um potencial enorme ainda inexplorado”.

A realizadora lamentou a falta de salas de cinema e o consequente desaparecimento do hábito de assistir filmes.

Lembrou que existe apenas uma sala na capital, dedicada sobretudo a produções estrangeiras.

“O cabo-verdiano é um povo interessado no cinema, mas perdeu o hábito de ir às salas”, observou, sugerindo a criação de quotas nacionais em cinemas e televisões para garantir espaço às produções locais.

Natasha Craveiro reconheceu ainda a importância das plataformas digitais, mas questionou a sua real eficácia no contexto nacional.

Apesar dos entraves, a cineasta mantém-se optimista.

“Sou optimista relativamente ao futuro do cinema cabo-verdiano, mas é preciso criar um ecossistema certo” acentuou, apelando ao envolvimento das universidades e à introdução de cursos de cinema em Cabo Verde.

Concluiu com uma mensagem de união dirigida aos jovens e profissionais da área.

“Precisamos falar numa só voz quando o assunto é o desenvolvimento do sector onde nos encontramos inseridos”. 

 

A Semana com Inforpress

Colunistas

Alexandre Vieira Fontes
Alexandre Vieira Fontes
18 Sep. 2026
Filomena Silva: uma jornalista de coragem e...
Léo Rosa de Andrade
Léo Rosa de Andrade
31 Aug. 2026
A ÉTICA DO DESINTERESSE, A VIDA EM...
César Augusto G. Garcia
César Augusto G. Garcia
21 Aug. 2026
COISAS DO ESTADO ou ESTADO DE COISAS...

Comentários

joão do rosário
24 dias atrás 22 horas atrás

SENHOR PRESIDENTE, DEIXE-SE DE TRETAS: NÓS SABEMOS QUEM O SENHOR É José Maria Neves vem agora dizer que é “muito melho ...

jcf
26 dias atrás 14 horas atrás

Cabo Verde tem uma facilidade extraordinária para comentar o que se passa na casa dos outros. Guiné-Bissau, Angola, Moçamb ...

joão do rosário
28 dias atrás 20 horas atrás

Isto já parece gozo. 177 casos desde o início do ano e já estão outra vez a sacudir o fantasma da pandemia. Sem números ...

Pub-Reportagem

publireport