segunda-feira, 28 setembro 2026

Violência no Brasil pesa cada vez mais na decisão dos brasileiros de emigrarem para Portugal

A insegurança e violência no Brasil estão entre as principais razões que levaram os brasileiros chegados nos últimos anos a Portugal a deixar o seu país, somando-se assim aos motivos políticos, económicos e sociais, segundo associações de imigrantes.

"Sem dúvida nenhuma que a violência no Brasil é um dos principais motivos que levam o brasileiros a querer mudar de país, tendo Portugal (…) como destino preferido", afirmou a presidente da Associação Sociocultural Luso-brasileira de Apoio à Integração em Portugal (UAI), com sede em Braga, Alexandra Gomide, em declarações à Lusa.

Para aquela responsável, o impacto direto desse fator na decisão de emigrar percebe-se desde logo pelo tipo de comunidade que tem chegado a Portugal, composta por "muitas famílias".

"São os pais tentando trazer os filhos para um ambiente mais seguro”, disse.

“A gente vê hoje mais famílias inteiras a mudarem-se do que pessoas individuais em busca de uma vida melhor, o fator inicial da imigração", reforçou.

Mas também porque "a grande maioria" dos imigrantes brasileiros que chegam à UAI nos últimos anos “referem isso” mesmo, ou seja, dizem que "querem trazer os filhos para um ambiente mais seguro", frisou.

Por isso, Alexandra Gomide coloca a violência "em primeiro lugar" na lista dos fatores com mais peso na decisão de emigrar dos brasileiros que nos últimos anos chegaram a Portugal.

Apesar de considerar que aquela decisão acaba sempre por ser o resultado de "um somatório de fatores", onde a instabilidade política "desgastante" no Brasil e a procura de um emprego melhor e melhores condições de vida também são fatores de peso.

Portugal, "além de oferecer segurança, pode oferecer uma boa educação e um bom sistema de saúde", afirma.

O país também oferece outras facilidades, por ser um país que fala português e um destino onde o processo de obtenção de documentos e da cidadania pode ser mais rápido.

A UAI está a atender "em média 80 novas famílias por mês", adiantou.

Outro indicador que no entender de Alexandra Gomide é revelador de que a insegurança e a violência que hoje se vive no Brasil tem um peso significativo nas decisões de emigrar é que "as grandes cidades [do Brasil] são as que mais perdem brasileiros”.

“A grande maioria vem das grandes cidades, Rio de Janeiro, muitos, pelo menos aqui em Braga (...)", adiantou.

Ressalvando, porém, que isso não quer dizer que não cheguem a Portugal muitos brasileiros também vindos de pequenas cidades: “Porque, na verdade, a gente vive um contexto no Brasil em que a violência está bem disseminada”, salientou.

“Às vezes a pessoa vive no interior, nem lida tanto com essas situações, mas no noticiário passa tanta coisa negativa, tanta coisa ruim que o medo ali já foi instalado. Por isso, às vezes, a pessoa nem viveu [a violência] num contexto real, mas sai de medo de vir a acontecer", acrescentou.

Quando emigrou para Portugal, há seis anos, a insegurança e a violência já era "uma coisa que incomodava" e com a qual os brasileiros aprenderam lidar, recordou.

"Tem determinadas situações que para a gente já faz sentido, o andar abraçado com a bolsa, o não usar o telemóvel na rua. (...) A gente vive numa tensão extremamente grande lá. Mas passa a ser normal", confessou. "Aqui a gente aprende a viver livre", concluiu.

Já para a presidente da Casa do Brasil de Lisboa, Cyntia de Paula, a insegurança e a violência naquele país da América Latina é apenas um dos vários fatores que hoje pesam na decisão dos brasileiros de emigrarem, mas até não é dos mais relevantes para alguns grupos.

"A questão da emigração recente [de brasileiros] é multifacetada”, porque “são muitos os motivos pelos quais as pessoas escolhem emigrar", afirmou.

Na sua opinião, "está muito ligada à questão económica e política", a primeira muito por causa da subida da inflação, que começou a sentir-se no Brasil muito antes do que em Portugal, e a segunda pelo discurso do atual Governo, liderado por Jair Bolsonaro, com o qual as pessoa não se identificam, ou que gera receios de segurança para minorias étnicas ou raciais ou mesmo para certas comunidades como a LGBT, ou até ativistas.

O executivo de Jair Bolsonaro "não tem um discurso claro contra qualquer forma de violência" e "não há um discurso de igualdade, de defesa dos direitos humanos de respeito pelas minorias", neste momento no Brasil, justificou. Pelo contrário, o discurso do executivo brasileiro é até, por vezes, "xenófobo e homofóbico", podendo "fomentar a discriminação e a violência", considerou.

Isso faz com que haja "uma maior procura desses grupos, pelo descontentamento político e por luta política de proteção" por Portugal.

Por outro lado, salientou, "o Brasil é imenso e a relação com a violência é diferente, dependendo da cidade de onde vem [o imigrante brasileiro] (...)", referiu, acrescentando que "nas cidades pequenas, essa questão é percecionada de uma forma diferente de quem vem das grandes cidades", frisou.

Assim, considerou que é "importante", quando se fala das motivações dos brasileiros para emigrar, "pensar no Brasil em termos continentais e não como um bloco único de pessoas, com realidades económicas e sociais todas iguais", porque o país "é muito diferente de um sítio para o outro” e hoje “chega [a Portugal] gente de qualquer lugar do Brasil".

Assim, concluiu: "Claro que algumas pessoas e alguns grupos” vêm pela questão da insegurança e da violência, “sobretudo das grandes cidades” onde ela se sente mais. “Mas as pessoas não vêm só dessas cidades".

Por isso, esse motivo "pode influenciar, sim, alguns processos migratórios, mas as motivações são muito variadas" para os imigrantes brasileiros, desde o querer vir estudar, ou trabalhar, à procura de melhores condições de vida, ou mesmo querer empreender, frisou.

A Semana com Lusa

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Comentários

joão do rosário
22 dias atrás 4 horas atrás

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jcf
23 dias atrás 21 horas atrás

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joão do rosário
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