terça-feira, 29 setembro 2026

ENTREVISTA: Mana Guta encontrou na escrita uma forma de sobreviver à dor da doença da mãe

A escritora cabo-verdiana Mana Guta encontrou na escrita uma forma de lidar com a dor provocada pela doença terminal da mãe, experiência que, em 2012, marcou profundamente o seu percurso pessoal e literário.

A mãe, já em fase terminal de cancro, decidiu transmitir-lhe, no pouco tempo que lhe restava, ensinamentos, segredos familiares e responsabilidades que considerava necessário deixar assegurados.

Durante três semanas, Mana Guta acompanhou diariamente a mãe no Hospital de Santa Maria, em Lisboa (Portugal), num período que descreve como doloroso e transformador.

Em entrevista à Inforpress, a escritora recorda que a progressão da doença fazia com que a mãe se esquecesse, no dia seguinte, das conversas que tinham tido e voltasse a repetir os mesmos ensinamentos, enquanto a filha procurava esconder o sofrimento e transmitir-lhe a segurança de que conseguiria assumir as responsabilidades familiares.

“Passei a ser outra pessoa, porque, como ela já estava em fase de metástase, no dia seguinte esquecia-se do que me tinha dito e repetia tudo de novo, crente de que eu tinha acabado de chegar de Cabo Verde”, recorda.

Quando a mãe regressou a Cabo Verde, Mana Guta passou a lidar também com a procura de antigos alunos, pessoas que aquela ajudara a nascer enquanto parteira, além de comadres, familiares e outras pessoas que pretendiam vê-la ou falar com ela.

Num momento em que a família precisava de privacidade para acompanhar a doente, as visitas tornaram-se difíceis de controlar.

“Quando a família mais precisava de privacidade para cuidar dela, era impossível controlar as visitas”, conta.

Foi nesse contexto que a escrita ganhou um novo significado. 

Mana Guta começou a escrever ficção e poesia como forma de conseguir dormir, trabalhar, estudar e cuidar da família.

“Foi assim que sobrevivi”, resume.

A experiência levou-a a reconhecer na escrita uma dimensão reparadora, que define como um “portal de sublimação”.

Antes desse período, entre 1992 e 2012, a sua produção estava sobretudo ligada a textos académicos, manuais da área de ensino de línguas e literatura e trabalhos relacionados com a actividade parlamentar.

A ficção abriu, contudo, uma nova etapa no seu percurso e consolidou o nome Mana Guta como identidade literária.

“Foi com a ficção que utilizei Mana Guta e é como Mana Guta que estou a cumprir a minha missão nesta peregrinação terrena”, afirma.

A experiência da perda continuou a marcar a sua criação. 

Entre as obras que associa directamente a momentos de dor está “Outras Pasárgadas de Mim”, que escreveu na sequência da morte da mãe.

Também “Nhara Sakedu” nasceu de uma situação pessoal difícil. 

O livro já estava dentro dela, na sequência da perda de familiares e especialmente a avó paterna. Faltava aquele impulso. 

A escritora conta que o escreveu numa noite em Boa Vista, depois de ter ficado em terra por duas vezes devido a voos cancelados, numa altura em que pretendia passar o Natal com a família.

Mana Guta diz escrever “por impulso”, sobretudo quando está triste, precisa de se concentrar ou perde alguém importante.

“Escrevo para continuar a ser eu”, afirma.

A literatura infantojuvenil constitui, contudo, uma dimensão diferente da sua criação, associada à infância e à maternidade.

“Camões Crioulo” e “A História das Ilhas”, explica, nasceram do gosto pela própria infância e da vontade de preservar as histórias que contava às crianças da família.

As histórias começaram por ser contadas oralmente em casa, mas a necessidade de preservar os detalhes levou-a a registá-las. 

As ilustrações feitas pela filha contribuíram posteriormente para a decisão de publicar a obra.

A maternidade teve também um papel importante na formação da escritora, pois quando a filha mais velha completou 14 anos, Mana Guta já tinha registado mais de 20 histórias.

A influência mais profunda sobre a sua escrita, sustenta, não veio necessariamente dos autores que leu, mas sobretudo das pessoas que marcaram a sua infância e lhe transmitiram conhecimentos através da oralidade, mesmo sem saberem ler ou escrever.

“São eles que falam através de mim”, afirma.

A autora identifica-se sobretudo com a prosa e os contos, apesar de ser também conhecida pela poesia, e revela preferência pelo finason quando escreve em verso.

A relação entre memória, oralidade e criação está igualmente presente na forma como Mana Guta encara o seu legado enquanto escritora.

A escritora considera que recebeu uma herança cultural que tem a responsabilidade de transmitir às novas gerações.

“Ser africana e cabo-verdiana é uma bênção e uma missão”, resume.

 

A Semana com Inforpress

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Comentários

joão do rosário
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jcf
25 dias atrás 1 horas atrás

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joão do rosário
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