sábado, 03 outubro 2026

REPORTAGEM/São Vicente: Agricultores do Calhau pedem fim da espécie acácia por absorver a água para cultivo

O apelo foi lançado à Inforpress por um dos mais antigos agricultores do vale do Calhau António Fortes, que afirmou que a multiplicação dessas espécies tem preocupado os agricultores porque, além de consumir muita água, servem de ninho para albergar pragas como gafanhoto, que dizimam o cultivo.

“A água é o principal mal que temos aqui, porque esta árvore que plantaram é uma praga que temos em Cabo Verde. É uma planta que serve apenas para secar água. Há muito que falam em dessalinização de água e há pouco tempo que ouvi o deputado João Gomes a falar na Assembleia Nacional que o problema do Calhau já estava resolvido porque já tinha financiamento. Estamos aqui à espera. Se não morrermos, até esse projecto arrancar, ele há de chegar até nós”, afirmou.

Segundo o agricultor, se não fossem as árvores acácia o vale teria ainda muita água, apesar dos anos de seca.

Mas, sustentou, já se nota a escassez deste recurso para a rega, pelo que é preciso uma campanha de remoção dessas árvores que estão a invadir os terrenos agrícolas.

“Esta acácia toma praticamente três terços dessa água e ficamos apenas com um terço. Antigamente quando chovia havia muita água neste vale e as rochas tinham nascentes mesmo com a seca. Hoje não há tanto assim e as acácias tem grande culpa nisso”, acrescentou, defendendo que as autoridades nacionais devem fazer um estudo para resolver este problema.

Segundo o presidente da Associação Agropecuária do Calhau, Ederley Rodrigues, as acácias adaptaram-se ao clima de Cabo Verde, mas são espécies “extremamente competitivas”, porque as raízes podem ir buscar água dentro de um poço.

“Uma raiz de uma acácia pode chegar a uma profundidade de um poço porque as raízes dessa árvore já foram encontradas em poços.  A acácia foi introduzida no país, mas houve um descontrolo porque os animais também carregam sementes para outros lugares, ela nasce com facilidade e é extremamente adaptável”, adiantou.

Outro problema, conforme o responsável, é as acácias servirem de esconderijo de um tipo de gafanhoto grande, do continente africano, e esse insecto tem causado “grandes danos” nas propriedades agrícolas.

“Os gafanhotos sobrevivem dentro das hortas e escondem-se nas acácias e vão-se reproduzindo. Antes, eram poucos, mas neste momento há um aumento desses gafanhotos. Podemos vê-los nas amendoeiras e nas parcelas que têm acácias porque estas são mais afectadas por esta praga”, explicou.

A mesma fonte acrescentou que o maior problema dos agricultores desse vale prende-se com a retenção de água porque, além de competir com as acácias, a maior parte dos diques para retenção não estão a funcionar devido ao assoreamento.

“A nível de água já tem muito tempo que São Vicente entrou no plano de contingência por causa da chuva que caiu e dos estragos que causou, mas aqui no Calhau não foi feito nenhuma intervenção em termos de diques ou algum desassoreamento ou ainda novas estruturas para reter a água”, criticou a mesma fonte.

Lembrou que para dar combate aos gafanhotos “distribuíram um isco” para colocar nas parcelas, mas “em quantidade irrisória” para combater a praga, porque as parcelas são enormes e dois sacos por parcela “servem apenas para dois hectares”.

Para Ederley Rodrigues, o problema é que o Ministério da Agricultura e Ambiente trabalha com planos que o Governo faz, mas são planos para agricultura de sequeiro, e no Calhau os agricultores trabalham com o cultivo de regadio, pelo que, há falta de apoio.

“A ajuda que o Ministério da Agricultura e Ambiente nos dá é irrisória para a quantidade de pessoas que temos a trabalhar no regadio no Calhau. Não têm noção da quantidade de pessoas que trabalham no regadio e nas hortas, isso é uma má política para a nossa Ilha”, criticou o presidente da Associação Agropecuária do Calhau.

“Trabalhamos mais com rega gota a gota e quem cultiva no sequeiro são as pessoas que trabalham na agricultura como hobby”, reforçou, defendendo que para que a produção em São Vicente se desenvolva, para atender a demanda do turismo, é preciso acompanhar o ritmo de desenvolvimento na agricultura.

“O que vejo é que a agricultura não está a acompanhar esse ritmo de desenvolvimento não só porque às vezes programas não funcionam, mas tem que fazer programas direccionadas especificamente para o local para produção”, constatou.

Segundo Ederley Rodrigues, nesse perímetro agrícola há 15 carrinhas toyota hiaces que trabalham directamente ligadas à agricultura, pelo que para que as famílias tenham rendimento é preciso que a agricultura funcione.

“Trazem vendedeiras que levam as mercadorias à cidade e não só. São postos de empregos quase que directos. Mas também há dezenas de mulheres que vêm comprar hortaliças e verduras, há pessoas aqui que já criaram empresas e que colocam produtos nos supermercados e casas comerciais porque preferem produtos do Calhau, porque têm mais durabilidade. Quem fica mais lesado é o agricultor porque é a pessoa que vende depois o produto vai ser terceirizado e quando se agrega valor quase que está na mão do consumidor”, finalizou o presidente da Associação Agropecuária do Calhau.

Na Ribeira de Calhau existem à volta de 220 hectares de terrenos agrícolas, dos quais cerca de 90 estão ocupados, mas desses apenas 12 hectares estão activos.

A maior parte não produz por dificuldades de acesso à água até porque, dos cerca de 360 poços existentes, menos cerca de 100 estão activos.

De acordo com o Anuário Estatístico realizado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), a produção agrícola em Cabo Verde passou de 70.926 toneladas em 2016 para 42.085 toneladas em 2020.

A produção agrícola foi caindo todos os anos a partir de 2016, com o agravamento dos efeitos da seca, acumulando uma redução de 40,6 por cento (%) no período de quatro anos.

No mês de junho de 2023, dados do inquérito nacional sobre a vulnerabilidade alimenta apontaram que 81 mil pessoas em Cabo Verde, ou seja, 17 % da população estava na fase de subpressão, pouco mais de 40 mil, ou seja, 8 % já na fase de crise alimentar e um pouco menos de 1 % na fase de emergência alimentar

No mesmo ano, o Ministério da Agricultura e Ambiente anunciou a implementação do programa de mobilização de água para a agricultura em Cabo Verde, financiado pelo Governo da Hungria em 3, 8 milhões de contos (3,5 milhões de euros). Mas, numa primeira fase, vai beneficiar cinco municípios do País, sendo São Domingos, Santa Cruz, São Lourenço dos Órgãos, Maio e Boa Vista.

 

A Semana com Inforpress

Colunistas

Alexandre Vieira Fontes
Alexandre Vieira Fontes
18 Sep. 2026
Filomena Silva: uma jornalista de coragem e...
Léo Rosa de Andrade
Léo Rosa de Andrade
31 Aug. 2026
A ÉTICA DO DESINTERESSE, A VIDA EM...
César Augusto G. Garcia
César Augusto G. Garcia
21 Aug. 2026
COISAS DO ESTADO ou ESTADO DE COISAS...

Comentários

joão do rosário
26 dias atrás 12 horas atrás

SENHOR PRESIDENTE, DEIXE-SE DE TRETAS: NÓS SABEMOS QUEM O SENHOR É José Maria Neves vem agora dizer que é “muito melho ...

jcf
28 dias atrás 5 horas atrás

Cabo Verde tem uma facilidade extraordinária para comentar o que se passa na casa dos outros. Guiné-Bissau, Angola, Moçamb ...

joão do rosário
30 dias atrás 11 horas atrás

Isto já parece gozo. 177 casos desde o início do ano e já estão outra vez a sacudir o fantasma da pandemia. Sem números ...

Pub-Reportagem

publireport