quinta-feira, 01 outubro 2026

REPORTAGEM: Volta a Djeu, quando o mar decide testar os nadadores

 Às oito da manhã, a Laginha despertava para mais um sábado, mas o mar apresentava-se inquieto, com ondas e forte correnteza, antecipando os desafios reservados aos 20 participantes da 12.ª edição da “Volta a Djeu”.

Da praia, os atletas lançaram-se à água. À frente, os 5,2 quilómetros que separavam a Laginha do Ilhéu dos Pássaros, o Djeu, e novamente da praia.

Pelo caminho, não havia estrada, apenas o mar, as boias e a experiência de quem sabe que, no oceano, cada braçada pode ser também uma negociação com a natureza.

A Inforpress seguiu a prova a bordo do “Voador”, embarcação da Guarda Costeira, testemunhando de perto cada braçada, cada onda e cada momento de tensão.

O mar, picado e irregular, empurrava os nadadores para longe da rota, com uma corrente que parecia querer prolongar o caminho e, a cada braçada, obrigava-os a corrigir o rumo.

A distância, que no papel era de 5,2 quilómetros, parecia ganhar outros números dentro de água.

Alguns nadadores começaram a perder a noção do tempo e do espaço. O esforço aumentava, o corpo pedia descanso, mas a meta continuava lá, algures entre a espuma, o horizonte e a praia, que se via cada vez mais distante.

Dos 20 participantes, 18 homens e duas mulheres, provenientes de São Vicente, Santo Antão, Maio, Santiago e Sal, apenas 12 conseguiram completar o percurso.

O Djeu não foi apenas uma volta. Foi uma prova dentro da prova e, até para quem integrava a equipa de apoio, o sábado foi marcado por sobressaltos.

Um caiaque virou-se no meio das ondas e o ocupante queixou-se de cãibras nas pernas. Duas pessoas que seguiam numa mota de água acabaram igualmente na água, surpreendidas pela força das ondas.

Mais tarde, a Polícia Marítima teve de intervir para socorrer um nadador que se encontrava em dificuldades.

Entretanto, houve ainda quem quisesse desafiar o mar por sua própria conta, como um jovem que tentou cumprir o percurso sem autorização, mas foi aconselhado pela Polícia Nacional a regressar à praia, por razões de segurança.

No meio da agitação, felizmente, nenhum incidente grave veio manchar a jornada.

Entre os que chegaram ao fim estava Javier Garcia, de 61 anos, que participou pela segunda vez na travessia e precisou de uma hora e 53 minutos para completar o percurso.

Chegou cansado, mas vencedor, e a primeira coisa que deixou foi o reconhecimento da dureza da travessia.

Atrás dele, com uma hora e 58 minutos, chegou Bruno Fernandes, de Santiago, que confessou estar à espera de adrenalina e de condições desafiantes.

No terceiro lugar apareceu um rosto que já se confunde com a própria história da Volta a Djeu: David Monteiro, cujo feito vai além da classificação.

David, “o homem das 12 voltas”, é o único participante que esteve presente em todas as edições da prova, em São Vicente, primeiro como nadador e também como membro da organização.

Doze edições, doze encontros com o mar, embora nunca exactamente com o mesmo mar.

Porque esta é uma das lições da Volta a Djeu: o percurso pode ser o mesmo, a distância pode continuar a ser de 5,2 quilómetros, a partida pode acontecer sempre na Laginha e o destino continuar a ser o Djeu, mas o mar nunca se repete.

E, neste sábado, fez questão de deixar a sua marca: a 12.ª Volta a Djeu terminou com 12 nadadores a completarem o percurso e, mais do que chegar ao Djeu e regressar, tiveram de convencer o mar a abrir caminho.

A Semana com Inforpress

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Comentários

joão do rosário
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joão do rosário
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