terça-feira, 29 setembro 2026

Romantismo é outra coisa, viu?

 

O “romântico” atual trai o Romantismo. É um simplório movido por costumes, ignora as causas de certos cerimoniais, é alienado do surgimento e manutenção de determinados valores, da função dos aparelhos ideológicos. O romântico genuíno é o exaltado contestador social, o ativo crítico político. O “romântico” dos nossos dias está aí, sonhando com as pautas do pequeno burguesismo, cumprindo a ética do sistema dominante. O romântico autêntico é o antiburguês por excelência: é conflitivo, radical; é antagonista ao estabelecido, às convenções, que considera hipócritas.

 

Essa prestigiada versão popular do Romantismo é desvirtuamento de uma manifestação estética e literária importante na Tradição Ocidental. O Romantismo é um movimento cultural desencadeado por intelectuais e artistas na passagem do século XVIII para o XIX que rompe com as regras clássicas de composição e expressão; institui-se como superação das formas rigidamente amarradas de outro movimento, o Classicismo. O romântico abandona as obrigações sociais e as formatações racionais, defende o individualismo, o lirismo, a sensibilidade, a originalidade, a imaginação.

O sentimento, para o romântico, era expresso pela liberdade, pela ousadia, pelo desregramento, pelo subjetivismo, pelo interesse pelos mais variados assuntos, pela vida como aventura descomprometida. Em suma, o romântico era um rebelde que desprezava as tradições enquanto limitadoras e as valorizava enquanto criações espontâneas. Só não era um ser antissocial porque desconsiderava de tal forma as convenções sociais que nem se daria ao trabalho de combatê-las. O romântico, antes de se preocupar em dar batalha à Sociedade, preferia viver à sua margem.

Desconheço a origem da ideia de que para ser romântico tem que ser piegas, exacerbado em sentimentalismo. Aliás, esse assunto é coisa que se estuda lá no ensino médio e, ademais, é tema facilmente encontrável na internet. Não estou abordando nada tão esotérico, portanto. Quero dizer: não é difícil saber o que é Romantismo. Creio que o cinema meloso dos anos 1950 e as novelas de rádio e TV, pela abrangência que tiveram e têm, fizeram vingar e alimentam essa noção de que ser romântico é fazer-se sentimentalista nas emoções que nascem da convivência amorosa.

O romântico, na sua origem, é o inverso disso; elege uma condição existencial, digamos, triste. Sua característica é ser pessimista, melancólico, personalista, crítico social. Não imagino, portanto, como um romântico poderia submeter-se aos jeitos novelescos que os anseios mais vulgares lhe pretendem atribuir. Creio que as pessoas confundem a fugacidade das declarações amorosas com a condição existencial de ser romântico, misturam o despegar-se da racionalidade como limitação à criação intelectual e artística com o apegar-se a ritualismos propiciatórios de afeição.

O “romântico” atual trai o Romantismo. É um simplório movido por costumes, ignora as causas de certos cerimoniais, é alienado do surgimento e manutenção de determinados valores, da função dos aparelhos ideológicos. O romântico genuíno é o exaltado contestador social, o ativo crítico político. O “romântico” dos nossos dias está aí, sonhando com as pautas do pequeno burguesismo, cumprindo a ética do sistema dominante. O romântico autêntico é o antiburguês por excelência: é conflitivo, radical; é antagonista ao estabelecido, às convenções, que considera hipócritas.

Compõe, ainda, essa corrente de pensamento, com efeitos no presente, o credo na pureza da natureza, quase lhe emprestando um caráter de ser que sofre e reage, valorizando o “bom selvagem” corrompido pela maus da “vida civilizada”. Com sequelas, também, na atualidade, está a condição em que se punha a mulher: admirada, “cuidada”, objeto “puro” a ser cultuado e pelo qual seria belo sofrer. Essa condição atribuída ao feminino tornou-se uma armadilha que remeteu a mulher para a vida privada, lugar da moça “feita para casar”, tendo como destino o reino do lar.

O Romantismo “raiz”, contudo, é interessante: valorizou o sentimento e elogiou as emoções como nenhum outro movimento sociocultural o fez. Agora, esse “romântico” de folhetim que reduz emoção ao conforto do institucionalizado, do apropriado por manuais de conduta, a isso eu nomeio com o que o Houaiss designa cafona: “que ou o que revela mau gosto, pouca sofisticação”, ou com o que o Aurélio denomina brega: “deselegante”. É, Romantismo é mesmo outra coisa, viu? O tema é instigante e facilmente se encontram bons textos a respeito. Se eu não convenci, convido a conferir.

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* Doutor em Direito pela UFSC.Psicanalista e Jornalista.

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Comentários

joão do rosário
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joão do rosário
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